REPORTAGEM: Um menino-refugiado do Congo e as fra(n)quezas de uma jornalista inexperiente

– O que? Fala, fala, fala.

Essas foram as primeiras palavras que L. escutou em português.  Era uma das últimas semanas de abril de 2013 e o menino, de 17 anos, chorou sozinho no maior porto de cargas da América Latina. Ele não tinha ideia da onde estava.

Em Santos (SP), quando ouviu aquela língua estranha tinha acabado de pronunciar em seu francês nativo:

– Bom dia! Fala francês?

O “bom dia” foi a primeira expressão dita em liberdade definitiva, depois de uma viagem de mais de sete mil quilômetros de navio. Liberdade sem motivos para comemorar. Do segundo maior país do continente africano, a República Democrática do Congo (RDC), o garoto chegou ao maior país da América do Sul, do qual só sabia nome de jogadores de futebol e sobre a Amazônia. Sem companhia, ele não quantificava os dias à bordo.  Durante todo o trajeto lhe deram comida e remédios para dormir.

Encontrei L. no dia 24 de setembro de 2013. Quase seis meses depois, ele consegue se comunicar muito bem em português. Antes de vê-lo pessoalmente sabia cinco linhas de sua história, reveladas por e-mail. Um parágrafo duro de ler. Daqueles em que as frases entram como fumaça e engasgam a garganta.

Com o e-mail em mãos, entrei em um prédio antigo, número 78, da Rua Venceslau Brás, no coração da capital paulista. A bandeira verde-amarela colada na parede, logo na cara de quem entra, parece gritar aos olhos: aqui é Brasil. A guarita de madeira estava guardada apenas por um pôster do time do Palmeiras, quando campeão da Copa do Brasil de 2012. O jeito foi entrar sem perguntar.

Começamos, eu e o cinegrafista, a subir os degraus irregulares pelo mármore gasto. Durante dois lances de escadas não ouvimos nada de português. Uma profusão de línguas se espalhava por um corredor com cadeiras distribuídas dos dois lados. Essa é a babilônia brasileira, pensei. Seguimos para a direita, pelo meio do corredor. No fim, topamos com uma porta bege que poderia se passar por uma parede. A tranca só funcionava do lado de dentro. O meu companheiro de trabalho apertou a campainha.

Fui recebido pela moça com quem troquei os e-mails. Larissa Leite faz parte da área de  relações externas da Caritas São Paulo. A instituição trabalha no acolhimento e socialização dos refugiados na cidade. Com um sorriso largo, Larissa perguntou se não podíamos começar a entrevista rapidamente, pois L. tinha uma prova durante à tarde e só tinha mais quinze minutos por lá.

refugiadosEntrei na primeira sala à direita. Uma placa anunciava que era um centro de documentação. Rapidamente meu companheiro começou a ajeitar o equipamento. Cumprimentei quatro garotas e um rapaz sentados em uma mesa de escritório com oito lugares. Não perguntei o que faziam ali. Supus que eram da Caritas.

E então, fui apresentada a L. Não me lembro muito bem da minha primeira pergunta, mas conversamos sobre a entrevista ser em português ou inglês. Ele queria em francês. Larissa o convenceu de que ele já dominava nossa língua o suficiente.

A proximidade com o francês não foi o único fator para acelerar o aprendizado do português. Menor de idade, L. permaneceu em um orfanato por dois meses. Lá, um casal de brasileiros quis saber de sua história. A família se propôs a ajudá-lo. Arranjaram república para o garoto morar e conseguiram uma escola, onde ele tenta recuperar os estudos:

– Eu era inteligente quando estudava no Congo. Aqui é muito difícil – me contou mais tarde, já no fim da entrevista.

Mesmo ao falar da dificuldade de estudar, os livros parecem ser seu refúgio particular. E refugiado da realidade foi um dos poucos momentos em que me olhou diretamente no olho. Citou matéria por matéria da escola.

Foram alguns minutos até posicionarmos ele contra a luz. O recurso permite a preservação da identidade do menino. Ele se sentou de lado para a câmera, de frente pra mim. Cai na real o quanto seria difícil para ele falar e para mim, escutar. Abri um sorriso nervoso. Com o rosto curvado para baixo, ele me olhou e apertou um lábio no outro como se me dissesse: não tenho por que retribuir o seu sorriso.

Tenho dificuldade em ser jornalista nessas horas. Não acredito no distanciamento. Não gosto de ouvir uma história e ir embora e só pensar em “fechar” o VT. Encaramos um ao outro por um tempo. Nunca é mais um relato. Ele aceitou a contar a  sua história de vida. Talvez, a partilha desses momentos faça parte do processo de esquecer. Ou mesmo ele tem simpatia por Larissa e não conseguiu dizer não.

Ela parece ser descendente de árabe. Tem o nariz grande que combina com o rosto. Veste-se sem nenhum decote. A roupa preta e o cabelo compõem um visual monocromático, mas que não fica sombrio. O sorriso atende a todo mundo e combina com o cachecol de malha roxa.   Elogia sempre como L. leva toda a situação.

Comecei as perguntas. Ele tornou a voltar o olhar para baixo. Os ombros ficaram mais encolhidos. Durante os 20 e poucos minutos de conversa, suas mãos poucas vezes saíram de cima da perna. Do mesmo modo, o olhar dele pouco encontrou o meu.

Logo no começo da entrevista, fiz uma anotação em um papel enquanto ele me contava sua vida no Brasil. Assim que apontei a caneta no papel, ele parou de falar. “Para com isso, imbecil”, pensei.

Perguntava sobre o presente para evitar ouvir o passado. Aos poucos, fui me desamarrando do tecnicismo e do roteiro tolo de comportamento de uma jornalista da minha mente. Só jornalista inexperiente quer se comportar como jornalista. Voltei a ser aquela menina curiosa. Aquela com medo de São Paulo, a cidade que engole os protagonistas de vida com o silêncio da multidão. Ao mesmo tempo, ele desamarrou seu português. Tantas autocorreções feitas no começo perderam a importância.

– Como você veio para o Brasil?

– Essa é uma longa história…

A República Democrática do Congo foi descolonizada pela Bélgica, junto com Ruanda e Burundi. A exploração da região centro-africana pela coroa belga durou do fim do século XIX até 1960. Como herança, os europeus deixaram um país tomado por conflitos.

Durante a transição, Joseph Kasa-Vusu foi eleito presidente. Patrice Lubumba foi declarado primeiro-ministro. Sem nenhuma estrutura, os governantes congoleses continuavam atrelados ao colonizador. Revoluções e processos de independência de províncias apareciam pelo país. A maior delas acontece em Katanga, região rica em recursos minerais.

Grupos rebeldes e mercenários dificultam a sustentação política. Menos de um ano depois da posse, Lubumba é assassinado. Até 1964, o país viveu momentos de instabilidade e precisou da intervenção da Organização Nações Unidas (ONU). O líder do levante separatista de Katanga,Moise Tshombe, chega a ser indicado para o posto de primeiro-ministro.

Enquanto isso, o tenente-general, Joseph Motubu costurava o golpe militar.  Até que em 1965, ele se autonomeia o segundo presidente do Congo. Durante a ditadura dele, o país ganha um novo nome: Zaire.  O oficial permaneceu no poder até 1997, quando debilitado fisicamente por um câncer e politicamente, foge para o Marrocos, onde morre.

Com a morte de Motubu, o país sofre o segundo golpe militar. Desta vez, rebeldes liderados pela figura de Laurent-Désiré Kabila e apoiados por Ruanda, Uganda e Burundi assumem o governo. O país volta novamente a se chamar República Democrática do Congo.

As mãos de ferro das ditaduras continuaram massacrando o Congo mergulhado na guerra civil. A onda de violência chega ao ditador, assassinado em 2001. O filho de Laurent-Désiré, Joseph Kabila, assume a presidência do país.

Em 2006, ocorrem as primeiras eleições multipartidárias. Kabila é eleito, no segundo turno, com a promessa de paz e de reconstruir a RDC.

Nas segundas eleições presidenciais, em 2011, Kabila voltou a concorrer. O ano prometia ser agitado. Com a constituição reformulada, o novo presidente seria decidido no primeiro turno.

Em maio, as campanhas presidenciais já começavam. L., então com 16 anos, dividia a rotina entre os estudos e a igreja na capital do país, Kinshasa. O pai dele era médico e pastor em uma comunidade. Segundo o menino, o pai foi pressionado a fazer campanha presidencial para Kabila. Não aceitou, pois apoiava a oposição.

No dia 5 de maio, soldados invadiram a casa da família. O pai, a mãe, a irmã de 3 anos, o irmão de 14 anos e L. foram levados. O congolês se lembra de pararem próximo ao Rio do Congo. A segunda maior bacia hidrográfica do mundo, atrás apenas do Amazonas, corta todo o país.

Ao descerem do carro, os soldados começaram a levar o pai de L. O menino se lembra de gritar:

– Onde você está indo com meu pai?

– Fica aí, se você vier aqui, eu te mato – ameaçaram.

Gritou pelo pai algumas vezes. Cinco minutos depois, ouviu um tiro.

– Ele matou o meu pai – repetiu pausadamente para mim a cena , dois anos depois.

O substantivo morte agora seria parte da vida de L. A perda repentina e cruel do patriarca foi o começo. No mesmo dia, os soldados prenderam a mãe, L. e o irmão.

– Até hoje não sei onde minha irmã está.

Na prisão, a mãe sofreu um AVC e não resistiu. Órfão e encarcerado chorava todos os dias:

– Desde que fomos presos não tínhamos advogados, não tínhamos juízes, não tínhamos ninguém.

O pranto diário do garoto despertou a atenção de um soldado. Membro da igreja do pai de L., ele perguntou por que chorava tanto. O relato truculento da vida do menino aproximou os dois. O soldado prometeu “um jeito” de sair dali.

Em uma noite, o soldado chamou L. e o apresentou a uma pessoa. Acreditou. Entrou em um carro sem saber o destino. Dois anos depois de ser preso, estava livre. Horas de viagem se seguiram até chegar a um porto, provavelmente, na fronteira com a Angola, em Cabinda:

– Entra nesse navio e vai embora. Você não pode mais ficar aqui. Vai dar tudo certo.

Desnorteado chegou a Santos. Depois da primeira “recepção”, conseguiu ajuda. Uma pessoa ofereceu roupas de frio e com o pouco inglês que sabia conseguiu conversar com o menino:

– Onde nós estamos?

– Brasil. Já ouviu falar?

Ele foi encaminhado a São Paulo. Nos 72 quilômetros, a única orientação que recebeu foi do motorista do ônibus:

– Vai até aquele policial e fala: refugiado.

O policial o levou até a Caritas. Lá, lhe arranjaram abrigo e encaminharam o processo de refúgio. L. teve sorte. O Brasil é uma referência no acolhimento aos refugiados. Quem realiza o processo é o Comitê Nacional para os Refugiados (C ONARE). O órgão é composto por vários ministérios, organizações não-governamentais (Caritas do Rio de Janeiro e de São Paulo) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

Apesar da relativa tranquilidade do Brasil com relação aos estrangeiros em situação de refúgio, são muitos os obstáculos. As entrevistas e o processo podem ser desgastantes, principalmente, para menores de idade. Assim como L. até setembro deste ano, 15 crianças e adolescentes desacompanhados chegaram ao Brasil.

Ser bem recebido não é garantia de tranquilidade. Apesar de facilitar os documentos, não existe nenhum tipo de bolsa-refúgio. Depois da usurpação de todos os direitos em seu próprio país, eles encontram uma nova língua, dificuldades para estudar e conseguir emprego. Além disso, tem a exploração. Muitas vezes, ela começa na compra da passagem. Em outras, é feita pelos próprios brasileiros.

refugiados 2Um cartaz na Caritas avisa em cinco línguas: “processos de reconhecimento da condição de refugiado são gratuitos. A contratação de advogado não é necessária”. O quadro de plástico com letras adesivas coloridas tenta alertar os refugiados para as promessas que alimentam uma economia do mau: aproveitadores com promessas de solução para pedidos de refúgio. Casos de prostituição e subemprego também são conhecidos.

O status de  refugiado é concedido  a pessoas perseguidas por posições políticas, religiosas e raciais. Países em situação de guerra, onde o  conflito é geral e viola os direitos humanos também podem entrar para a lista.  Por aqui, 4.600 pessoas vivem como refugiados. Essa população corresponde a 0.010% dos refugiados no mundo. A ACNUR calcula que 45 milhões de pessoas foram forçadas a abandonar seus lares até 2012.

Atualmente, os sírios integram o quadro mais preocupante. Até o fim deste ano, o número de refugiados do país deve chegar a 3,2 milhões, segundo a ACNUR. A Síria já é o quarto país em pedidos de refúgios aqui no Brasil. Nesse nosso ranking perverso, eles perdem apenas para a Angola (1.062 casos), Colômbia (743) e República Democrática de Congo (575).

Se como L. esses outros 575 conterrâneos tiverem quatro familiares são 2.300 irmãos, mães e pais que não partilham suas vidas.

– O que eu mais quero é ficar perto da minha família. Eu não estou bem no meu coração.

Além do sangue, os pensamentos e as preocupações de quem ama, os unem:

– Por que se eu como, eu me pergunto se meus irmãos  também comem. Se eu durmo eu também me pergunto se eles dormem.

Os conflitos da RDC trouxeram além de L. pelo menos mais um menor de idade, segundo a Caritas. Ao todo, cerca de 15 menores de idade chegaram despejados em São Paulo em 2013. A cidade, pela transitoriedade de navios e aviões, concentra o maior número de pedidos, seguida pela vitrine do país: o Rio de Janeiro.

No meio de números, eles vivem de apoio de quem diz “está tudo bem” e tentam aceitar os novos desafios da vida:

– Ainda penso em ser médico. Ajudar as pessoas como meu pai fazia no Congo – contou.

Desligamos a câmera. Agradeci, dei um abraço e desejei uma boa prova de redação. A Larissa entregou cinco reais para o transporte. Discretamente ele guardou no bolso do moletom azul. Tirou alguns papéis da mochila escolar laranja e mostrou os horários de prova. Partiu sem sorrir. A moça me contou de um detalhe não captado por minha mente que fixou no olho sem brilho com as sobrancelhas penteadas para baixo:

– Depois de terminar a história, ele falou: “só isso”.

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2 Respostas para “REPORTAGEM: Um menino-refugiado do Congo e as fra(n)quezas de uma jornalista inexperiente

  1. Pingback: Refugiados | Gabriela Prado

  2. Olá, você notícias e, ou contato dele ainda, sou estudante de Relações Internacionais e gostaria de ter uma conversa com pessoas do Congo, para um trabalho Integrado.
    Obrigado

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