CRÔNICA: Cidade grande que nada!

Era a primeira vez que entrava em uma lavoura como aquela. Os 26 anos vividos na “cidade grande” me distanciaram das maravilhas do meio rural.

Maravilhas.

Tudo era novidade: os cafezais, milharais, canaviais, plantações de trigo, soja, laranja, aveia…

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Sorgo e triticale passaram a fazer parte do meu vocabulário. Fui apresentada às máquinas gigantes, com cinco metros de altura e que têm mais tecnologia que muitos carros importados. Conheci pessoas que tinham lucro mensal de um milhão de reais, mas que eram mais simples e menos arrogantes que muitos que não recebem nem um milésimo. Percebi que é preciso desacelerar o ritmo que se leva na cidade, para falar a mesma língua que os produtores. Conversei com donos de multinacionais, proprietários de pequenas, médias e grandes propriedades, e ainda com operadores de máquinas. Conheci lugares que nem imaginava existir no mapa.

Lugares…

Viajei para o Paraguai e capitais brasileiras nunca antes visitadas por mim, como Brasília, Belo Horizonte e Goiânia, mas visitei dezenas de cidades do interior também.  Cada lugar com sua beleza, mas todos com pessoas que traziam na bagagem histórias para contar.

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Vi que a maioria dos produtores continua o trabalho começado há anos pelos avós. Aprendi que tratores de hoje não são apenas aqueles amarelos de beira de estrada, mas com ar-condicionado, música, conforto e com tecnologia mais avançada que qualquer GPS que usamos no dia a dia, possuindo uma precisão de apenas cinco centímetros. Percebi ainda que a imagem que tinha de agricultores com enxada e mãos calejadas foi trocada por máquinas robustas e modernas.

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Descobri coisas básicas também, como por exemplo, que a plantação bonitinha e alinhada que via nas estradas, pertencia a alguém. E que este alguém gastara milhões para plantar certa cultura.

Aprendi que antes de as frutas e os legumes irem para as cestas dos supermercados, um produtor precisou limpar o solo, neutralizar a acidez aplicando calcário, distribuir fertilizantes, fazer as linhas e colocar as sementes, irrigar e acompanhar o crescimento da plantação, pulverizar, para depois colher, encaminhar o produto para o processo de pós-colheita e enfim transportar a mercadoria para alguma cooperativa ou direto para o comércio.

Depois disso, nunca mais comi Ruffles sem lembrar da plantação de batatas ou olhei um tomate podre sem ter dó do desperdício.

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Vai um cafezinho?

Fazenda Gigante, Patos de Minas, interior de Minas Gerais. Era um dia de sol e eu estava no meio de um cafezal. Plantas para todos os lados e um corredor que parecia não ter fim.

Mil hectares.

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Os dez mil quilômetros quadrados justificavam o nome da propriedade. Nas plantas, pequenas bolinhas. Algumas ainda verdes, outras, vermelhas e pretas. Eram os grãos de café que em poucos minutos estariam na carreta puxada por um trator. O Bourbon Vermelho é uma variedade gourmet que naquele caso, seria exportado para o Japão, Estados Unidos e ainda alguns países da Europa.

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Diferente de outras plantações, o pé de café dura cerca de quinze anos na lavoura, até o proprietário decidir reformar a plantação. Então novos pés são plantados e começam a dar frutos apenas dois anos depois. Aí vem a colheita, que é feita apenas uma vez por ano, tempo necessário para aparecerem novos grãos.

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Depois de lavado, o café colhido na Fazenda Ribeirão Fundo, em São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, fica de três a cinco dias secando no terreiro – onde é colocado espalhado no chão para secar ao sol -, para então ser deixado de 24 a 48 horas no secador. Na tulha de descanso, os grãos ficam de sete a dez dias para terem a umidade equilibrada, e é na etapa de beneficiamento que os grãos passam pelo processo de remoção da casca, limpeza e por uma classificação simples.

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Na mesma cidade, uma cooperativa recebe sacas de café de 5.954 cooperados com propriedades em 140 municípios da região. Todos os anos passam pela Cooparaíso cerca de um milhão e duzentas mil sacas de sessenta quilos cada. E todo esse café é levado para um local onde é submetido por mais um longo processo: retirada de impurezas e separação por tamanho, densidade e cor.

Em outro galpão, centenas de sacas empilhadas construíam o cenário.

– Aqui dá para sentir o cheiro adocicado do café. Percebe?

“A-h-a-nnnn”, respondo sem sentir nem mesmo o cheiro de café que estamos acostumados.

Ele sorri e continua:

– Para a gente que trabalha diferenciando os cheiros, percebemos aroma de chocolate,  limão…

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Dentro de uma sala de paredes de vidro ficavam dois homens e uma mulher. Enquanto ela torrava os grãos, os outros dois experimentavam dezenas de copos. Sem engolir, o líquido era sugado por um canto da boca, e cuspido pelo outro. E em apenas um segundo eles conseguiam avaliar o café. Era o controle de qualidade.

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– De vez em quando eles precisam colocar água na boca porque depois de muito tempo param de sentir o gosto. Esse aqui tem cheiro de remédio, percebe?

– Hum… deixa eu ver um com cheiro normal.

– Esse aqui ó… viu a diferença??

– Não…

Tentei. E aprendi. Mas resolvi deixar o trabalho de degustação, percepção de aromas e controle de qualidade para quem entende do assunto. A mim restou apenas fechar uma matéria tentando mostrar toda esta complexidade em poucos minutos de reportagem.

Sigo aprendendo, tentando e descobrindo a cada dia as maravilhas do campo. E arriscando, claro, experimentar cafezinhos por aí até encontrar um que me agrade. Exigente? Não… Incomodada por até hoje não ter conseguido gostar de uma xícara de café.

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Uma resposta para “CRÔNICA: Cidade grande que nada!

  1. Claudia

    Nada melhor na vida do que o jeito simples de viver no interior. Com todas essas maravilhas da natureza que esquecemos de apreciar e valorizar vivendo na cidade grande!!!!

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