CRÔNICA: Minha primeira camisa de time de futebol: A nove do Corinthians (texto colaborativo)

Lembro-me vagamente do jogo, sei apenas que o Corinthians perdeu de 2×1 para o Ferroviária e meu avô, triste, me abraçou e disse que passava. Lembro-me de sentir pena de enganá-lo. Eu não era corintiano, apesar de estar com a camisa do time e sentado na sala assistindo ao seu lado aquele jogo.

Eu deveria ter cinco ou seis anos. Meu avô, corintiano doente, comprara uma camisa simples, baratinha, daquelas brancas, tinha o número nove nas costas, do Casagrande, e apenas o escudo do time na frente. Quando ele me deu a camisa, meu coração ainda balançava e ele sabia disso.

Corinthians e São Paulo disputavam palmo a palmo os campeonatos paulistas do inicio dos anos 80. O senhor Mazolla, dono de um posto rodoviário, frequentava a lanchonete que pertencia a minha mãe e ao velho Brás, meu avô, e como dispunha de tempo, vivia me contando as histórias do tricolor paulista. Vovô não tinha tempo pra isso, dividia o dia entre a roça e o bar, quando sobrava alguma horas, ainda estava preocupado com os netos e a família. Aconteceu que eu e meu irmão mais velho viramos são paulinos.

Minha mãe sabia o quanto seu pai era corintiano, e, como éramos o xodó daquele gigante de mais de 1,80 de altura, me pediu inicialmente que não contasse ao avô a minha preferência no futebol.

Durante toda minha adolescência (e porque não na vida adulta?) contei dezenas de mentiras sobre tudo. Sobre a menina que não conquistei, o tênis que nunca tive, o gol que nunca fiz, o time que não me quis. Geralmente fazemos esse tipo de coisa pra sermos aceitos socialmente. Comigo não era diferente.

Alguns anos depois, longe de Bofete e de meus familiares, já na cidade de Campinas, apenas com minha mãe e meus irmãos, descobri o movimento estudantil e a política. Meu avô, conservador desde sempre e traumatizado pelas condições em que meu pai e minha mãe se separaram, logo depois das eleições de 89, com cada um em um canto da disputa feroz entre Lula e Collor, descobriu minhas opiniões.

Ficou sabendo que o neto não seria jogador de futebol, virou um “subversivo” e virou as costas pra família. Tenho muita responsabilidade nisso, porque dava pouquíssimas satisfações de minha vida para minha mãe, que fazia o que podia, trabalhando como “cuidadora” de pessoas de mais idade, vendendo cosméticos e fazendo faxina para sustentar sozinha os quatro filhos. E não tinha no filho adolescente a recíproca desejada: Obediência.

As reclamações de minha mãe fizeram com que meu avô tivesse comigo uma conversa decisiva: Ou eu largava esse negócio de ser comunista ou ele não me queria mais na casa dele.

Eu que passava férias em Bofete, fui encontrar um Brás que já não parecia um gigante. Vítima de uma diabete violenta, já tinha perdido o pé esquerdo e se preparava para amputar a perna direita. Aquele gigante impotente, que anos antes me buscava pelas orelhas das estripulias e contava piadas com a mesma naturalidade com que respirava, estava decepcionado. Assim como eu, que não acreditava ouvir aquilo dele.

Eu que mentia por qualquer motivo, lembrei meu avô que durante algum tempo fingi ser o que não era: Corintiano, para vê-lo feliz. Mas que, naquele caso, não poderia fazer o mesmo. Já sabia que tinha nascido torto, pela esquerda.

Meu avô fez um último pedido: Que então eu não o visitasse mais em vida. Nos anos que se seguiram, algumas vezes minha mãe disse que meu avô queria me ver. Minha avó fez a mesma coisa. Eu sempre perguntava se era um pedido do meu teimoso avô ou delas, e ouvia que com certeza ele queria me ver, mas nunca admitira. Tenho certeza que elas também diziam isso para meu avô, afinal, sem presunção nenhuma, eu era o mais grudado com ele. Fruto da paixão pelo futebol, mas também era (sou) um grande teimoso.

Depois de três dias em um congresso estudantil, chego em casa e me deparo com um bilhete: “Seu avô morreu, tentamos localizá-lo, mas para variar não conseguimos. O enterro é quarta-feira, faça o favor de estar lá”. Sem dinheiro no bolso, pedi ajuda a um amigo que prontamente levou-me para Bofete, onde fui cumprir minha palavra e me despedir do meu avô. Nunca mais o visitei em vida.

Engraçado que de todas as mentiras, inofensivas ou não, que contei em minha vida inteira, o que mais me arrependo foram duas verdades que não precisavam ser contadas. Os traumas de meu avô não precisavam do reforço de um neto rebelde. Nem a dolorida paixão pelo Corinthians precisava de um renegado.

Anos depois minha mãe me contou que guardara a primeira camisa de time que eu ganhei na vida e, apesar de tricolor de coração, guardo com todo carinho a única lembrança que tenho do “Vô Brás”.

Imagem

Tenho vários amigos corintianos, mas sempre que o time de Parque São Jorge ganha, sinto a dor dos secadores e uma pequena felicidade pelo homem que viajava horas e horas, para nos levar uma sacola de comida.

Meu avô conseguia achar graça em tudo, mas, no final das contas, fui incapaz de ajudá-lo a ver graça no neto querido. Espero que tenha me perdoado. Queria muito que ele tivesse orgulho do homem que o neto virou. Daria tudo pra contar uma ou duas mentiras pra ele.

Imagem

Anúncios

Uma resposta para “CRÔNICA: Minha primeira camisa de time de futebol: A nove do Corinthians (texto colaborativo)

  1. Carlão Araujo

    É Otavio, li sua história muito comovido lembrando de meu velho pai, um dia ele me disse que queria me ver no paredão junto com os comunistas todos, aquilo me feriu e fere até hoje, sei que ele era integralista, sempre odiou a esquerda. Deste dia em diante nunca mais falei sobre política com ele, acho que a única felicidade que consegui dar a ele foi ser corintiano.

O que você pensa sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

agenda

setembro 2013
D S T Q Q S S
« ago   out »
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930  

Blogs que seguimos

Cia Fios de Sombra

Teatro de Animação

Dully Pepper24H

Arte pelo Amor, Arte pelo Mundo, Arte pela Paz!

CorpoInConsciência

consciência corporal corpo inconsciência integração equilíbrio resistência alongamento respiração alimentação consciência

Educação Política

mídia, economia e cultura - por Glauco Cortez

%d blogueiros gostam disto: