RESENHA: Festa silenciosa

Um jovem barbudo volta do banheiro com duas cervejas na mão. Ele entrega uma das latinhas ao amigo também barbudo que está ao lado. “Agora, quero ver como a gente vai abrir sem fazer barulho”, sussurra preocupado. Cuidadosamente, os dois conseguem abrir a lata quase sem emitir o característico som. Meu olhar abandona por um instante o palco e se volta para a plateia. Todos parecem em transe acompanhando minuciosamente o show. Não é possível ouvir conversas ou risadas. Um simples tossir ecoaria no salão.

Ao final da canção, Rodrigo Amarante dá um sorrisinho de canto de boca e abaixa levemente a cabeça. O público responde com palmas e alguns gritos. “Monstro!” “Lindoooo!” ”Maravilhoso!”. Ele agradece timidamente e já emenda a próxima música. Um dos líderes da banda carioca Los Hermanos estreava a turnê brasileira do tão aguardado primeiro disco solo, intitulado “Cavalo”, no SESC Pompeia, em São Paulo. Os ingressos dos três shows anunciados na capital paulista esgotaram no mesmo dia em que foram anunciados. Restava agora Amarante conquistar novos seguidores que foram para lá descobrir o voo solo do ruivo.

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Saudades

Uma voz anuncia e Rodrigo Amarante sobe ao palco às 21h37 sob aplausos e excitação. Sinto um arrepio misturado com excitação e encantamento. Vestindo blazer, camisa e com o cabelo penteado de lado e com gel, só mantém dos tempos de Los Hermanos a característica barba. Ele entra sozinho, acompanhado apenas por um violão. A primeira música é “Irene”. Diferente da canção homônima de Caetano Veloso, a “Irene” de Amarante é marcada pela melancolia que permeia todo o CD “Cavalo”. Sorrio paralisada.

“Saudade eu te matei de fome
E tarde eu te enterrei com mágoa
Se hoje eu já não sei teu nome
Teu rosto nunca me deu trégua
Milagre seria não ver
No amor essa flor perene
Que brota na lua negra
Que seca, mas nunca morre
Verdade eu te cerquei de longe
E tarde eu encostei no medo
Se ontem eu cantei teu nome
O eco já não morre cedo
Milagre seria não ter (…)”

Depois de se despedir de “Irene”, a banda entra no palco. Já me sinto em casa ao reconhecer o ex-baterista dos Los Hermanos, Rodrigo Barba, e Gabriel Bubu (baixo, guitarra, teclado, percussão, voz), que sempre saía de turnê com a banda carioca. Gustavo Benjão (guitarra, baixo, MPC, percussão, voz) e Lucas Vasconcellos (teclado, MPC, percussão, voz) completam o grupo.

A todo momento, Amarante agradecia e se mostrava surpreso por ter a casa cheia. Sorria encabulado. Ele, que cultivou a fama de antipático nos tempos em que dividia os palcos com Marcelo Camelo, se revelou engraçado e até irônico: “Agora eu vou tocar uma música nova.”

A cada canção, olhos e ouvidos atentos. Uns para reconhecer, em vão, algum resquício dos Los Hermanos ou mesmo do Little Joy, outros para começar a se familiarizar com o novo momento do carioca. Uma fase mais madura, em que ele expõe seus medos, angústias e solidão. E, com isso, se aproxima cada vez mais do seu público ou, em alguns casos, causa estranheza.

O CD “Cavalo” é o resultado dessa busca por se encontrar, por se reconhecer em terras estrangeiras. Tanto que há músicas em português, francês, inglês e até versos em japonês. Para quem não sabe, Amarante atualmente mora nos Estados Unidos e foi, primeiramente, por lá que ele começou a turnê do disco.

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Alguns dias antes do show em São Paulo, o artista divulgou uma carta falando do processo de construção do CD. “Tudo o que estava do lado de dentro protegido pela máscara veio pra fora, ficou exposto, limpo de direções, cores, está claro e sem vergonha, aberto.” Neste trecho, ele explica o porquê não quis fazer uma capa para o álbum. Ao invés disso, Amarante disponibiliza as letras das músicas no espaço onde seria a capa, como uma maneira de já revelar sem rodeios o que se esperar do disco. Só que a citação também denuncia o tom pessoal das letras que compõem o CD.

“Vou tocar uma música que vocês conhecem, mas que não é minha”, ele diz em determinado momento do show. A escolhida é “Augusta, Angélica e Consolação” do Tom Zé. Um dos poucos momentos em que o público sai do transe e acompanha em coro. É possível até acompanhar um princípio de dancinha no palco.

A falta de familiaridade com o álbum se deu devido a sua divulgação tardia. “Cavalo” foi lançado na madrugada do último dia 22 de setembro. Antes disso, só era possível conhecer o que Amarante estava produzindo por meio de vídeos no YouTube. Eu, logicamente, já vinha fazendo isso.

Tardei

“Tardei, tardei, tardei, mas cheguei, enfim…” Usando o começo de uma das músicas mais conhecidas do CD “Cavalo”, tenho que concordar que, sim, Rodrigo Amarante tardou parar lançar um disco solo. Entretanto, a demora se justifica. Ele conseguiu se desvencilhar das sombras das duas bandas anteriores e deve conquistar um novo público daqui pra frente.

Talvez quem esperava uma pegada mais roqueira tenha se decepcionado. Contudo, basta puxar à memória algumas das antigas composições do músico como “O velho e o moço”, “O último romance” e “Os pássaros” para se dar conta de que a melancolia e introspecção sempre foram companheiras do ruivo. Além da imprevisibilidade.

Depois de um momento mais animado com a também muito aguardada “Maná”. Amarante volta a hipnotizar a plateia com “The Ribbon” e “Tardei”.

Fecho os olhos e canto baixinho. “Tardei, tardei, tardei. Que na vinda eu quis pela primeira vez nunca mais partir e esperar você. O meu lugar, onde está?” O show estava quase no fim e eu não estava pronta para me despedir após uma espera tão longa. Observo alguns fios brancos na barba do Amarante. Do lançamento de “Anna Júlia” até esta quinta-feira, 26 de setembro e 2013, se passaram quase 15 anos. Hoje, o cantor tem 36 anos e está diferente. Eu também estou. Meus olhos umedecem. Ele se despede, mas logo volta para cantar a derradeira “Evaporar”, composição que encerra o único álbum do Little Joy.

“(…)O rio fica lá
A água é que correu
Chega na maré
Ele vira mar

Como se morrer
Fosse desaguar
Derramar no céu
Se purificar

Ahh deixa pra trás
Sais e minerais, evaporar!”

Reverenciando o público, Rodrigo Amarante agradece “Obrigado pela chance”.  Me viro para a minha amiga ao lado e, extasiadas, olhamos uma para a outra sem dizermos nada. Não Amarante, não precisa agradecer. Obrigada você pela chance.

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2 Respostas para “RESENHA: Festa silenciosa

  1. Lucicleide Silva

    Muito legal o texto 😀 Gostaria de saber se ele tocou alguma música do Los Hermanos…

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