REPORTAGEM: Sábado de sol

IMG_3813As costas doíam. Os pés doíam. O cansaço batera. Deitada de qualquer jeito sobre a fina canga preta estrategicamente levada para o festival, dava para sentir a grama sintética pinicar. Mesmo assim, adormeço. Ao meu lado, minha amiga também tira um cochilo. Sentada, ela repousa a cabeça na minha barriga em uma posição nada confortável. Ao redor, o chão era coberto por homens e mulheres de todas as idades que também aproveitavam o intervalo entre os shows de Florence + The Machine e do Muse para repor um pouco as energias. Alguns dormiam profundamente. Meio dormindo, meio acordada, reconheço as batidas da música “Supremacy” e me levanto no susto. Grito: “Paulinha, o show começou!! Acorda!!”

“Wake to see, your true emancipation
is a fantasy
Policies, have risen up and overcome
the brave
Greatness dies, unsung and lost
invisible to history
Embedded spies, brainwashing our
children to be mean (…)”

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Arrisco cantar algumas partes da música. Esqueço as dores musculares e pulo junto com a plateia. Com exceção de poucos que dormem apesar da forte pegada progressiva do trio inglês, o público vibra com a energia e carisma do vocalista Matthew Bellamy. Ele, assim como as atrações internacionais que o antecederam, se mostrou realizado por tocar no Brasil para cerca de 85 mil pessoas. Um dos pontos altos foi o momento em que Bellamy cantou com a bandeira brasileira na cara e no meio da “galera”. As quase oito horas na Cidade do Rock haviam valido a pena. O show principal do segundo dia do festival tem tudo para ser considerado um dos melhores da quinta edição do Rock in Rio no Brasil.

Rio 40 graus

“Rio 40 graus
Cidade maravilha
Purgatório da beleza
E do caos(…)”

Não havia nenhum sinal de nuvem no céu. Se os termômetros não chegavam aos 40 graus como dizia a música da Fernanda Abreu, com certeza, deviam estar perto disso. Mesmo assim, tivemos a “brilhante” ideia de caminhar até a arena onde acontecia o Rock in Rio. “É perto. Cerca de 5 minutinhos de carro. Fica do lado de onde eu trabalho. Deve dar uns 2 a 3 quilômetros”, informou minha amiga. “Tranquilo”, pensei. Calculei que daria mais ou menos o mesmo percurso da parte de dentro da Lagoa do Taquaral em Campinas e concordei em irmos a pé.

Saímos do apartamento dela por volta das 15h00. Eu havia me programado para ir antes, mas a Barra da Tijuca estava um inferno e o trânsito atrapalhara meus planos.

Pelo caminho encontrávamos alguns transeuntes que também deviam estar a caminho do festival. A julgar, pelo menos, pelas roupas: tênis estilo All Star, camisa de banda e acessórios “estilosos”. “Deve ser perto mesmo”, concluí equivocadamente.

Nos primeiros 10 minutos de caminhada, o bom humor ainda existia e nós ainda estabelecíamos algum diálogo. Até cheguei a brincar: “Isso aqui ‘tá’ tão quente que me sinto no deserto. Só que a minha miragem não é de água, mas sim de uma Heineken bem gelada.” Só que o riso logo deu lugar à impaciência. Suor, sede e até um leve cansaço.

30 minutos de caminhada. “Vocês querem que eu leve vocês até o Rock in Rio? Faço 15 por ‘cabeça’”, ofereceu um senhor que devia morar por aquelas bandas e aproveitara o festival para fazer uma “graninha” extra. Negamos. Agora realmente estávamos perto.

Cerca de 10 minutos depois enxergamos a roda gigante. Lá estava a Cidade do Rock. O bom humor já reaparecia aos poucos. Assim como a vontade de beber uma cerveja bem gelada. Mas que não foram só 3 quilômetros de caminhada, não foram não.

All you need is love

Depois das tradicionais fotos da entrada postadas imediatamente nas redes sociais acompanhadas das “hashtags” #eufui, #rockinrio, entre outras, hora de dar uma voltinha pela área de 150 mil m², que conta com a capacidade máxima para 85 mil pessoas, 15 mil a menos que a edição anterior.

Ignoramos o show do Marky Ramone no Palco Sunset e fomos direto para a Rock Street. Para quem nunca foi ao Rock in Rio, significa o outro lado da arena.

“When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom:
Let it be (…)”

A famosa música dos Beatles nos fez parar antes de comprarmos a tão aguardada Heineken. “De onde está vindo esse som?”, perguntou minha amiga. A dúvida era normal já que o palco localizado na Rock Street estava vazio.

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“(…)Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom:
Let it be (…)”

Olhamos para cima e desvendamos o mistério. A famosa, inclusive mundialmente, banda cover dos Beatles All You Need Is Love se apresentava no alto de uma réplica do prédio da Apple Record, de Londres, onde o quarteto de Liverpool se apresentou para a gravação do filme “Let It Be”.

Compramos rapidamente a tal almejada cerveja, que diga-se de passagem custava R$ 9,00, e voltamos para curtir o show. Na sequência, o cantor inglês radicado no Brasil Dan Torres subiu ao palco da Rock Street e cantou sucessos de bandas exclusivamente inglesas.

Por volta das 17h30 escutamos guitarras e baterias vindo do palco Sunset. Era o IMG_3807momento do tributo ao Raul Seixas. Detonautas, Zélia Duncan e Zeca Baleiro foram os responsáveis por trazer à memória dos presentes as músicas do roqueiro baiano. Já escurecia e aproveitávamos a trégua dada pelo sol. Impossível ficar indiferente a canções tão conhecidas por todos. E, fazendo referência ao tributo ao Cazuza, que acontecera no primeiro dia de festival, procurávamos um vendedor de cerveja pelas redondezas,  afinal, “Mais uma dose, é claro que eu tô afim…”

Pra não dizer que não falei das flores

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Nem tudo foram flores no Rock in Rio. Os banheiros não eram químicos e na minha primeira ida (de muitas), fiquei bem impressionada. Era cheirosinho, limpo e tinha até papel higiênico (meninas, vocês sabem como sofremos). Só que logo a boa impressão foi deixada de lado. Isso porque a água acabou em várias cabines, enquanto outras apresentaram vazamentos que chegaram invadir parte do gramado e aí o cheiro não era nada agradável. Sem falar nas filas gigantescas.

Quando se vai a um festival do porte do Rock in Rio, realmente não se espera situação muito diferente, mas no Lollapalooza, por exemplo, foram utilizados banheiros químicos e, sinceramente, no final das contas acabou funcionando muito mais.

Outro ponto do Rock in Rio que a organização deveria repensar e se espelhar no Lollapalooza são as fichas de alimentação e comida. No caso do festival carioca, não há uma ficha única que possa ser utilizada em todos os estabelecimentos comerciais, diferentemente do evento que ocorre na capital paulista.

IMG_3806O preço absurdo também pode ser considerado um ponto negativo do festival, pelo menos para mim, uma reles jornalista assalariada. Os organizadores parecem ter pensado: “Eles não vão ter opção mesmo então vamos botar pra f#der!” Desculpa o palavrão, mas R$ 5,00 por um copo de água, R$ 18,00 por uma pizza brotinho e R$ 9,00 por 400 ml de cerveja (sempre falando da birita, né?) é demais.

Também preciso citar o fato do sinal de celular/internet ter praticamente inexistido ao longo  de todo o dia. Pelo menos no caso da operadora TIM.

You’ve got the love

Capital Inicial foi a banda brasileira escolhida para abrir os trabalhos no Palco Mundo. E, conforme o esperado, Dinho Ouro Preto e sua “trupe” empolgaram a plateia.

Com vasta experiência em shows da banda de Brasília, assistir à metade da apresentação me pareceu suficiente. Eu e minha parceira Paulinha resolvemos conferir o que estava “rolando” na Rock Street. Decisão mais do que acertada, ao passo que encontramos um público alternativo animado e dançante ao som da banda Terra Celta.

O grupo formado em 2005 combina elementos da música celta e brasileira numa verdadeira catarse musical. A banda conta com seis integrantes e tem no repertório canções da Escócia, Irlanda, Galícia, entre outros, além de composições próprias (baixando a música em 1, 2, 3…).

Eis que estávamos já um pouco entorpecidas pela Heineken quando nos misturamos ao grupo que curtia a Terra Celta, acompanhamos as palmas, pisadas alegres e movimentos, no meu caso, desengonçados.

Tentar equilibrar o copo cheio de cerveja sentada de cócoras junto com os demais não foi uma decisão inteligente, uma vez que me dei um banho visto a risadas pela Paulinha. “Por isso que nem ousei me abaixar?, disse ela logo depois de se divertir às minhas custas.

The Offspring tocou na sequência no Palco Sunset. O som estava ruim, o que culpo não a banda, mas a organização por não ter colocado o grupo no palco principal. E o espaço também estava lotado demais. Então, aproveitamos o momento para fazer uma “boquinha”.

IMG_3815Uma hora depois, foi a vez 30 Seconds to Mars, banda liderada pelo simpático ator e cantor Jared Leto, se apresentar no Palco Mundo. Não conhecia muito o grupo, mas não dá pra negar que o vocalista é um showman. Ele usou camisa em homenagem ao Rio, cantou enquanto saltava da tirolesa, interagiu com um fã e até fez saudações em português.

Mas eu aguardava mesmo era a Florence (musa). Ela tocou em seguida ao 30 Seconds. Quando colocaram a famosa harpa no palco eu já sentia que o tão esperado momento estava prestes a acontecer. Toda trabalhada no vestido azul esvoaçante e descalça, a ruiva abusou dos característicos gritos e demostrou bastante energia no palco. O que essa mulher correu de um lado para o outro era de dar inveja a qualquer maratonista. Exageros à parte, a cantora pareceu estar muito satisfeita por cantar no festival. Ela cantou no corredor no meio da galera e recolheu os presentes dados pelos fãs, entre eles flores e uma bandeira do Brasil.

O ponto alto foi, sem dúvida, a última música e hit da banda “Dog Days are over”. Contudo, a canção que eu mais queria ouvir ao vivo era “You’ve got the love”, que fora responsável pelo meu caso de amor com a banda. E quando reconheci a longa, porém belíssima introdução da música, sorri emocionada.

“Sometimes I feel like throwing
My hands up in the air
I know I can count on you
Sometimes I feel like saying
“Lord I just don’t care”
You’ve got the love I need
To see me through (…)”

Todos cantavam em coro. Não sou tão piegas a ponto de chorar, mas admito que meus olhos umedeceram um pouco. Olhei ao redor e percebi que eu não era a única emocionada. Cerrei por um momento as pálpebras e levantei um dos meus braços. Eu estava genuína e simplesmente feliz.

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