CRÔNICA: As lembranças de meus velhos professores

Aquele prédio todo antigo, localizado logo à frente da Praça Pedro de Alcântara Magalhães, lá em Muzambinho, guarda praticamente todos os meus sonhos. Foi lá que aprendi a dividir e a doar um cadinho da minha paciência, um tantão da minha solicitude e, mais ainda, aprendi a respeitar àqueles que fizeram brotar em mim a sementinha do amor pela escrita. Era o Cesário Coimbra, Escola Estadual nascida em 1910 e que acolhe, até hoje, alunos da cidade e região.

cesáreo

B + A = BA

Dona Petronília tinha os cabelos negros como os das pombas que teimavam em assaltar nossas lancheiras quando o recreio era uma festa promovida no jardim de cara para a escola. Aquele misterioso lugar escondia desde peixinhos imaginários na bela fonte datada de 1910 até armas dos coronéis no Coreto gigante para pequeninos olhos de criança.

fonte

E Dona Petronília era calma, atenciosa, me levava a crer que a vida poderia caber na palma da minha mão direita e todo conhecimento que ela amava transmitir, ficaria guardadinho na palma da mão esquerda com imensa facilidade de acesso. Parece que a mágica deu certo. A querida professora do pré-primário – eu tinha já meus 7 anos de idade e até então não havia entrado em nenhuma escolinha – conduzia suas aulas com desenhos, macarrão, papelão, tampa de latinha, garrafa pet, giz de cera, lápis de cor, palitos de sorvete e, naquela cartolina que parecia do tamanho do mundo, íamos completando nossas visões de um certo tema.

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Eu gostava mesmo era de Português… viajava pelas linhas das redações ainda sem muito conteúdo. Mas ela me incentivava! Peguei as letras aprendidas e guardei aqui com muito egoísmo. Hoje as coleciono como quem tem álbuns de figurinhas.

E foi então que naquele prédio todo lindo e rebuscado de história os anos passaram e então era a hora de subir de andar. Nossa, me sentia uma mulher feita quando meus cadernos ganharam pautas e eu já podia utilizar as canetas estereográficas.

Agora a missão era com a Dona Mafalda. Confesso que esta marcou na medida certa com seu ar de professora das antigas. Impunha respeito até daqueles colegas que mais queriam pular de carteira a carteira. Dona Mafalda pintou em mim a competição saudável. Naquele quadro-negro-verde ela fazia arte com sua letra impecável. Começava a matéria escrevendo do lado esquerdo e ia percorrendo como quem quer conhecer o mundo pelo mapa. E eu copiava tudo, era rápida. Não tão rápida como a Priscila, uma de minhas melhores amigas da infância.

Muzambinho

Penso que a sala devia ser composta por uns 45 alunos, de tão cheia. E cada dia era uma surpresa, um conhecimento, uma geografia que nos levava e uma matemática que nos somava.

Ah, quando passei para o 3º ano do grupo eu era ainda mais importante. Tinha duas professoras: Dona Ana e Dona Cleonice. Dona Ana parecia aquelas mães boazinhas que deseja só ensinar para o filho aprender. Minhas lembranças falham ao delimitar quais eram as disciplinas que cada uma ministrava. Mas sei muito bem que Dona Cleonice era professora de Português, meu querido amigo. E foi ela mais uma escada rumo aos meus 18 anos e a difícil decisão imposta por decidir que profissão seguiria. Uma criança escolhendo seu caminho…

O dia mais importante da minha vida escolar foi quando eu saí do “Grupo” para estudar na Escola Estadual Professor Salatiel de Almeida. Pomposa por estar situada bem no meio da Avenida – a única – da cidade mineira.

Aulas de Geografia com a tia Ina, de Português com a minha mãe, de Biologia com o excelente João Mamede. A biblioteca desta escola parecia um museu. Por lá eu ficava durante o intervalo – não era mais recreio. Alugava algum livro e partia rumo à minha imaginação lendo toda a coleção Vagalume e tantos outros títulos.

602727_440864642647557_2081140206_n (1)Do estadual para o particular com bolsa quase integral. E lá foi mágico… a estrutura da escola era coisa de cidade grande, os velhos livros foram passados pra frente e tínhamos apostilas para cada matéria, tudo colorido e com interação com o aluno. Eu fiquei encantada.

E penso que aproveitei a oportunidade. Lá conheci pessoas que me fizeram pensar além da menina do “Grupo”. Minha consciência começava a brotar mais firme e minhas ideias eram todas passadas para o papel e, às sextas-feiras, aula de Redação com Dona Regina. Suspiro neste momento com grande saudosismo. Esta senhora que é uma menina, destacou os pontos fortes do meu texto, rascunhou os menos interessantes e, por alguns anos, fomos lapidando meu estilo.

Aulas de Matemática com a tia Delze, uma mestra. Geografia com o Antonio Carlos era uma festa do descobrimento e a História da Mara… ah, Mara, quantas histórias fiquei sabendo durante nossas aulas. Amadurecimento constante. Biologia era dividida entre o temeroso Tonzé e o querido Usaldo. Química era ensinada aos gritos equilibrados do Pedrão, aquele que me deixava de castigo junto aos meus primos Gustavo e Felipe só porque falávamos demais durante suas aulas. Ufa, aquele cantinho no tablado e atrás da cortina era tenso. Bullying? Que era isso…

E então eu era conduzida pelo mundo mágico da Literatura com um dos meus grandes exemplos de ser: Fábio. Fábio não dava aula, fazia teatro. Fábio não falava, encantava. Fábio não menosprezava, enxergava potenciais. Este professor fazia meus olhinhos brilharem a cada novo conto, a cada nova era da nossa literatura. Lembro muito bem, entre tantas outras, da aula sobre a Semana de Arte Moderna. Ele não sabe ainda, mas o melhor presente que ele me deixou foi minha amizade com Clarice, a Lispector. O livro era A hora da estrela e assim como Macabéia eu sonhava… e derramava lágrimas a cada nova descoberta.

Meus velhos professores se renovam constantemente dentro do rebuliço desta nova era. Eles estão guardados aqui no cantinho que expande a cada dia. Expande nas buscas, nas revoltas, nas pretensões.

Penso que essa molecada de hoje em dia ainda vai encontrar nos seus mestres seus futuros. Educação… nada mais importa tanto na essência de ser.

Meus velhos sempre jovens, a vocês meu pleno respeito e minhas humildes palavras. Do passado, vocês me deram meu hoje!

Da eterna aluna,

Marília Gabriela Viana

 

Fotos por Thadeu Varoni (http://thadeuvaroni.blogspot.com.br/2010/10/muzambinho.html)

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2 Respostas para “CRÔNICA: As lembranças de meus velhos professores

  1. Gustavo (primo falante)

    Pois é Marília, o tempo passa. E parece que cada dia mais rápido. Pra nossa sorte existem pessoas como você que eternizam aquelas memórias em palavras.
    Obrigado pela recordação, tenho saudade de ficar atrás da cortina! haha

    • petro

      Professor profissão tão desvalorizada monetariamente,mas ao ver a redação tão detalhada e tão significativa como essa de minha aluna Marilia Gabriela podemos dizer que é uma profissão gratificante.Obrigada ,Marilia ,desejo de coração que esse saber guardado em suas mãozinhas seja abençoado e onde quer que você vá sua estrela há de brilhar muito!
      Parabéns!

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