CRÔNICA: Campinas Ink

Olho para o desenho no celular. “Colorido ou preto e branco?”, me questiono. 15h45. Quase atrasada, me dirijo ao carro. Vejo novamente a figura na tela e guardo o aparelho na bolsa. “Acho que colorido.”

“Boa tarde. Meu nome é Martha. Tenho o horário das 16h”, informo ao recepcionista. Ele checa a agenda rapidamente.

“Quem vai te atender é o Chico. Cinco minutinhos e ele já vem.”

Sede. Mãos suando. O horário das 16h estava reservado há quase três semanas para mim. Chegara o momento e a dúvida permanecia. “Preto e branco pode ser melhor…”, ponderava.

Menos de “cinco minutinhos” depois, aparece um jovem baixinho vestindo uma regata preta, óculos de grau, boné e exibindo uma extensa tatuagem no braço direito. Ele é o tal o Chico. Nos apresentamos e mostro o desenho para ele. Depois de examinar, ele logo pergunta: “Você vai querer o desenho colorido mesmo ou em PB?” Respondo secamente: “Não sei.”

Indecisão nunca fora uma característica da minha personalidade, mas sempre há uma primeira vez pra tudo. E esse foi o meu momento de ficar indecisa.

O Chico precisou dar um pulo em casa antes de prosseguirmos com a nossa conversa. Melhor, talvez.

Desbloqueio o celular. Dessa vez, para mandar uma mensagem para a minha amiga. Eu me irritara com o coitado do Chico. Na verdade, estava tão perdida que transferi para ele minha inquietude. Quase 30 minutos depois me decidi. Não pela cor, mas por ir embora daquele lugar.

O piso frio e as paredes cinzas me deram uma impressão impessoal. Na minha terra eu poderia traduzir esse sentimento como frescura mesmo. Até porque, por se tratar de um estúdio de tatuagem, as cores claras foram escolhidas, provavelmente, para passar a ideia de higiene. Além do mais, os quadros de cores fortes contrastavam de forma harmônica com o espaço clean.

bandeira_do_rio_grande_do_nChico voltara e agora se desculpava pela demora. Ele havia tido algum problema com o chaveiro. Assim como veio, a irritação passou rapidamente. Eu senti até uma leve vergonha pela minha postura de menina birrenta.

Hora de decidir, enfim, os detalhes da tatuagem. O desenho, aliás, eu escolhera há meses. Eu tatuaria uma parte do brasão do meu amado e saudoso Rio Grande do Norte. Mas e as cores? Veja bem, não precisamos falar sobre isso agora. Afinal, colorido ou preto e branco? Eu sinceramente não sabia.

Potiguar

“Você é de Natal? Mas o que está fazendo aqui?” Já perdi as contas de quantas vezes ouvi essa pergunta ao longo dos meus quase nove anos de Campinas.

“Olha, porque acho Natal uma cidade muito feia e o sol estava prejudicando minha pele”, brinquei certa vez. Na verdade, a verdadeira resposta para essa pergunta é tão complexa que pode até ser assunto para outro texto. Então, melhor deixar para depois… Agora o que realmente importa é que eu estava em um dos mais famosos estúdios de tatuagem campineiro, o Gatto Matto, decidida a homenagear por meio de um desenho minha terra de origem.

“Qual tamanho você quer?”, perguntou Chico. “Não muito grande. Uns oito centímetros está bom.” Fechamos em nove. Ele imprimiu o desenho e foi fazer o decalque, que para os leigos e não-tatuados significa a cópia da tatuagem em um papel vegetal.

Voltei para a sala de espera. Mais calma e (quase) decidida, já achava o ambiente mais simpático. O telefone não parava de tocar. A todo momento entrava alguém disposto a tatuar o corpo ou a colocar algum piercing. De tanto recorrer ao celular, a bateria já estava em menos da metade.

Chico logo apareceu me chamando para a sala. Cada tatuador possuía a sua. Pelo o que deu para notar, o local possui umas seis. Uma delas, provavelmente, deve ser usada para por os piercings. A do Chico é a segunda do lado direito.

Depois de aprovado o desenho, ele fez o teste na minha pele. “Perfeito”, falei animada. Em seguida, ele ligou o som e começou a preparar o equipamento. Reconheço a voz do vocalista do Rappa em uma das músicas.

Deito na maca e respiro fundo. Apesar de eu já exibir quatro tatuagens espalhadas pelos meus 1,76m (e meio), a sensação sempre é de primeira vez.

“Vou começar”, anuncia o tatuador. Respondo e respiro fundo.

Simbolismos

brasao-rio-grande-do-norteO escudo de armas do Rio Grande do Norte foi criado em 1909 pelo escultor Corbiniano Villaça. Quase 50 anos depois, o historiador, antropólogo, jornalista e advogado Luís da Câmara Cascudo escolheu o desenho para compor a bandeira do estado.

Nela, o brasão está posicionado dentro de um escudo francês amarelo. Cheio de simbolismos, em que desde as cores escolhidas até os desenhos possuem um significado diferente. A começar pelas cores, o amarelo remete à riqueza do estado, o verde à natureza e o branco à paz.

Compondo o brasão, há um coqueiro à direita e uma carnaúba à esquerda, tendo os troncos ligados por dois ramos de cana-de-açúcar, presos por um laço com as cores nacionais. Sobre o escudo, há uma estrela branca que simboliza o Rio Grande do Norte na União Brasileira. No meio, há o mar por onde navega uma jangada de pescadores.

“Arretada”

“Ai… Para só um pouquinho, por favor”, pedi suplicante para o Chico. Naquela altura a pele já estava sensível e a agulha passava pelos cantos mais arredondados como uma lâmina das mais afiadas.

“O contorno está pronto, quer dar uma olhada?”, ele perguntou logo depois. “Claro”, respondi já subindo a perna e olhando para trás.

Os traços delicados me impressionaram. Ainda com dores, pensei por um momento em finalizar a tatuagem ali. As ondas, a estrela, as flores. Tudo estava perfeitamente sutil. Tentação superada, me preparei para a parte mais dolorosa de toda tatuagem: a pintura.

IMG_3896Para tentar distrair (e me redimir), puxei papo com o Chico. Descobrir que ele tinha apenas 19 anos e que tatuava há mais de dois, que ele se dividia entre São Paulo e Campinas e que nascera no Maranhão. Já os pais eram de Pernambuco. “Estamos em casa então”, falei.

Pausa na conversa. Um pouco mais de dor. Me segurando para não chorar, me questionei o porquê de me submeter a mais uma tatuagem. “Ai meu Deus! P… que pariu”, blasfemei. Mais alguns xingamentos depois, voltei a conversar com o já quase íntimo tatuador.

Ele me contara que trabalhava no Gatto há cerca de dois meses e que o tipo de tatuagem que mais gostava de fazer eram as realistas. “Está vendo aquele desenho ali na parede? Eu que fiz”, apontou um quadro de uma japonesa localizado na sala ao lado. Chico revelou ainda que virara tatuador por acaso. “Eu estava procurando um bico para bancar uns cursos de desenho quando conheci um cara que me perguntou se eu queria aprender a tatuar. No outro dia, eu já estava no estúdio aprendendo.”

Conto um pouco sobre a minha vida bem ao estilo de programas como Miami Ink e Los Angeles Ink. Sinto um pouco mais de dor. Só que nada muito insuportável. O desafio agora era conter a ansiedade para ver o resultado.

“Pronto. Você quer ver?”, perguntou o Chico meio que de repente. Nem me dou ao trabalho de responder e já levanto a perna no susto. “Lindo!”, agora sim falo alguma coisa. Saio da maca e observo melhor no espelho. “Perfeito. Parabéns!”, digo extasiada. O resultado ficara realmente muito bom. Esqueço a dor que sentira há pouco e já peço para ele tirar uma foto.

A sensação de realização pessoal misturada com vaidade e até um certo orgulho próprio me relembra o motivo de eu ter acabado de fazer a minha quinta tatuagem. Prometo ser a última (será?).

E somente agora eu tive a certeza que, além do desenho, acertei também ao optar por fazê-la em preto e branco.

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