CRÔNICA: Almoço em família

Aos poucos a vegetação vai ganhando cores amareladas. A Zona da Mata dá lugar ao Agreste Potiguar. Ao longo dos mais de 60 quilômetros que separam a capital do Rio Grande do Norte da cidadezinha de quase 9 mil habitantes, terras pouco habitadas. Um ou outro condomínio de casas tornam-se novidades. O gado magro reluta para sobreviver em terrenos tão agredidos pelo clima quente e seco.  Mas o sol forte não me incomodava. Afinal, eu estava ouvido algum forró no rádio do carro de painho com o ar condicionado no máximo. Só assim para evitar o calor quase insuportável que fazia lá fora.

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Na beira da tão familiar estrada de mão dupla, chama a atenção espécies de túmulos. Homenagens a pessoas que perderam a vida em acidentes. O calendário marcava 25 de dezembro de 2013. O final do ano deixara os pequeno monumentos enfeitados com flores. Os mortos não haviam sido esquecidos.

As casas que margeavam a estrada permaneciam praticamente as mesmas da minha já distante infância. A porta principal de madeira era dividida no meio. A divisão horizontal transformava a porta em uma espécie de “porta-janela”. Quando criança, costumava deixar a parte de cima da porta fechada e abrir a de baixo. Coisa de criança imaginativa que consegue achar graça em tudo.

Quando a primeira cidadezinha se aproximava, era possível ver pequenos comércios anunciando a venda de carne de sol, castanha de cajú, feijão verde, entre outras iguarias nordestinas. A fome começava a bater e a minha memória buscava involuntariamente os sabores de cada comida.

As características redes eram vistas em praticamente todas as residências. Afinal, somente elas para ajudar a aguentar um calor sufocante daqueles.

Em frente a uma das casas, uns 5 homens estão sentados em uma mesa de plástico enquanto bebem uma cerveja gelada. Não deixo de notar uma garrafa de cachaça transparente e com o rótulo preto.

O carro segue deixando a cidadezinha para trás. O destino: Serra Caiada.

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Olho o relógio. Depois de um ano sem nos reunirmos para o tradicional almoço de natal, a minha família por parte de mãe iria se encontrar na casa dos meus avós. No ano anterior, a recente morte de vovô fez vovó cancelar o evento.

Era quase meio dia e eu já me preocupava com o horário. No seus 82 anos, minha avó Maria Antônia costumava almoçar religiosamente às 11h30.

Mas logo o posto de gasolina localizado na entrada da cidade era visto por mim. O carro vira à direita. Cada pedaço daquela cidade me cheira à infância. Quantos natais não passei ali. Feirinhas de domingo. Brincadeiras. Primos e primas crescendo livres. A casa sempre cheia.

E era a tal residência de portão de ferro e muro de azulejo marrom claro que eu via agora se aproximar. A igreja logo ao lado revela a localização privilegiada.

Desço do carro. Meu avô não me esperava mais na cadeira de balanço. Infelizmente essa cena nunca mais será vista. Abro o portão e já me deparo com uma senhorinha baixinha e cheia de energia. “A benção vovó”, falo enquanto a abraço. “Deus te abençoe minha filha.”

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Sinto o cheiro delicioso saindo da cozinha. Em poucos minutos minha irmã chega com minhas sobrinhas, logo depois tios, primos, parentes distantes. Todos vão chegando. Mainha sai da cozinha colocando ordem em tudo. Se ela cozinhou o banquete é garantido.

IMG_6433Casa barulhenta. Uns se esbarram nos outros. Não tem situação melhor para um almoço de natal. Vovó assume o lugar onde vovô sentava e todos se calam. Ela agradece a presença. Dali a dois dias seria o meu aniversário e o de mainha e dona Maria Antônia puxa os parabéns. A felicidade se misturava com a saudade de vovô. Mas era dia de alegria. Quando a cantoria acaba é momento de pegar os pratos e comer. A fartura era grande, mas eu escolhi mesmo foi minha carne de sol, farofa, arroz e feijão verde. Bom demais estar na minha terra.

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