CRÔNICA: A batalha do gordo não é só contra a balança (texto colaborativo)

Uma noite comum de diversão com os amigos, uma festa conhecida por todos na cidade, cerveja, música, risada. Tudo nos conformes, do jeito que uma saída jovem deve ser.

Lembro-me que naquele dia eu lutei contra o guarda-roupa. Ele atirava toda sorte de roupas contra o meu corpo, enquanto eu tentava tira-las, quase rasgando, odiando tudo aquilo que queria me cobrir. Não porque eu queria sair despida, muito pelo contrário, mas parecia que o que era feito para me disfarçar ainda mais me evidenciava.

Eu não queria estar naquele lugar. Não sei explicar, mas havia motivos maiores do que simplesmente a trilha sonora sertaneja que eu detesto. Na verdade, naquele dia, eu não queria existir, porque me sentia “existindo demais”. Mas eu dei uma chance. E, céus, quantas chances erradas a gente dá nessa vida…

Uma inocente ida ao banheiro se transformou em um pesadelo. Na volta, rodeada de uns três ou quatro caras, me vi no meio de uma rodinha de pessoas grotescas e asquerosas que tiravam sarro de mim. Aos 24 anos, eu era obrigada a ser ridicularizada por causa do meu peso.

Permitam-me contextualizar. Olá, eu sou a Bianca. Pratico esportes desde os 8 anos de idade, fui da equipe de natação e de vôlei do clube, participei de competições neste último até os 17 anos de idade. Entrei pela primeira vez na vida em uma sala de musculação aos 14 anos e, desde então, nunca mais parei. Ano passado consegui correr os primeiros 6 quilômetros da vida sem parar um segundinho pra pegar um fôlego.

Mas então, eu tenho 1,68m de altura e peso mais de 80 quilos. Estranho, alguns podem pensar, diante de tantas informações “fitness”. Mais estranho ainda é saber que nunca, nunquinha, eu fui magra. Nem quando nasci.

Sempre fui gorda. Sim, gorda, porque “gordinha” é pejorativo demais. Desde que me lembro de entender o significado do nosso peso na balança eu estou acima do peso ideal para minha idade e tamanho. E desde que me lembro de entender que deveria emagrecer, seja lá por qual motivo fosse, me recordo do quanto perder o excesso de peso é difícil.

Eu já encarei diversos tipos de métodos emagrecedores. Nutricionista, endocrinologista, dieta normal, dieta maluca, remédio tarja preta, whey protein, exercícios dos mais variados. Já emagreci e engordei em velocidades igualmente proporcionais, mas a maior parte do meu tempo em solo terrestre eu permaneci gorda.

Eu odeio ser gorda. Não condeno a gordura de ninguém, desde que você tenha um mínimo de cuidado com a saúde, mas eu, particularmente, ODEIO ser gorda. Talvez por lembrar dos traumas de infância (todo mundo sabe que criança é cruel e inventa apelidos que até beiram a criatividade de tão sinceros), talvez pelas calças que até hoje cismam em travar nas minhas coxas, talvez porque eu adoro comer uma besteira e me privo delas diariamente. Talvez, mais ainda, porque eu me olho no espelho e tenho vontade de gritar, xingar, chorar, pra ver se mesmo isso me ajuda a gastar calorias.

Ser gordo não é fácil. É conviver diariamente com os olhares repudiatórios de pessoas que simplesmente acham que você, antes de nascer, preencheu um formulário e marcou lá “quero ser gorda”. É uma luta diária, infindável e dolorosa, se olhar no espelho é quase uma punição. É saber (e ouvir) que um número X de pessoas pensa “nossa, que rosto lindo, podia emagrecer”. Que será que essas pessoas têm na cabeça?

Eu sou gorda, mas facilmente me enquadro no grupo de pessoas mais ativas que eu conheço, em termos de atividades físicas (e sociais também, por que não?), e minha saúde está totalmente em dia. É o suficiente? Não é né, principalmente quando você ainda vive em uma sociedade que ridiculariza gratuitamente as pessoas que estão fora de um padrão estapafúrdio de beleza, que uma parcela bem pequena pode cumprir (e sim, eu já passei por DIVERSAS situações de constrangimento, além da citada acima, que eu definitivamente não merecia passar).

Admiro as pessoas que se aceitam como são, ainda mais no mundo hipócrita e preconceituoso em que a gente vive. Gordura é doença? É contagioso? Fede? Fere? Por que o ser humano precisa agredir fisicamente, verbalmente, psicologicamente ou até visualmente o que foge ao seu próprio padrão?

Aceitação é pessoal e intransferível, e ninguém, sob hipótese alguma, pode ferir o que é seu por direito. Diferente de mim, existem gordos nas mesmas condições de vida e saúde que se amam como são e vivem bem. São felizes, têm emprego e vida social, tiram fotos, e olha só, para espanto daqueles que me ridicularizaram, até namoram! Pelados, quando a situação exige. E gostam bastante de namorar.

Não vou entrar no mérito dos esforços que cada um pode fazer por si mesmo, física e psicologicamente falando, porque eu mesma sei dos trilhares de esforços que faço por mim, mas deixo um apelo para que as pessoas entendam que ser gordo é MUITO difícil, e que nem sempre é somente por falta de força de vontade. Somos bombardeados por informações que praticamente nos obrigam a ter corpos esguios e nem todos têm força, ou personalidade, ou vontade, ou seja lá o que for para bater no peito e dizer “eu sou como sou, e não como você quer que eu seja”.

Ah, sobre minha vida? Ela não para não. Nunca parou, e eu nunca pensei em desistir. Já tive períodos de maior disciplina e outros de maior preguiça, mas continuo na batalha. Magra? Não, isso eu sei que nunca vou ser. Mas talvez, no meio de tanto exercício, meu próprio cérebro fique mais forte e entenda que isto é o corpo que me foi dado, e isto é o que deve ser amado.

Eu chego lá.

(Esse texto foi inspirado por este outro aqui: http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/deixem-as-gordas-em-paz-9363.html)

assinatura Bianca

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22 Respostas para “CRÔNICA: A batalha do gordo não é só contra a balança (texto colaborativo)

  1. Marcilio Dias

    Gostei muito do texto. A Bianca é lúcida. Estamos vivendo um tempo em que é proibido falar das coisas que nos incomodam – parece que só podemos falar felicidade e esconder nossas mazelas. A Bianca foi verdadeira, transparente e o texto muito feliz.

  2. Oi Bianca, relacionando seu peso e sua altura e considerando que você deva ter bastante massa muscular, por ser atleta, posso afirmar que você não é tão gorda assim. A próxima vez que te ridicularizarem por isso, manda para aquele lugar. Em dez anos, metade dos seus amigos vão estar gordinhos. Relaxa.

    • Bianca Ferreira

      Hahaha adorei a última parte, Roberta!
      Eu realmente tenho uma parte considerável de massa muscular, mas ainda assim ouço de vários médicos que estou no primeiro grau de obesidade. É complicado, exige muita compreensão e posterior dedicação, fora o exercício de aprender a lidar com os seres humanos boçais que encontramos pelo caminho, né? Mas no final, de uma forma ou outra, vai dar tudo certo! 🙂

  3. Gostei muito do texto. Bem, eu tinha 162 kg e passei por tudo, exatamente tudo o que você colocou aí. Hoje, “me livrei” disso perdendo 45 kg, fazendo dieta e praticando esporte. O que eu tenho pra te dizer é que, até chegar num ponto mental ideal para a dieta definitiva e bem-sucedida, eu tentei durante anos, várias vezes, e não conseguia. Você chega lá? Claro que chega. Se isso te incomoda, você tem mais é que se esforçar para mandar tudo isso para o espaço, como eu fiz, porque eu também ODIAVA ser gordo. Você vai acabar conseguindo. Simpatizei muito com o texto e te digo que ele me fez admirar e até mesmo gostar de verdade de uma pessoa que nem conheço – que é quem está por trás dele.

    • Bianca Ferreira

      Muito obrigada, Marcus. É bom a gente compartilhar as inquietações, a gente descobre histórias inspiradoras como a sua e até faz novos amigos! 🙂

  4. Carlos Riva

    Sei que vai ser o maior clichê do universo, mas “o essencial é invisível aos olhos”, Bia…
    O importante é o que a gente faz/sente/é por dentro… E nessa matéria minha querida, pouquíssimas pessoas chegam aos seus pés!!!
    Uma pessoa muito cheia de luz e alegria que mesmo eu não tendo muito contato deixou uma impressão absurdamente positiva na minha vida!
    Felicidades!!!

  5. Marcia Aguiar

    bianca parabens estou muito orgulhosa de vc e adoraria ter esta sua força de vontade para continua, pois se fosse eu já teria jogado tudo para o alto e teria desistido, esta de parabens, eu sei que gordinhos sofrem mesmo, pois ate em entrar nas lojas que nao sejam de plus size eles já te olham de cara feia como se fosse um ser de outro planeta, e vc tambem tocou em um assunto bem interessante as calças, parecem que so fazem calça padrão modelo de pernas magras e se tenta encontrar umas calças “comuns” é tão dificil de encontrar….. mais enfim continue e foco sempre no se objetivo e sempre em busca do que vc quer, eu sei que terão 100 a sua volta te dando forças pra continuar e 1000 querendo te fazer desistir, pois sempre erga a cabeça e mostre as 1000 que vc é e sempre será capaz e lute sempre por akilo que vc deseja um bj

    • Bianca Ferreira

      Obrigada, Marcia!
      É bem isso mesmo que acontece, entro em lojas como a Farm, que é uma que adoro e que só faz modelagens pequenas, e me sinto um ET no meio das magras. Mas eu sou um ser humano como todos os outros e vou ser feliz como muita gente também é! 🙂

      • Marcia Aguiar

        isso aee Bianca te apoio nisso!!!! E eu sempre vi na epoca do volei a sua força de vontade em querer emagrecer e sei que não é facil !!!!! Estou tambem lutando contra a balança pois engordei e com esta leitura me sinto mais motivada a correr atraz do meu…… do nosso objetivo, mais enquanto isso vou vivendo e deixando os olhares maldosos pra lá e vou vivendo e muito feliz 🙂 rsrsrsr

  6. Priscila Maruoka

    Bianca, o importante é sua auto estima e ir atrás do seu bem estar, independente da opinião dos outros. A visão que mtos tem de que todo gordinho não é saudável, é mentira. Existem magros com péssimos hábitos de vida que tem menos saúde do que os gordinhos com ótimos hábitos. Mesmo estando acima do peso vc parece q tem uma vida saudável, e sei que grande parte da sua estrutura é de massa muscular. Por isso foca na QUALIDADE dos seus quilos corporais, e nao na QUANTIDADE.
    Muito bom o texto! Me identifiquei ;))
    Bjos!

    • Bianca Ferreira

      A autoestima, na verdade, é o maior dos problemas, porque no meio disso tudo eu nunca consegui evitar de me achar pior que as pessoas em volta, e isso acaba afetando em todos os setores da nossa vida, né? Mas a terapia já me ajudou muito e vai continuar ajudando! 🙂

  7. Bianca, seja como for, esse texto ensinou muita gente a se respeitar mais pelas diferenças que temos. E que pena que existe uma rodinha de babacas para cada evento social. Mas, pense bem, isso gera um ótimo contraste: perto de um babaca a gente parece ainda mais incrível!

  8. A Bianca me representa muito, muito mesmo. Muitíssimo. O mais engraçado é que ser gordo, que somos, incomoda muito o outro, que não é e tá sempre deixando claro o desconforto com o que não tá bonito no campo de visão (que somos nós, os gordos) e a gente tem que escutar que tem um rosto lindo e só falta emagrecer, que não sei quem perdeu não sei quantos quilos com a dieta da lua, do abacaxi, com hipnose, com um chifre, queda de moto, dor na pá, redução de estômago, promessa pro santo das causas impossíveis… E a gente que já nem sempre se sente bem com a gente mesmo, ainda tem que escutar isso e lidar com aquela culpa toda que impede de dizer que a pessoa é até bonita, mas tá namorando um gay; tá com uma calça saruel ou do besouro suco, não tira o bigode, tem aquele cabelo no nariz que tá saindo 4cm de dentro. Um abraço pra todos os meus amigos gordos.

    • Bianca Ferreira

      Hahahahahahaha A-MEI o seu comentário, Anna! É bem isso! Por que nego fica tão incomodado? É só não olhar! To obrigando? E tem gente bem cafona (de estilo e espírito) que se sente no direito de reclamar da gente! Francamente…

  9. Renata Sávio

    Adorei o texto!

  10. Nooooossa Bi! Juro que não sabia dessa história.
    Eu tive uma infância ridicularizada por ser magra demais, de vareta pra baixo. Minha mãe tinha medo de me carregar no colo, por achar que poderia me quebrar… mas enfim. Por motivo de doença, também já fui gorda e passei por situações difíceis.
    Seu texto me emocionou muito.
    Espero, de verdade, que você seja feliz. Magra talvez, magra um dia. Mas feliz sim e feliz sempre.
    Beijo e avise quando estiver em Campinas! 😉

    • Bianca Ferreira

      Obrigada, Aninha!
      Esse episódio faz parte de toda a insatisfação que alimentei por Campinas. Não que não possa acontecer em outros lugares, mas isso aconteceu mais de uma vez e, pra mim, retratava bastante o pensamento pequeno de alguns cidadãos. Triste. Mas sempre há uma luz no fim do túnel! 🙂
      Aviso sim!

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