CRÔNICA: O último dérbi

Ninguém o esperava no portão. Caminhou até o orelhão e fez a ligação a cobrar.

– Oi mãe, já saí.

– Oi filho, eu sei, desculpe, é que não consegui remarcar a faxina da
Dona Joana. Tem dinheiro pra vir pra casa?

– Tenho sim mãe. Chego em algumas horas.

Pegou o ônibus do outro lado da pista. Ao passar pela entrada da cidade, começou a reconhecê-la, apesar da impressão de que tudo parecia diferente: as roupas, os carros e os prédios.

Chegando à rua de casa, percebeu que o bar dos sábados a tarde estava fechado, tornara-se uma igreja. Gostou do que viu, afinal convertera-se no período de reclusão, sabia que apenas apegando-se a algo “superior” sobreviveria ao inferno de uma cela para onze pessoas compartilhada por mais de quarenta.

No portão sentiu o cheiro de feijão fresquinho, cozido com calabresa e bastante alho, exatamente como lembrava ao recordar da comida da mãe. Não teve coragem de “ir entrando”. Apertou a campainha e logo viu a mãe com o largo sorriso de sempre. Sabia que estava em casa.

Durante algumas semanas sonhou com o momento mais aguardado dos últimos oito anos e meio. Na sua cabeça planejou cada segundo. Como seria o dia: acordaria cedo, tomaria um belo banho e faria a barba. Iria até a padaria comprar o café da manhã dos pais e o tomaria com eles. Puxaria assunto com o “seu velho”, que continuava desconfiado da melhora do filho, mesmo depois do novo emprego e das idas semanais a igreja. Ele havia sofrido muito as dores de perdê-lo para o crime e depois para cadeia. Desconfiava da reabilitação.

Pegaria sua CG Turuna, moto bem simples em comparada com a CB 400 que tinha antes de ser preso, mas que o levava para cima e para baixo, e abrira as portas para o novo emprego de motoboy. Iria até a casa da ex-namorada, pegaria o filho e deixaria lá a moto, afinal ela não permitia que o filho passeasse na garupa do pai.

Planejou a hora exata do ônibus, que o deixaria perto do bosque para um passeio entre animais e um lanche na hora do almoço, para mais tarde, apresentar ao filho o que ele fazia de mais importante algumas vezes por ano. Naquele domingo à tarde levaria o filho de onze anos de idade ao primeiro Guarani contra Ponte Preta, o dérbi campineiro de grande rivalidade.

De fato acordou bem cedo no domingo. Infelizmente o café já estava pronto e não pode fazer o agrado aos pais. – “Mas você poderia buscar um franguinho na padaria pra gente”. Disse a mãe ao ver a decepção do filho. E lá foi ele na birosca comprar o franguinho pra acompanhar a macarronada.

Pensou milhares de coisas no caminho, foi andando, de chinelos no pé e o cigarro barato no canto da boca. Ao passar perto de um novo bar que surgira próximo ao antigo, deparou-se com conhecidos em uma animada partida de baralho.

Atendeu rapidamente aos chamados dos amigos e em poucos minutos tinha três cartas na mão e a vontade de dizer o nome do jogo a qualquer momento.

As horas passaram e o frango não foi entregue aos pais. Ele também não foi buscar o filho e levá-lo ao primeiro dérbi da vida. Pouco tempo depois a mãe foi avisada que, o filho que buscava redenção, uma segunda chance, foi morto com uma facada por trás, enquanto jogava truco.

Dizem que foi uma discussão besta, dizem que era briga antiga, e dizem também que foi por causa de uma mulher.

Rubens (Rubão para os amigos) deixou o filho esperando pronto desde as onze horas da manhã até às quatro da tarde, quando o menino recebeu a notícia.

Ele também nunca mais foi ao dérbi.

assinatura tata

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