MEMÓRIA: Chuva fina – outra história sobre 10 de setembro (texto colaborativo)

– É o carro do Toninho no barranco,  Suplicy.

– Tem certeza?

– Tenho.

Somos surpreendidos por flashes vindos da câmera do jornalista Carlos Bassan, que vem na nossa direção perguntando o que havia acontecido com o prefeito. Fico mudo, dirijo-me ao carro e vejo o corpo de Toninho. O que se segue é minha briga física com o fotógrafo e amigo, que quer a imagem histórica e eu só tenho raiva com a cena…

Engraçado como depois de 12 anos essa imagem não é a mais importante que tenho do prefeito. A imagem que ficou comigo é do “prefeito maluquinho”, corajoso e espirituoso, teimoso e desconfiado, capaz de gestos tão simples e complexos como as ideias e sonhos que carregava, de discursar sobre o direito das pessoas a cidade e minutos depois empinar uma pipa com um garoto no terraço da prefeitura.

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Lembro-me de Durval de Carvalho pedindo pra nos buscar (a juventude) no ginásio da Unicamp no dia da apuração dos votos. No meio de milhares de pessoas, Toninho pedia que eu e mais um bando de moleques o jogássemos para cima. “Joga que deu sorte”, disse ele. O prefeito subiu e desceu várias vezes embalado pelos nossos braços, pra depois  respirar aliviado e dar a volta olímpica em nossos ombros.

A primeira vez que o “jogamos” para o alto, foi logo após o primeiro debate nas prévias internas do PT. A cada debate interno, repetíamos o feito, que depois foi repetido no dia da prévia, depois em cada debate de campanha nas emissoras de TV e rádio, e nas vitórias de cada turno.

“Isso não vai dar certo!”, disse um Toninho pálido na primeira vez, para na vigésima vez, pedir que o jogássemos para o alto novamente. Sempre confiando “desconfiando”, e aliviado quando chegava ao chão.

Lembro-me de uma duríssima reunião que Toninho teve com os empresários do setor de transporte. De terno impecável e expressão firme, Toninho condicionara o aumento da passagem do transporte ao retorno dos cobradores e a renovação da frota de ônibus. Ao sair da reunião, alguém percebeu que Toninho calçava uma chuteira, dessas de travas baixas.

– De chuteira Toninho? O que é isso?

– Sou português,  vocês não falaram pra eu ir na canela deles? Precisa de chuteiras para isso…

Diferente dos políticos mais tradicionais que têm receio de “povo”, Toninho sentia-se em casa no meio de “gente”.

– Vamos subir a avenida Otávio.

– Certeza? não quer esperar ninguém?

-Esperar quem? Vamos, vamos…

E lá fui eu atrás dele, que não gostava do palco de autoridades e decidiu subir a pé e sozinho a avenida do carnaval.  Parando sempre que alguém falava seu nome, mesmo que fosse para um simples aperto de mão ou  uma tirada espirituosa.

Ainda na campanha que o elegeu, lembro-me de passarmos ao lado de um campo de futebol, onde rolava uma “pelada organizada”, dessas com uniforme,  juiz e bandeirinhas. O goleiro de uma das equipes não aguentou ao ver Toninho e gritou seu nome de longe. E lá foi o maluquinho invadir o campo para dar uma abraço no goleiro. Nesse momento o esperto  atacante adversário fez o gol e os dois times caíram na gargalhada.

Toninho não era perfeito e nem de “fácil” trato. Sua teimosia era tão famosa como sua lealdade e generosidade com os companheiros mais próximos. Quando não era convencido de algo, era duro movê-lo em qualquer direção, “empacava” mesmo. Quando acreditava em algo, se movia em uma velocidade de raciocínio e de ação que era difícil de ser acompanhado por sua equipe.

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O luto ainda não foi superado. Falta saber o que aconteceu. A Justiça deve isso a família e à cidade de Campinas.

Mas naquele dia 11 de setembro de 2001, debaixo de uma chuva fina e ouvindo notícias de um certo ataque nos EUA, enquanto nos revezávamos em um carro de som organizando a fila do velório e depois a marcha fúnebre,  ouvíamos de vários senhores e senhoras, gente que já viveu mais de 70 anos e que apelidou Toninho de “Arquiteto do Povo”, que deveríamos agradecer o “menino” e lembrar dele por toda a vida, e não por aquele dia especificamente.

A raiva e o ódio com o crime covarde me impediram durante anos de entender o significado daquele conselho. Hoje eu acho que entendo, e sou grato por isso.

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2 Respostas para “MEMÓRIA: Chuva fina – outra história sobre 10 de setembro (texto colaborativo)

  1. Penso que essa vergonha tem que ser esclarecida doa a quem doer.

  2. Ana Maria Sartori

    Penso que a pessoa que tirou a vida de Toninho e uma.pessoa que esta com a passagem comprada para o inferno.

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