RESENHA: Dançando no Escuro – Lars von Trier

Mesmo depois da última cena do filme, permaneço chorando. Meu lado racional me faz contabilizar mais de 20 minutos sob lágrimas. Os créditos já estavam na metade quando a umidade no meu rosto começa a secar. Inquietação, incômodo, confusão. Uma miscelânea de sentimentos e sensações. Angústia talvez? Sempre em busca de histórias que me causem algum desconforto, tenho me interessado ultimamente pelo cineasta dinamarquês Lars Von Trier. Polêmico, é impossível ficar apático diante de suas obras. E no terceiro filme que assisto dele não foi diferente.

images-1 O filme em questão é “Dançando no Escuro”, lançado em 2000. Mais de uma década se passou para que eu pegasse o DVD em mãos e dedicasse 2h20 à história de Selma Jezková. A protagonista é vivida pela cantora islandesa Bjork em um desempenho arrebatador que lhe deu o prêmio de melhor atriz em Cannes. Bjork interpreta uma imigrante tcheca que possui uma doença hereditária degenerativa que causa cegueira. Mãe de Gene, de 12 anos, ela decide mudar para os Estados Unidos com o objetivo de conseguir uma cirurgia para o garoto que também vai desenvolver a mesma doença.

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Só que Selma não tem condições financeiras para bancar a cirurgia do filho. Ela e o menino moram em um trailer localizado na propriedade do policial  Bill e de sua esposa Linda. Contudo, apesar das dificuldades, Selma junta cada centavo que ganha na metalúrgica para conseguir pagar o procedimento. Trabalho onde ela tenta disfarçar ao máximo o problema de visão que acada dia fica mais grave. 

imagesJuntam-se à história a melhor amiga e colega de trabalho Kathy, interpretada por ninguém menos que a musa francesa Catherine Deneuve, e o amigo apaixonado Jeff (Peter Stormare). Os dois vão estar sempre ao lado da protagonista.

A sinopse em si, pode até parecer melodramática demais. Entretanto, os diálogos pertinentes e as músicas compostas pela própria Bjork dão profundidade ao filme. E diferente dos musicais hollywoodianos, em “Dançando no Escuro” nem tudo acaba bem. Não se trata de uma mocinha qualquer em busca de um mocinho vaidoso e turrão. Selma é uma mãe que busca desesperadamente salvar o filho da cegueira. Para suportar a realidade que se mostra a cada minuto do filme mais dura, a protagonista se imagina vivendo em um musical. Segundo ela mesmo diz, nos musicais não existem problemas. Em uma das cenas mais emocionantes de “Dançando…”, quando Jeff descobre a cegueira de Selma, ela canta que já viu tudo o que precisava ver na vida. A música, inclusive, concorreu ao Oscar de melhor canção original na época.

POLYDOR-selma-szenenfotoNa metade do filme, Selma se envolve em um assassinato e, a partir daí, o cinema crítico de Lars von Trier ganha mais espaço. Sem dinheiro para pagar um advogado, ela é defendida por um profissional indicado pela Corte. Para mostrar o desinteresse do advogado, o diretor que também assina o roteiro deixa o personagem sem fala. Por outro lado, o advogado de acusação tem boa retórica e consegue convencer o júri.

Presa, sozinha e cega. A amiga Kathy tenta em vão convencer Selma a usar o dinheiro da cirurgia do filho para pagar um bom advogado. Ela se recusa. Se concordasse, todo o esforço teria sido em vão.

images-2Crítico contundente dos Estados Unidos, Lars von Trier usa Selma para mostrar uma realidade onde os fracos não têm vez. Antes era a metalúrgica que tentava sugar os sonhos da sonhadora imigrante tcheca. Depois a “justiça” norte-americana quase os destruiu. Na última cena do filme, Selma está prestes a morrer e canta uma música em que manda um recado para Gene. Os últimos conselhos de uma mãe que deu a vida pelo único filho. Lágrimas há muito já escorriam pelo meu rosto quando Lars von Trier dá o último soco no estômago de quem assiste a “Dançando…”

Quando os créditos acabam, resolvo fuçar nos extras do DVD. Encontro uma espécie de documentário sobre os bastidores do filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes. O diretor explica o processo de criação e a difícil relação que teve com Bjork (Ela chegou a rasgar o figurino com os dentes e sumir por uns dias).

Apesar de me chocar, esse conflito diretor/atriz não me surpreendeu tanto. Em um filme tão complexo e denso, a entrega de Bjork teve que ser tanta que a palavra “corta” talvez não fora suficiente para desmontar do personagem. E se nos bastidores a relação dos dois beirou o insuportável, em frente às câmeras ela se transformou em uma das parcerias mais vicerais do cinema contemporâneo. Que venha o próximo filme de Lars von Trier. Ou seria melhor dizer: próximo!

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