RESENHA: Infância Clandestina

Juan ama Maria. Maria ama Ernesto. Eu poderia continuar o texto me inspirando na “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade. Mas não é o caso. Juan e Ernesto são a mesma pessoa. Só que Maria não sabe.

UnknownJuan virou Ernesto depois que ele e a irmã de menos de um ano regressaram com os pais, guerrilheiros revolucionários em Cuba, à Argentina. Os pais dele faziam parte dos “monoteros”, organização político-militar argentina que atuou entre os anos de 1970 e 1979 contra a ditadura militar. E para fugir dos agentes da repressão, a família precisou adotar nomes diferentes. Uma vida aparentemente diferente.

Na nova casa, viviam os pais de Juan/Ernesto, ele, a irmã e o tio. Eles se passavam por vendedores de amendoim com chocolate. Para completar o disfarce, Juan/Ernesto começou a frequentar a escola. E foi lá que ele conheceu Maria.

O garoto que desde cedo trocou as brincadeiras típicas da idade para conviver com a realidade da luta armada contra a ditadura militar, destoava dos demais. O esconde-esconde, no caso dele, era assunto sério. A cada movimento estranho, fora orientado pelo pai a ficar em silêncio com a irmã atrás de uma parede falsa.

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Com os colegas, se divertia sim, mas sem perder a seriedade. Qualquer palavra escapada poria os pais em risco. Por outro lado, não tinha tempo a perder. Tinha urgência em viver. Afinal, não passava de um pré-adolescente.

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A luz iluminando a fita. Movimentos pensados e ensaiados. Era dia de educação física e o agora Ernesto observava umaMaria concentrada nos passos da ginástica artística. Já na saída da escola, Ernesto puxa papo com a garota. Ela sorri.

Em casa, o entra e sai dos integrantes dos “monoteros” vira rotina. Todos falam baixo. O barulho do telefone assusta. Armas, dinheiro, estratégias. Os olhares atentos do sempre calado Juan percorrem tudo. Assim como a câmera. Neste ponto, “Infância Clandestina” nos faz pensar no filme brasileiro “O ano que meus pais saíram de férias” (2006), que também revela a dura realidade da ditadura militar por meio dos olhos de um garoto. Mas voltando à história argentina, Juan vai perdendo a inocência no meio dessa clandestinidade. Paralelamente, ele quer uma vida comum ao lado de Maria. Por ela, o garoto se arrisca. Briga com os pais. Pega dinheiro do esconderijo e a leva ao parque.

Juan não tem tempo. A qualquer momento tudo pode mudar de novo. Só que Maria ama Ernesto e se assusta quando Juan se mostra para ela.

De volta para casa, Juan observa o pai sair de carro. Pouco tempo depois assiste distraído à televisão quando vê a foto dele no telejornal. O pai havia sido assassinado. Tiros. Gritos. Choros. Mais mortes. Tragédias retratadas em cenas de desenho animado. Mas aquilo era real. Duro.

Definitivamente, a infância havia ficado para trás.

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