REPORTAGEM: A sabedoria como caminho

Reconheço o som do piano do saudoso Tom Jobim na música ao fundo, baixinho. A aula começa e me esforço para não cantarolar, mesmo que mentalmente.

“Vocês souberam do que aconteceu com o estudante da Unicamp?”, comento. “Eu soube por cima”, afirma um dos alunos. “Absurdo”, diz outro. O tal estudante que me referia era Denis Papa Casagrande, espancado e morto com uma facada durante uma festa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na madrugada do dia 21 de setembro. O motivo: ele teria mexido com a jovem Maria Tereza Peregrino, de 20 anos, que não teria gostado. O namorado dela, Anderson Mamede, e outros amigos teriam então partido para cima do universitário. Mas Maria Tereza, conforme confessaria poucos dias depois à polícia, fora a autora da facada fatal.

Era uma terça-feira fria de começo de primavera. E estávamos em quatro pessoas, incluindo o professor Cauê, conversando horrorizadas sobre o caso que chocou toda a região de Campinas. “Esse caso pode servir de introdução para a aula de hoje, que será sobre a filosofia da história, que nada mais é do que a sabedoria por meio da história. Vocês vão ver que uma das causas de tanta barbárie é a ignorância, é a falta de uma formação ético-moral”, explicou Cauê. Ele prosseguiu: “A história está para a humanidade assim como a memória está para o indivíduo.”

IMG_4055Cauê Nascimento de Oliveira tem 37 anos. Dentre eles, 16 foram dedicados à Nova Acrópole. Ele conheceu a associação cultural por meio de um amigo. Na época, Cauê havia deixado a cidade de São Paulo para estudar biologia na Pontifícia Universidade Católica de Campinas. “Eu sempre tive perguntas profundas acerca da vida, acerca da transmissão do conhecimento ao longo da história e isso me atraiu para o curso de filosofia.” Hoje ele está terminando o doutorado na Unicamp em educação ambiental.

O ano era 1997 e a sede campineira da Nova Acrópole ficava em uma sala comercial na avenida Doutor Campos Sales, no Centro. Cauê conta que a transição de aluno para voluntário aconteceu naturalmente. Em poucos meses de curso, ele já se oferecera para ajudar na biblioteca e, logo em seguida, começou a promover atividades ao ar livre com a temática ambiental. Em 2001, a até então diretora da associação estava envolvida com a fundação de uma nova escola na cidade de Ribeirão Preto e passou o bastão para Cauê. “Muitas pessoas procuram o voluntariado para suprir uma necessidade individual de ajudar o outro. Na Nova Acrópole, por meio da filosofia, percebemos que essa ação tem que ser voltada para o outro. Esse que vai ser o nosso diferencial.”

Mas apesar do foco ser sempre o outro, não há como negar que essa busca da sabedoria promove muitas transformações. O atual diretor inclusive cita algumas mudanças percebidas por ele. “Ao longo de todo esse tempo, embora a gente perceba que as mudanças sejam graduais e lentas, eu percebo que mudei muitas coisas, principalmente, o temperamento, o relacionamento com as outras pessoas, percepção de mundo, a real necessidade do outro”.

Durante a entrevista, conduzida mais como um bate-papo, permanecemos sentados na sala que funciona como uma espécie de copa. Ao fundo, como de costume, toca música clássica. No canto da parede, há quatro cestos de reciclagem de lixo com as respectivas cores verde, azul, vermelho e amarelo. Nas paredes, uma ou outra réplica de pinturas renascentistas. Cauê explica o funcionamento da Nova Acrópole de forma didática e paciente. Quando concorda com algum comentário meu, ele deixa o aparelho fixo nos dentes aparecer por meio de um sorriso tímido.

“Quando a gente aplica um conceito filosófico na arte em geral, a gente vai buscar tudo aquilo que eleve o ser humano. Não vamos necessariamente ouvir a música clássica, por exemplo, mas todo tipo de música que eleve a consciência. E vamos evitar aquilo que traga algum tipo de desarmonia.” (Sugestão de música clássica aqui)

Nova Acrópole

faxada-2A Nova Acrópole é uma organização internacional de caráter filosófico, cultural e social presente em mais de 40 países. O Brasil é dividido em dois: Brasil Norte e Brasil Sul. Somando todas as sedes brasileiras, há mais de 3,5 mil membros no país. Em Campinas, a escola ainda é pequena e conta com apenas 15 pessoas, que se reúnem semanalmente em uma casa alugada no bairro Taquaral. Mas em Florianópolis, por exemplo, há cerca de 200 membros.

O nome da associação foi inspirado na Grécia Antiga. Naquela época, Acrópoles significava a parte mais elevada da cidade, onde se estabelecia o contato entre o visível e o invisível. Hoje, a Nova Acrópole tem como proposta ajudar a formar pessoas melhores por meio do conhecimento filosófico. Para isso, é oferecido um curso de filosofia que dura sete módulos. A taxa é de R$ 120 por mês. Valor usado apenas para cobrir os gastos da escola, uma vez que os professores, diretores e afins não recebem nada.

Vida filosófica

Primeira quarta-feira do mês significa que é dia de diálogo, encontro mensal em que os alunos de qualquer módulo se reúnem para discutir determinado tema. Essa era a segunda reunião que eu participava. O assunto era: “Destino ou livre arbítrio?” Como base para debatermos o tema, todos deveriam ler um livrinho de bolso de 30 páginas, onde fora copilada uma conferência internacional entre diretores acropolitanos.

Sentávamos nas cadeiras brancas de plástico formando um semicírculo. Juliana era quem mediava o debate. Logo quando cheguei, reconheço um aluno que participara do encontro do mês passado. Cumprimento todos e me apresento aos que não conheço. Vilma, minha colega de curso também estava lá. Espirituosa, ela já solta um comentário engraçado antes de iniciarmos o trabalhos. Além da Ju, como carinhosamente nos referimos à professora, havia cinco pessoas na sala. Música no fundo, línguas afiadas.

IMG_4052O nome completo da Ju é Juliana Fonseca Monteiro. Ela tem 39 anos e, além de braço direito do Cauê na Nova Acrópole, também é sua esposa há três anos. Juliana nasceu em Itapeva, Minas Gerais, e, aos 25 anos, decidiu iniciar a carreira como dentista na paradisíaca cidade de Florianópolis, de onde só resolvera sair para se casar com Cauê.

Os dois se conheceram por meio da associação. Ela já o tinha visto em algumas atividades na sede da Nova Acrópole Brasil Sul, que fica em São José dos Campos. Entretanto, a relação só foi estreitada quando Juliana passou a viajar mensalmente para o interior paulista para um curso. “Aí começou uma amizade, um interesse. Pela distância, namorar à distancia é complicado, como já estávamos juntos há um tempo, aí eu vim pra cá”, conta sem esconder o sorriso misturado a um resquício de timidez.

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Mas bem antes disso, Juliana teve o seu primeiro contato com a Nova Acrópole em Florianópolis. Ela já morava em capital catarinense há um ano quando amigos em comum comentaram sobre o trabalho da entidade. Até aquele momento, Juliana nunca tinha nem cogitado estudar filosofia. “Eu, particularmente, achei estranho. Nunca nem tinha ouvido falar em Nova Acrópole.” Contudo, já na aula de apresentação, ela se identificou de imediato. “Eu nunca tinha ouvido tanta coisa em tão pouco tempo e de forma tão coerente. Me preencheu muito. Como boa virginiana, gosto de coisas palpáveis. E quando a gente estuda filosofia, percebemos que ela é bem objetiva para vida.”

Assim como Cauê, o engajamento de Juliana com as atividades da Nova Acrópole também aconteceu naturalmente. Só que, ao invés da biblioteca, ela começou a ajudar na estrutura organizacional da escola como listas de chamada e contato com os outros alunos.

E, diferente da sede campineira, a agenda da escola de Florianópolis, por ter mais membros, é sempre lotada de ações sociais. A Nova Acropole de lá oferece ateliês de fotografia, dança, redação e visita a asilos. Além de ajudar na Campanha do Agasalho e de possuir uma parceria com o Corpo de Bombeiros e Defesa Civil para prestar socorro a vítimas de eventuais enchentes. “Ficamos de plantão e quando a Defesa Civil liga, vamos para lá.”

Sempre em busca

944285_469726923106968_825676220_nA aula já está quase no fim. Cauê explica os últimos métodos de exposição da história. Logo em seguida, ele abre espaço para as considerações sobre o tema tratado. Voltamos a conversar sobre o caso do estudante da Unicamp. Essa histeria coletiva e onda de intolerância são citadas como consequência da falta de conhecimento. Bate um leve desespero. Um aperto. Até aonde vamos chegar com tanta barbárie? Nos despedimos. Dirijo o carro dispersa, ainda assimilando o conteúdo da aula. O trajeto até minha casa é curto, cerca de cinco minutos. Insuficiente.

Durante a entrevista, converso com os dois separadamente, mas, ao final, desligo o gravador e Cauê se junta à roda. Quase uma hora de conversa se passou sem que tenhamos percebido. Falo com eles sobre o meu interesse em me tornar voluntária. Minha contribuição seria em ajudar a divulgar o trabalho da Nova Acrópole, algo que faço já de boca a boca, mas que faria de forma mais comprometida.

Comento sobre a necessidade de fazer uma página no Facebook e de divulgarmos as atividades da escola no distrito de Barão Geraldo. Combinamos de definir como faríamos isso na semana seguinte e abraço os dois como forma de agradecimento. Agradecimento pelo tempo concedido e pela troca. Como os dois falaram durante nossa conversa, a palavra voluntário vem de vontade, vontade de fazer a diferença. E eles, sem dúvida, fazem toda a diferença para mim e para os demais membro da Nova Acrópole. Entro no carro e observo Cauê e Juliana na porta me esperando ir embora.  Aceno em sinal de despedida. Citando Sócrates: “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.”

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3 Respostas para “REPORTAGEM: A sabedoria como caminho

  1. Luiza

    Adorei. Sou membro da Nova Acrópole Natal e lendo o texto senti como se você estivesse falando sobre a minha família, de tanto que me sinto acolhida e entendida na organização, com um aprendizado gigantesco. Agradeço todos os dias por ter encontrado a NA, espero que mais pessoas encontrem!!! Além disso, independentemente de ser dentro da NA ou não, seria muito bom que a sociedade buscasse o conhecimento e a reflexão de forma mais profunda. Tudo seria diferente. Beijão

  2. Olá Martha! Percebo sua alegria e calor falando da Nova Acrópole, falando da busca da sabedoria através da filosofia. Excelente artigo. Estava relendo seu artigo e não podia deixar de comentar. Penso que neste momento pré-Copa, as pessoas estão muito agitadas e os problemas sociais estão vindo à tona com toda força. Em meio às legítimas manifestações populares, surgem também os aproveitadores com os quebra-quebras, saques, ônibus incendiados… Falta filosofia, falta ética e moral no mundo atual. E a Nova Acrópole pode ajudar neste aspecto auxiliando na formação de cidadãos mais conscientes e comprometidos. Grande abraço a você!

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