CRÔNICA: Os últimos dias

“Vamos acampar no oeste da ilha!”, disse meu irmão mais velho que já mora há 12 anos no Havaí.  Eu aproveitei para visitá-lo depois de mais de dois anos sem vê-lo. Estava na penúltima semana das minhas merecidas férias depois de quase cinco anos trabalhando.

Cooler, churrasqueira, barraca, carvão, nécessaire, mochila com as roupas e toalha… tudo enfileirado ao lado do carro. Ele abre o porta-malas e começa a colocar devagar cada item do nosso “kit de sobrevivência”, encaixando cuidadosamente no espaço do carro, como um lego. “Aprendeu com meu pai”, pensei. Por pouco a porta não fechara.

Seguimos para o Safeway, onde compramos o que iríamos comer nas próximas horas: biscoito, chocolate, água, salgadinhos, carne e claro, cerveja.  O sol ainda esquentava quando chegamos. Paramos o carro e aos poucos íamos levando as coisas para a areia.

Só quando acabamos de descer tudo que me dei conta da paisagem daquele lugar. Era o oeste da ilha de O´ahu, uma das oito principais do estado americano. Se no leste o mar era acompanhado de muito verde da areia até a rodovia, onde estávamos o que predominavam eram as montanhas… montanhas com poucas árvores, um cenário quase de deserto que contrastava com o azul do oceano.

552090_10151210192557474_1864976978_nComeçamos a montar a barraca, aberta nas laterais… “Se chover a noite e começar a vir água de um lado, nós viramos para o outro”, disse ele.

Leandro tem 33 anos, tinha um a menos quando o visitei. São dois metros e três centímetros de beleza e simpatia, mas pode contar com pelo menos cinquenta centímetros de brutalidade também, que já foi responsável por inúmeras brigas entre nós dois até hoje. Chama a todos de “amigo”, mesmo que tenha conhecido a pessoa meia hora antes. Perde a cabeça sim, quase sempre eu diria, principalmente com quem tem mais intimidade… mas basta conhecê-lo mais afundo para encontrar o coração de manteiga e o homem doce que se esconde por trás daquele brutamontes. Saiu de casa com apenas 17 anos para um país desconhecido enfrentar as dificuldades com o apoio da família apenas por telefone e nunca mais voltou…

Lembro-me de quando partiu pela primeira vez e eu, com apenas 11 anos, chorei por pelo menos uma semana debaixo do chuveiro, falta que sinto até hoje. Presente diariamente no Skype, email, redes sociais e pelo Whatsapp, esconde os sentimentos pelo tempo que conseguir. O mundo pode estar caindo para ele, mas se perguntamos como andam as coisas, a resposta sempre será positiva.

Medo de preocupar a família ou de ouvir opiniões que não gostaria de receber? Não importa. Quando nos vemos, mesmo três anos na abstinência de irmão, parece que ficamos apenas uma semana longe um do outro. E eu estava novamente ali, ao lado dele e agora no melhor momento das minhas férias.

Churrasqueira acesa pronta para receber as carnes… O som das pequenas ondas quebrando na areia me acalmava como nunca. Meu coração disparava sem motivo e o sorriso não saía do meu rosto. Era um daqueles dias que chamamos de perfeito, que não queremos que acabe por nada, que lembramos por anos sonhando ou acordada. Queria aproveitar cada segundo.

1235973_10151917891717474_1349037263_nEntre a barraca e o mar, “poças” que se transformaram em espelhos d´água sobre as pedras, refletindo o pôr do sol. Uma, duas, três cervejas e já precisava ir ao banheiro. Com uma sacola de supermercado em uma das mãos e papel higiênico na outra, fui com uma amiga que segurava a lanterna em busca do que se tornaria o “banheiro feminino” pelas próximas horas. Aliviada, volto para o churrasco em família.

Depois de muitas cervejas, deitamos um ao lado do outro sobre uma canga para ver o céu. Longe das luzes artificiais da cidade, conseguimos ver milhares de estrelas. “Olha! Uma estrela cadente!!”. Faço um pedido de olhos fechados… peço para que eu volte quantas vezes tiver vontade para aquele lugar que tanto me faz bem.

Nos próximos dez minutos vimos cerca de quinze estrelas cadentes como aquelas, umas mais fortes, outras mais fracas, mas cada uma com seu brilho e beleza. Mais tarde descobriria que tivemos a sorte de acampar e olhar para o céu na noite em que houvera uma chuva de meteoros!

Mais um dia se foi…

Estendemos um edredom sobre a areia e dormimos. Ao longo da noite tivemos que fazer exatamente como o planejado: a chuva vinha de lado e virávamos para o outro. Além da gente, havia apenas mais duas famílias havaianas acampando na praia. O local era praticamente deserto, já que poucas pessoas sabem de sua existência, com exceção de quem nasceu no Havaí.

312933_10151196523527474_1936029675_nAbro meus olhos e penso ainda estar sonhando. O sol brilhava novamente e nas montanhas, a sombra das nuvens contrastava com algumas áreas claras. Resolvi dar um mergulho, dando bom dia à Iemanjá, com quem sempre converso quando vou à praia. Deparo-me com golfinhos pulando bem em frente, a poucos metros da areia. Sorrio e agradeço mais uma vez pela oportunidade.

“Vamos acordar!! O dia começou!”, falo. Aproveitamos o sol até por volta das quatro horas da tarde e começamos a desmontar a barraca. Quando já estávamos no carro, Michela me contou que fora naquela praia, chamada Makua Beach e mais conhecida como “Pray for sex”, que as cinzas do meu cantor favorito, o havaiano Israel Kamakawiwo´ole, foram jogadas. Ele morreu em 1997, aos 38 anos, por problemas respiratórios causados pela obesidade mórbida, chegando a pesar 343 kg.

Não deu tempo de ver o memorial feito ao cantor havaiano, mas a sensação que sempre tenho de que voltarei ao Havaí em breve, me consolou. Saímos de lá direto a um banheiro público na rodovia. Tomamos banho e seguimos para outra praia, onde uma corda separava os banhistas de um leão marinho que resolvera tomar um sol na areia.

Meus dias de férias estavam quase no fim e eu tentava ainda encontrar algo que me confortasse, pela terceira vez.

Encontrando o conforto                               

É difícil me entenderem e por isso não espero que isso aconteça. Das três vezes que voltei ao Brasil, uma tristeza me invadiu tirando todos os outros sentimentos. Por que o Havaí? Por que essa ligação tão forte?

Ainda não encontrei a resposta e trato apenas de sentir a melhor sensação todas as vezes que vou para lá.

“Vai conhecer outro lugar!”, “Você não tem imaginação!”, “Que energia o que?!”, e por aí vão todas as coisas que ouço desde 2005, quando estive pela primeira vez no estado americano.

Quantas vezes passei horas tentando explicar esse sentimento, chorei depois de algumas “biritas” ou até mesmo sem ter bebido nem uma gota de álcool? Perdi as contas dos dias em que acordei com o sorriso no rosto e o coração apertado por ter sonhado que estava nas praias daquela ilha. Cansei amigos de tanto falar da minha vontade de voltar para lá…

Sento na areia e abraço minhas pernas olhando para o mar. Ao som de Israel Kamakawiwo´ole no fone de ouvido, lembro que meus dias estão acabando. Sinto que aquele sentimento é o melhor do mundo e quero ele comigo para o resto da minha vida. Penso que não posso esquecer dessa sensação quando voltar para o Brasil. Me cobro, sinto a dor da partida.

Pego o carro do meu irmão, que naquele dia estava comigo no lugar da bicicleta que me acompanhara em todos os outros momentos das minhas férias. Passo em frente de uma porta de vidro que levava em cima um letreiro rosa: “Tatuagens”. Paro assim mesmo, sozinha, com o que me restou de dinheiro no bolso e decido dar uma olhada.

“Posso ver algumas fotos?” Folheio a pasta e aprovo a delicadeza dos detalhes.

– Quanto custa para fazer uma tatuagem com as ilhas do Havaí?

– 80 dólares.

Na semana anterior conheci um estúdio que cobrava $ 250 pelo mesmo desenho.

– Você tem horário para fazer agora?

– Tenho sim! Pode sentar que já venho.

Deito na maca e aguardo o tatuador, o mesmo homem que me atendeu na entrada. Tinha por volta de 1,60m, olhos puxados e cabelo arrepiado. Nascera no Havaí e ali morou por toda a vida. Tinha apenas 26 anos e acabara de abrir seu estúdio. Arriscado demais?

– Como você quer as ilhas?

– Queria vazadas, com símbolos havaianos dentro de cada uma. Pode ter uma cor também… ou mais, com as cores da bandeira do Havaí, azul e vermelho. Será que fica muito brega?

– Acho que só verde fica legal!

– Isso!! Fechado! É minha cor predileta!

O barulho da agulha anuncia o início do que ficaria marcado em mim para sempre. E no meu pé direito as ilhas foram surgindo aos poucos: Kauai, Maui, Lana´i, O´ahu, Big Island, Kaho´olawe, Moloka´i, Ni´ihau …

Dentro de cada uma, símbolos que tinham importância aos havaianos há centenas de anos. Vez ou outra a agulha pegava “de jeito” o osso ou o nervo e eu quase pedia para parar, mas em quarenta minutos lá estava ela.

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Sabia que ninguém iria entender o que era “aquilo” e que se alguém resolvesse comentar da minha tatuagem, seria começando por “o que é isso no seu pé?”. Mas mesmo assim era meu xodó entre as três do meu corpo, a que representava o maior significado para mim.

Soube quando estava indo embora que não poderia mergulhar no mar por pelo menos uma semana, o que claro, não obedeci. Afinal, era o meu penúltimo dia no Havaí. Liguei para o meu irmão e combinamos de surfar no fim da tarde. Para amenizar o que poderia causar uma infecção no meu pé, amarrei um saco plástico, prendendo-o no tornozelo. Ideia mal sucedida, claro. E em menos de cinco minutos as ilhas estavam em um “aquário”.

surfe tatoo

Graças a Deus (ou aos meus pais) tenho uma boa genética para cicatrização! O que importa é que estava feliz, realizada. Sentada em uma prancha, com meu irmão ao lado, a tatuagem no meu pé e sabendo que, de uma forma ou de outra, teria aquele lugar para sempre comigo.

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