REPORTAGEM: Comunidade se faz em equipe

“A maioria dos voluntários vem com a mentalidade de estar apenas ajudando os assistidos e esquece que é muito rico o que aprendemos com eles (…)”, diretora voluntária Gabriele Buck Reimer.

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O cheiro de alho no fundinho da panela já invadia os cômodos da casa antes mesmo das 10 horas da manhã. Nas quatro bocas do fogão, panelas m, cozinhando a com?@0,’lida que em pouco tempo seria servida para cerca de 70 pessoas. Com uma touca no cabelo, Sônia seguia o cardápio oferecido pela prefeitura. Era dia de carne em cubos, mandioca, batata, milho refogado, arroz e feijão tropeiro.

Made with Repix (http://repix.it)Funcionária há cinco meses do centro socioeducativo Semente Esperança, dona Sônia trabalha de segunda à sexta-feira das 7 horas da manhã às 5 da tarde. A primeira tarefa é servir o café da manhã que inclui leite com achocolatado, pão com manteiga e banana. E depois de lavar todas as panelas do almoço, já é hora de preparar o lanche da tarde, que inclui pão com presunto e queijo, além do copo de leite.

Tudo limpinho, impecável. Na sala ao lado ouço vozes de crianças na oficina “Além das letras”, que nada mais é que o aprendizado de português com brincadeiras e tarefas didáticas.

Em pé ao lado da mesa estava Mary Ângela Sartori, em frente aos cinco assistidos entre nove e 12 anos que prestavam atenção nas orientações: “Isso aqui é um ‘A’? Cadê a perninha? E se a palavra antes está no plural, tá faltando um ‘s’ nessa aqui…”, orienta paciente.

Durante 1h15m, as orientações se camuflam em meio a brincadeiras. Entre os textos conhecidos, encontro uma folha com palavras indígenas que, minutos depois, eram cantadas pelas crianças sem a ajuda do papel.

Em um armário, brinquedos que vez ou outra são liberados para que as crianças contem histórias com eles nas mãos. No outro canto da sala, uma porta trancada escondia um mundo mágico e divertido: fantasias para todos os gostos que uma hora mais tarde estariam sendo usadas por aquelas crianças.

Elas se animam quando é dia de atividade diferente, como quando espalham pela sala pequenos colchões azuis para sentarem durante a leitura livre e também para ouvirem histórias. Para isso, alguns livros ficam à disposição em uma biblioteca com pequeno acervo, do qual qualquer pessoa pode pegar um livro emprestado e levar para casa. “Aqui a gente incentiva a leitura. Antigamente eles não queriam ler nada. Hoje, além de levar livros para casa, disputam para ficar em pé aqui e ler um trecho”, conta Mary Ângela.

Contente, ela se lembra de quando um menino aprendeu a escrever em letra de mão, abandonando o costume da letra de forma. A turma já estava no terceiro nível dos quatro existentes no programa “Além das letras”, que ainda é complementado com o “Mil histórias”, ambos orientados pela Mary Ângela.Made with Repix (http://repix.it)

Cinco anos como voluntária no Semente Esperança, ela também colaborou para o progresso de Luiz Henrique Rodrigues, de 14 anos. Moreno e com cabelo enrolado, ele conta que frequenta o centro socioeducativo desde 2005. “Foi no ‘Mil histórias’ que eu aprendi a ler, sabia? Na escola eu não conseguia aprender e um dia a ‘dona’ foi falando ‘a’, ‘e’, ‘i’ e eu fui aprendendo… até que consegui ler e contei pros meus pais! Pedi para nunca mais me tirarem daqui…”. Luiz tem um irmão de 13 anos que também frequenta o centro e outro de 16, que já foi aluno e que hoje intercala o ensino fundamental à noite com o trabalho na lanchonete à tarde.

Quando pergunto qual a aula predileta, ele para e pensa por alguns segundos… “Hip hop!”, responde sem sombra de dúvidas. E logo apresenta dois amigos que escreveram um rap naquela manhã durante o “Além das letras”, orientado por Satiko Murakami, uma mulher japonesa com cerca de 1,60 m. Ela sorri e me explica que aquela turma já está no quarto nível da oficina, onde o objetivo é ensinar os alunos a construir um texto com começo, meio e fim. “É bem complicado conseguir fazer com que se concentrem nas atividades, mas vemos que já evoluíram do começo do ano pra cá. E isso é sempre gratificante”, diz a voluntária há quatro anos.

Duas salas ao lado, Márcia Almeida orientava uma turma de quatro alunos. Naquela manhã ela havia optado por desenhos e frases curtas para trabalhar com as crianças o tema do mês definido pela diretoria do Semente Esperança: direitos e deveres.Made with Repix (http://repix.it)

Na mureta ao lado, uma caixa com várias pastas transparentes usadas para organizar as avaliações de cada um. “Aqui a gente não usa notas… são cores que definem o resultado dos alunos. Toda sexta-feira eles levam para os pais: azul quer dizer que se empenhou bastante e que é esforçado. Verde, que fez todas as atividades propostas sem problema. Amarelo significa que apresenta dificuldades em relação às atividades propostas e vermelho é quando xinga um colega de sala ou o educador, por exemplo”, explica.

O “Além das letras” é apenas uma das oficinas oferecidas às 75 crianças de seis a 13 anos, e 15 adolescentes, de 14 a 16 anos. O número já atinge o limite que a entidade consegue atender e a grande lista de espera logo é compreendida. Balé, percussão, informática, jogos pedagógicos, coral, bijuteria, pintura, origami, além de atividades ao ar livre aproveitadas nas praças e campo de futebol do bairro Jardim Baronesa, em Campinas.

Em cima da mesa, pequenas caixas de papel coloridas com lápis de cor mostram o resultado de uma oficina de origami. Quem dá a aula é o educador Liard Rogério Silva Nascimento, de 30 anos. Desde 2010, trabalha no centro socioeducativo 40 horas semanais.Made with Repix (http://repix.it)

Gabriele Buck Reimer, diretora voluntária há 15 anos, lembra quando o Semente Esperança começou os trabalhos. Era 1997, nessa mesma sede, atendendo crianças de dois a 14 anos. De lá para cá muitas coisas mudaram, a grade de aulas aumentou e a estrutura melhorou. “No começo, se uma pessoa chegasse falando que queria ensinar alguma coisa, a gente aceitava, mas logo o voluntário parava de vir e a atividade saía da grade. Hoje vimos que não adianta aceitarmos tudo. Temos nossa grade e ela é sempre respeitada. Aceitamos de braços abertos quem quiser nos ajudar com uma das oficinas oferecidas. E se o voluntário deixa de vir, damos um jeito de realizar aquele curso, para não faltar nada”.

Conhecida como Gaby, a mulher alta, loira e de olhos claros, traz ainda os traços alemães de sua família. Foi inclusive da força de vontade de um grupo de alemães que surgiu o Semente Esperança, no qual ela é voluntária desde o primeiro dia. “A coisa te pega, te absorve. Você começa a viver a entidade. Você vai criando amor à causa e vendo que precisa de voluntários para envolver e acreditar no objetivo. Trabalho voluntário vira simplesmente um vício”.

Com o apoio da prefeitura, de notas fiscais doadas, da Feac, Bosh e de sócios contribuintes, o centro socioeducativo é mantido e consegue pagar os 11 funcionários, além dos quatro “oficineiros”. Conta ainda, claro, com o trabalho voluntário de cerca de 30 pessoas. Eventos e bazares que acontecem esporadicamente ajudam na arrecadação do dinheiro. Também são de doações que o bazar é mantido: nele são vendidos roupas e acessórios a preços baixíssimos para a comunidade. Ajudando não só os moradores, mas o próprio centro.

Naquela pequena casa na rua Ubirama, número 372, também são realizadas algumas oficinas aos sábados, voltadas especialmente para a comunidade. Made with Repix (http://repix.it)Porque para eles, atender apenas as crianças não resolve. O trabalho deve ser estendido aos familiares e a todo a comunidade, se organizando para encaminhar o jovem já preparado para o mercado. “Se não envolve a família, dificilmente vai ver um resultado positivo”, afirma.

Para continuar o trabalho, três terrenos foram comprados a poucos quilômetros dali: um em 2009 e o último no ano passado. O projeto só não saiu do papel porque aguarda, há mais de um ano, a aprovação da prefeitura de Campinas. Oitocentos metros quadrados darão lugar para essa grade de atividades, que serão realizadas em salas maiores, arejadas e até quadra de esportes.

O que separa o projeto do sonho de dez anos é apenas a burocracia, porque se dependesse do centro socioeducativo, a semente da esperança já teria brotado há muito tempo.

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