PERFIL: Graúna

“É ruim, né? Porque eu não tinha motivo para ser vice-prefeito. Eu só fui porque eu acho que eu tinha um compromisso com a cidade, sabe? Eu devo muito a Campinas. Cheguei aqui em uma situação difícil, sem condições e tal. E ela me deu tudo: estudei aqui, casei aqui, meus filhos nasceram aqui, tenho neta aqui, formei meu centro de amigos e tal. Eu reconheço que a cidade me ajudou. Eu só fui vice pensando que eu podia ajudar a cidade, mas a questão política é… como é que fala? Apagou tudo isso aí. Eu tenho certeza viu… que com o tempo a gente vai esclarecer isso”.

Domingo. Vinte e três de junho de dois mil e treze. Quatro horas da tarde. No quinto andar de um prédio na Avenida Doutor Alberto Sarmento em Campinas, Demétrio recebia visita acompanhado de sua mulher e de uma de suas duas enteadas. Na varanda, a vista da torre do Castelo, uma caixa d´água construída no fim da década de 30 e que já foi o ponto mais alto da cidade.

O juiz apita na TV da sala e a bola começa a rolar no campo do recém-reformado Castelão de Fortaleza, dando início a mais um jogo da Copa das Confederações. No sofá da frente, uma senhora e um homem começavam a assistir o duelo que acabaria em 3 para Espanha e 0 para Nigéria. Na mesa ao lado, mais três pessoas conversavam com Márcia, que há oito anos convidou Demétrio para dividir a cama com ela. Cama que fica em um dos dois quartos, do lado esquerdo do apartamento. Do outro lado, um pequeno cômodo que fora transformado em armário e no fim do corredor, um único banheiro. Na garagem, o Agile sem ar-condicionado, carro popular que é dividido pelo casal. Essa união só foi possível porque Cláudia, a filha mais nova de Márcia, resolveu sair com as amigas sem avisar em 2005 e deixou a mãe de cabelo em pé ligando para toda a agenda telefônica da caçula. Até que encontrou na letra “D”, um homem que Claudia conheceu na Juventude do Partido dos Trabalhadores e que colocaria à disposição nas próximas horas seu ombro “amigo” até a jovem de 20 anos aparecer novamente pela porta da casa.

Naquele domingo fazia em torno de 17 graus, quando Demétrio abriu a porta disposto a contar a sua história com uma camiseta branca com listras azuis e uma jaqueta por cima. Sentado, pegou uma tangerina da fruteira da mesa da cozinha e dela não largou por uma hora e trinta e sete minutos, tempo necessário para contar os momentos que considerara os mais importantes dos 67 anos de sua vida.

Estação da Luz.

estação

– Quero uma passagem.

– Para onde?

– Não sei… Qual cidade que tem sem ser São Paulo?

– Tem Jundiaí, tem Campinas…

– Ah, me dá para Campinas então.

Os prédios altos, os mais de 8 milhões de habitantes, o barulho dos carros, o trânsito e a correria que a capital paulista já tinha em meados dos anos 80 não teve mais que uma breve visita daquele jovem de 19 anos. Demétrio Vilagra ficou apenas um dia na cidade, e com uma mochila nas costas, 80 cruzeiros no bolso e sem a companhia de mais ninguém, resolveu seguir o caminho de quem acabara de deixar uma cidade do interior do Mato Grosso do Sul.

Foi a 27 quilômetros de Corumbá que nasceu, no dia 8 de outubro de 1946, o menino de descendência indígena, italiana e paraguaia. “Meu pai foi criado por esse senhor que era paraguaio, chamado Vilagra, que é meu nome. Meu avô era paraguaio e falava Guarani. Então meu pai também aprendeu a falar”.

Ainda criança, via caminhões passarem na estrada de terra levando carvão para a siderurgia que ficava em Corumbá. Uma das formas que sua mãe arranjara para ganhar dinheiro e cuidar dos 14 filhos foi costurar os sacos de carvão que acabavam rasgando com a brasa.
Ele e o irmão pegavam a batata, mandioca, mamão, tomate e cebola que o pai plantava para venderem na cidade. Na ida, levavam as mercadorias e as bicicletas na caçamba dos caminhões que transportavam areia. Já na volta, eram 27 km pedalando depois de mais um fim de semana de trabalho. E na segunda-feira, começava tudo de novo frequentando as aulas do primário.

Ao completar 14 anos passou a morar a cada seis meses na casa de um parente até terminar o ginásio e servir o exército. Pegou um trem decidido a ir embora para São Paulo, que virou Campinas em menos de 24 horas.

Primeiro morou numa pensão, mas logo lembrou de um homem que havia namorado sua vizinha lá perto de Corumbá, e não hesitou em procurá-lo. “Genésio, estou aqui em Campinas! – Ah, então você fica em casa…”. Foi no Jardim Samambaia que Demétrio dividiu o humilde espaço com Genésio, quatro irmãos e os pais.

Do emprego ao desemprego

O primeiro trabalho registrado também veio com a ajudade Genésio e a General Eletric foi carimbada em uma das páginas de sua carteira de trabalho. Para conseguir o emprego foi fácil. Difícil foi criar coragem para entrar na firma sem nenhuma experiência. Só depois de algumas horas sentado no banco da praça da frente da G.E. esperando o prédio esvaziar, é que teve coragem de pedir emprego sem usar artimanhas ou inventar um currículo recheado.

“Olha, eu preciso trabalhar. Não tenho experiência, nunca trabalhei. Me dá uma oportunidade!” E assim abriram as portas para o emprego em que ficaria por quatro anos. Pôde assim voltar a morar em uma pensão na Rua Barreto Leme. Mas antes conseguiu do proprietário a autorização para pagar a partir do segundo mês, quando receberia seu primeiro salário. “Eu ficava trabalhando lá cedo até noite. Fazia hora extra, pegava sábado e domingo… aí eu falei: preciso estudar”.

Se Corumbá foi a cidade onde estudou o ginásio, foi em Campinas que Demétrio teve a oportunidade de completar o segundo grau e, mais tarde, cursar durante um período a faculdade de administração na Pontifícia Universidade Católica.

demetrio petrobrasA segunda assinatura na carteira de trabalho foi a Refinaria de Paulínia (Replan), a maior refinaria de petróleo da Petrobrás, localizada a 23,6 km de Campinas. Foi lá que, em 1976, começou a participar do sindicato e sete anos depois, teve a oportunidade de se tornar tesoureiro e escrever parte da história da luta dos trabalhadores.

No dia 21 de julho de 1983 o Brasil parou. A Greve Geral desencadeada pelos trabalhadores da Replan no começo daquele mês contou com a adesão dos petroleiros da Refinaria Landulpho Alves Mataripe (Rlam), em São Francisco do Conde, Bahia, e de cerca de 50 mil metalúrgicos do ABC. Na época, o Sindicato dos Metalúrgicos era dirigido por Luis Inácio Lula da Silva, que lutava juntamente com os funcionários da Petrobrás contra o Decreto de Lei 2.025, que extinguia todos os benefícios dos empregados das empresas estatais. Era o estopim para a primeira Greve Geral do país no período pós Ditadura Militar.

Na Bahia foram afastados 205 funcionários e em Paulínia, 153. Demétrio era um deles. “Suspenderam o contrato e ficamos três anos com contrato suspenso. Aí para você arrumar emprego, como é que fazia?”

Nas entrevistas seguintes, quando a carteira de trabalho era solicitada, ele já sabia o que iria ouvir. “Ah, você é da greve? Ih cara, não posso pegar você não… temos restrições com quem foi da greve”. A última tentativa de conseguir um emprego foi na Nuclebrás (Empresa Nuclear Brasileira S/A), que estava terminando a construção das usinas nucleares em Angra dos Reis. “Só tem general que manda aqui. Não abriram mão. Não pode trabalhar aqui”.

Foi um “empurrão” para uma nova fase da vida. Demétrio sorri pela primeira vez em que conta sua história, e continua: “Tinha um amigo que tinha um bar. Comprei eu com um amigo que tinha convidado para ser diretor sindical e ele foi mandado embora. ‘Tava’ desempregado também. Tinha um (outro) que tinha sido mandado embora aí tinha recebido os direitos dele. Eu falei: ‘Oh, tem um bar lá. Vamos comprar?’ Eu não tinha dinheiro. O outro falou: ‘Oh, eu tenho um pouco’. Eu falei: ‘Vamos uai, a gente dá um jeito’”.

henfilNaquela época, Demétrio já havia conseguido comprar um apartamento. O imóvel foi vendido e o bar comprado. Com o contexto histórico, o boteco ganhou o nome de Resistência. Ficava entre as avenidas Francisco Glicério e a Aquidabã, duas avenidas movimentadas de Campinas. No bar, o desenho de uma graúna, personagem criado por Henfil (foto acima), morto pela Aids contraída em uma transfusão de sangue, em 1988. O pássaro era personagem da tirinha que representava a voz do povo e falava sobre problemas políticos no nordeste brasileiro. E o desenho na parede havia sido pintado pelo próprio cartunista.

“Menina, deu um maior rolo… nós ficamos uns meses sem voltar para o bar porque os caras queriam pegar nós. Mas deu um rolo por graunacausa dessa Graúna…”. O Resistência era um dos bares mais populares da cidade. Foi frequentado por radialistas, estudantes e jornalistas como Heraldo Pereira e Ilze Scamparini, na época namorados. Visitado por importantes nomes, como Henfil que lançou o livro “Diário de um Cucaracha”, vendendo 400 exemplares no bar, e de Gonzaguinha, que apresentou um show para arrecadar fundos. “Foi o melhor bar que teve de 83 a 85. O meu bar ficava aberto todos os dias até umas duas… o bar esquentou! Gonzaguinha foi lá, tocou lá, comeu lanche lá. Foi comigo lá na cozinha enquanto eu fazia o lanche, conversamos muito. Tomou cerveja lá.”

A memorável época de trabalho regado a ótimas conversas e discussões políticas em mesas de bar chegou ao fim e Demétrio fez mais uma vez as malas para São Paulo. Agora teve que se acostumar com a vida corrida da capital paulista, onde passou a trabalhar no escritório da Petrobrás e ajudou a fundar o departamento do aposentado e o primeiro sindicato dos petroleiros na cidade: o Sindipetro, que contava com 1100 trabalhadores da base. A vida na capital foi até 1992, quando veio a aposentadoria e, portanto, a volta para Campinas.
Na cidade do interior, ele participou ainda da construção do Centro de Estudos de Formação Sindical, que contava com a ajuda de sindicatos europeus, como o da Itália e França. A Petrobrás, que em 1978 tinha apenas cinco sindicatos, passou a ter 26 em todo o Brasil.

Paletó e gravata

demetrio 1Em 2000, Demétrio começou a fazer parte da história da política campineira, quando foi, a pedido do prefeito Toninho, assessorar o programa de merenda escolar e segurança alimentar das Centrais de Abastecimento de Campinas (Ceasa). A merenda passou a ser municipalizada e virou referência nacional, permitindo a distribuição dos alimentos em mais de 500 escolas estaduais, municipais e ONG´s. Em 2003 foi fundado outro programa, conhecido como “Banco Municipal de Alimentos”, que oito anos mais tarde já atendia por volta de 70 mil pessoas em cerca de 150 bairros de Campinas.

Em 2008 Demétrio ganhava o cargo de vice-prefeito durante o segundo mandato do Dr. Hélio. “Como vice eu fiquei três anos… a gente saiu por essa questão política, né? Fui cassado por falta de decoro”, lamenta Demétrio que dá uma pausa e continua com um olhar longe e triste: “Segundo a câmara, eu não tomei nenhuma providência em relação à Sanasa. Segundo a Constituição, ela (a Câmara) que tem que legislar e fiscalizar. Ela cobrou de mim porque ela sabia… se ela sabia, por que não tomou providência? E veio cobrar de mim…fui cassado por causa disso”.

demetrio 4Na madrugada do dia 20 de maio de 2011, promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e de Promotorias de Justiça Criminais, além de policiais militares e civis foram às ruas à procura das pessoas consideradas suspeitas de terem participado de um esquema de fraudes em licitações públicas da Sanasa, Sociedade de Abastecimento de água e Saneamento de Campinas. Na tarde daquele mesmo dia, o Ministério Público confirmou a prisão de 11 pessoas e anunciou que, entre outros suspeitos, Demétrio Vilagra estaria foragido.

Da Espanha para a cela

O telefone começa a chamar. O vice-prefeito aguarda para falar com um amigo de Campinas, a quase 10 mil quilômetros de distância. Ao lado da esposa e das duas enteadas, ele espera o companheiro atender. Faltam quatro dias para a família ir embora da Espanha e ele queria saber a situação política campineira.

– É, Demétrio… tá decretada a sua prisão. Penderam um monte de gente.

– A minha? Por quê?

– Não sei… eu sei que tão decretando.

– Não pode…

– Acharam dinheiro na sua casa.

– O dinheiro é meu! Qual o problema? Não é crime ter dinheiro em casa. Crime é você não ter receita e eu tenho receita!

A viagem havia sido fruto da herança que ficou para Márcia. O apartamento que pertencia à mãe dela no Cambuí, bairro nobre de Campinas, fora vendido e o valor dividido entre os cinco filhos. A parte dela foi aplicada e ainda sobrou um pouco para conhecer a Europa. A viagem foi feita através de uma agência que permitiu parcelar os gastos em oito vezes.

“Eu queria voltar antes, né? Mas você não consegue voltar antes… primeiro que é caro você comprar na véspera. Aí eu falei: Volto dia 26. Eu voltei no dia 26. Podia ter ficado lá esperando sair o habeas corpus porque aí eu não seria preso. Mas eu fui, eu não tinha nada”.

Era quinta-feira. Foram 12 horas dentro do avião. Conforme a Espanha se tornava mais distante, policiais e a mídia nacional se aproximavam à espera do “show” que estava por vir. Enquanto isso, Demétrio dormia na poltrona como quem voltava de uma viagem tranquila e livre de preocupações. “Normal… de onde eu vim, eu te contei a história, né? Eu não tenho o direito de ter medo de nada… eu não tenho medo de nada. Eu fiquei tranquilo.”

As luzes da cidade de São Paulo já podem ser vistas pela pequena janela do avião. “Eu falei: ‘Márcia, ou eles vão me chamar na frente e você fica, ou se não chamar, vocês vão e eu sou o último.’ Ela fez uma mochilinha com o remédio que eu tomo lá, uma escova, pasta e tal, é… blusa, né? Aí chegou lá, aquele avião grande que vem com 300 pessoas, né? Não me chamaram. Aí eu falei: ‘pode ir que eu sou o último’. Fiquei com a minha bolsinha, minha mochila. Todo mundo saiu, saí também lá. Tinham seis de terno. Eram da polícia federal”.

– Demétrio?

– Eu.

– Você sabe que tá preso?

– “Tô” sabendo…

demetrio 5Depois de passar pela Polícia Civil, Demétrio foi recebido por inúmeros flashes, luzes no rosto e microfones que lutavam para conseguir o melhor “take”. Imprensas locais e nacionais acompanharam os últimos passos do vice-prefeito que minutos depois entrava no carro da polícia para ser levado para a Penitenciária São Bernardo, em Campinas, dividindo cela com o diretor administrativo da Sanasa Aurélio Cance Junior, o ex-diretor de controle urbano da Prefeitura de Campinas Ricardo Cândia e outros empresários. Foram 19 horas atrás da grade que separava a verdade das calúnias, até que foi chamado para depor e enfim ser solto novamente. Quinze dias depois, a prisão de Demétrio fora novamente decretada e o rosto dele voltou a ser estampado nas capas de jornais como o foragido da vez.

No meio de tantos holofotes, o presidente da Câmara dos Vereadores, Pedro Serafim, do mesmo partido do prefeito, criou a Comissão Processante (CP) para abrir investigação sobre o caso. Mais tarde foi pedido o impeachment de Hélio de Oliveira Santos, do PDT, e Demétrio se tornou prefeito de Campinas no dia 23 de agosto de 2011, em meio a maior crise política que a cidade já passara.

Muitos protestos ocuparam a frente da Câmara dos Vereadores e no dia 19 de outubro, foi decidido o afastamento temporário de 90 dias para investigar se Demétrio teria responsabilidade administrativa e estaria envolvido nos desvios de verbas públicas da cidade.
“Essa questão da Sanasa foi no primeiro governo do Dr. Hélio, de 2005 a 2008. Nesse período eu não era vice-prefeito, não era presidente do Ceasa. Eu era apenas um assessor que cuidava da segurança alimentar lá. Então não tenho nada a ver com isso”.

Demétrio teve um infarto em maio de 2008 e foi levado para o Hospital Especializado em Cardiologia (Incor), onde ficou internado por quase duas semanas. “Eles tentaram, nessa crise, me ferrarem no Ceasa e não acharam nada, minhas contas todas estão aprovadas lá. Nos três anos que fiquei, tentaram dizer que eu comprei coisa de merenda lá, carne de avestruz que era na fazenda de não sei quem lá… fez toda a varredura na minha árvore genealógica lá de Mato Grosso do Sul e não achou nada. Não achou nada. O que eu tenho ‘tá’ tudo no imposto de renda, não tem nada fora.”

Em meio a tantas investigações e depoimentos prestados ao Ministério Público, ele fora citado apenas uma vez, durante o segundo depoimento de Luiz de Aquino, ex-presidente da Sanasa delator do caso, onde afirmou que ouviu dizer que Demétrio estava no lugar dele no esquema. No primeiro depoimento do próprio Aquino, quando foram registradas 90% das denúncias do delator, o nome de Vilagra não aparecera uma única vez.

Enquanto falava-se de milhões de reais desviados por empresários e pessoas de dentro do governo, foram encontrados 60 mil reais em uma mochila no armário do quarto de Demétrio durante um mandado de busca e apreensão. “Meu problema é o seguinte… deixa eu explicar para você para você entender… em junho de 83 suspenderam o contrato da Petrobrás e aí eu fiquei sem salário e sem poder ter conta em banco. Precisei vender um imóvel para ajudar a botar lá no bar. O bar não dava dinheiro para sobreviver. Aí que que eu falei? Daqui para frente eu sempre vou ter um dinheiro. Pagava tudo com dinheiro. Aí eu fiquei com esse negócio… com dinheiro você segura mais. Foi isso! Eles pegaram o dinheiro que eu tinha aqui, mas eu tinha vendido um carro que eu tinha, tinha recebido um dinheiro pra pagar umas multas também!”

Nesse momento, a simplicidade cortou o clima de indignação e o homem nascido naquela família humilde de Corumbá, apoiou na mesa para levantar: “Eu tenho guardado aqui… você quer que eu mostre aí o que eu tenho?”

Enquanto isso, no quarto andar
Quando entrou pela primeira vez no quarto andar como prefeito, recebeu a notícia que o deixaria noites sem dormir: a prefeitura estava com um déficit de 283 milhões de reais. Com uma arrecadação mensal de cerca de 150 milhões e um gasto de 170 milhões por mês, Demétrio descobrira que em cinco meses de mandato, fecharia o ano devendo 400 milhões de reais. Faltava menos de uma semana para o pagamento dos funcionários públicos, tempo que o novo prefeito teria para conseguir 50 milhões de reais.

Com a bomba no colo para ser resolvida logo no primeiro dia, foram agendadas reuniões de emergência. Demétrio chamou algumas pessoas em quem confiava com experiência na área de finanças para analisarem o orçamento e a partir daí contou com o PRF (programa de regularização fiscal), um programa de negociação de dívidas atrasadas da prefeitura.

“Arrecadamos 226 milhões e pagamos o pagamento de agosto. Em setembro, nós pagamos a primeira metade do 13º. Nós saímos dia 21 de dezembro aí pedimos para pagar o pagamento de dezembro e a outra parte do 13º. A gente falou: ‘Vai que… o Pedro (Serafim) vai assumir e ele não vai pagar. Vai falar que não tem dinheiro.’ E tinha! Aí nós pagamos mais dois mil fornecedores de pequena quantidade. Pagamos e deixamos dinheiro em caixa. Quando entramos lá, não tinha dinheiro em caixa. Então eu fiquei mais preocupado com isso. A situação financeira era difícil.”

De volta ao Mato Grosso do Sul
Foram dois anos e sete meses como vice-prefeito, quase seis meses como prefeito e um depoimento prestado ao Ministério Público até ter o mandato definitivamente cassado no dia 21 de dezembro de 2011. Agora já se passaram 48 anos da primeira vez em que Demétrio entrou em um trem com uma mochila e apenas os sonhos no bolso. Era hora de voltar para o Mato Grosso do Sul e visitar a mãe Nilza, que agora mora em Ladário, cidade conurbada com Corumbá. Juntos, os dois municípios somam quase 121 mil habitantes. E é lá que dona Nilza mora com uma filha, o genro, duas netas e sete bisnetos. Na casinha simples de três quartos, os 12 parentes se acomodam em colchonetes para dormir.

“Eu tenho 13 irmãos, né? Todos ficaram preocupados porque toda essa família, nunca ninguém teve problema com polícia, delegacia, com justiça, né? Aí eu fui lá e expliquei para eles que era questão de política, né? Eles entenderam, mas são pessoas simples que não tem muita facilidade com essas questões.”

E assim o interior de Mato Grosso do Sul se tornou um dos refúgios de Demétrio, um dos poucos lugares em que consegue até hoje esquecer, pelo menos por rápidos momentos, a crise política que roubou o sonho de melhorar a cidade que muito lhe dera.
“Lá é um lugar bom para relaxar porque eles não falam de política, né? Lá você conversa de sobrevivência e não de política. Mas também vejo muita injustiça, sabe? É uma cidade pobre… só vê as pessoas doentes”.

Ele lembra quando o irmão precisou fazer uma ponte de safena e para isso teve que viajar 420 quilômetros de Corumbá a Campo Grande apenas para marcar a consulta. Depois voltou mais algumas vezes para realizar os exames. “Não tem nada, nada, nada. No dia que minha mãe internou lá, não tinha oxigênio, você acredita? O pessoal sofre muito. Você olha, fala: ‘Pô, como fica abandonado esse povo’. Eu trouxe dois irmãos e uma sobrinha para Campinas… não acostumam aqui e voltam. Lá é… a vida deles lá é tranquila.”

A caixa, os bens bloqueados e o trem cheio e pesado

A porta da cozinha abre pela primeira vez: “Demétrio, as visitas estão indo embora”. Então ele levanta, se despede e volta com uma caixa nas mãos, daquelas de plástico, com cerca de meio metro de altura e travas nas laterais. Dentro, um pouco da história contada por jornalistas. Ele abre uma página dobrada duas vezes para caber na pasta. “Olha aqui! Olha o tamanho da lista dos bens dos acusados… e olha a minha!”.

Demétrio teve os bens bloqueados em abril de 2013 juntamente com os de cinco suspeitos de terem envolvimento com o Caso Sanasa. “Depois da briga de 23 anos com a Petrobrás, eu ganhei um milhão e trezentos mil reais. Eles tinham que ter me pago isso aí em 88, como foi depois de 20 anos, o valor foi atualizado. Tenho um apartamento que comprei em 79 e um que comprei em 2007, eu não era vice-prefeito. Foi quando comecei a receber esse dinheiro. Comprei um no Taquaral e dei para os meus filhos… eles (Justiça) bloquearam. Eu comprei três carros. Um meu, Honda Civic 2008, minha filha tinha um Corsa que eu comprei para ela e minha ex-mulher tinha um carro dela. Eles bloquearam os três.”

No dia 21 desse mesmo mês, Demétrio Vilagra caminhava pela Lagoa do Taquaral quando começou a sentir fortes dores no estômago. Não teria ido ao hospital se não fosse sua mulher para insistir na consulta. Bendita insistência! Já na maca teve seu segundo infarto. “Eles (Ministério Público) me chamaram lá em março para essa questão do recebimento do dinheiro que falaram, né? Fui lá, sentei com eles, levei todo o meu imposto de renda e falei: ‘O que eu tenho é isso aqui, ‘tá’ tudo declarado o imposto de renda. Tudo tem fonte, tem origem e tal’. Aí marca pra eu dar depoimento dia primeiro de abril, dia da Mentira. Aí no dia que eu vou depois, o Ministério Público bloqueia minhas contas, meus bens… para que fazer isso se eu tinha conversado com eles lá? Essas coisas vão acumulando, né? Você fica chateado. Acho que por isso enfartei. Porque eu ‘tava’ bem, né?”

Com o nome investigado pelo Ministério Público, tendo sido escrito inúmeras vezes nas páginas dos jornais e citado tantas outras em rodas de bar como injusto, mentiroso e corrupto, aos 67 anos Demétrio tenta levar a vida que sempre levou.

“Eu continuo acreditando que aqui foi um golpe político, né? Eles desprezaram os interesses da cidade, botaram os interesses deles acima. Você vê que o Hélio saiu, não entregou 100% do esgoto que ia entregar, perderam oito naves mãe. A Escola Técnica Federal, perderam e até agora não licitaram. O hospital da mulher que ‘tava’ aí licitando, perderam. Pronto-socorro da região sul, perderam. Perderam o Centro de Esporte de Auto Rendimento, a maria fumaça que tava com problema, mas ‘tava’ sanando. Perderam… perderam o sambódromo que era um projeto bom que já tinha verba e’ tavam’ começando a fazer. Campinas parou… parou. E eu acho que vai levar uns 10 anos para se recuperar. É igual um trem, né? Cheio e pesado. Que para você sair dessa, demora.”

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Uma resposta para “PERFIL: Graúna

  1. Marcelo Fernandes

    Entre 83 e 85 viajei num ônibus fretado com este pessoal de CPS para SPO todos os dias … muitas histórias boas, além do Poker e Truco …

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