REPORTAGEM: Quando o choro da mãe se confunde com o do bebê

Já na fila, casais. Olhei ao redor, grávidos. Ele e ela, mas antes mais ela que ele. Olhos que buscavam alguma coisa, talvez respostas. Mas não me preocupei em descobrir. Quando já havia desacelerado o coração por conta dos tantos degraus subidos – tem elevador para as grávidas – sentamos.

Sala aconchegante, com temperatura acolhedora como se estivéssemos dentro de uma bolha que não existe na sociedade. E era tão interessante ficar naquele local que nem olhei para a pipoca, a deixei durante todo tempo lá, numa das poucas cadeiras vazias.

Poesia pura. E poesia da realidade, que retrata nossa real chegada. Tão real de realista que faz a cabeça mudar de rumo quando na tela a cena é do corte nada invisível e muito menos pouco invasivo como nos fazem acreditar.

Campinas, fim de tarde de domingo, Cine Topázio, longe das grandes telas. Era O Renascimento do Parto e, como diz exatamente o nome da película, renascemos ao entrar, assistir e sair insistindo em outra ideia.

http://www.orenascimentodoparto.com.br/#/trailer

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Posso começar este texto informando um milhão de dados numéricos sobre a atual conjuntura desconjuntada do modelo de parto no Brasil. Posso também citar nomes de grandes médicos e especialistas no assunto dando ao texto aquela boa característica informativa. Mas não o farei, não agora.

Agora quero identificar em mim o que senti ali. E, de fato, nossa sociedade está invertendo os papéis dos valores e a anormalidade vem ganhando um espaço fenomenal. É normal se fazer assim, pois é assim que se faz. Mas não é assim que deveríamos fazer. A pergunta precisa ser invertida, a razão da pergunta pra vida deveria ser somada às razões incontáveis que nos dariam bases sólidas para depois educar.

Como é que se cobra por educação, se no nosso primeiro momento de vida – digo nosso, pois desde a década de 80, os números de cesarianas realizadas no Brasil subiram no gráfico com a ajuda de um avião – já somos atacados com violência brutal?

Sim, o assunto deveria ser tratado com tal prioridade por ser tão anterior aos tantos outros tão importantes temas. É a base. É a estrutura que falta. Como hoje é feito, consequência natural é o descarrilar pelos trilhos.

Sim, falta amor. E sim, falta pensarmos em por que nos falta amor? Onde foi parar todo aconchego daquele útero que me carregou por nove meses me acolhendo de maneira sem igual?

Indagações que possuem coerência ao analisarmos o caminho pelo qual temos percorrido atrás de buscas inalcançáveis que não se cansam. Quanto mais, melhor. E mais dinheiro, mais tempo, menos dor, bebê grande demais, bebê pequeno demais, cordão umbilical amarrado no pescoço, pouco líquido, muito líquido, é rapidinho, você não vai sentir nada, deve doer, pode ter que te rasgar, você vai ficar larga. São tantas hipocrisias criadas por mentes inocentemente induzidas a um dos males do milênio no Brasil: o nascimento dos nossos bebês.

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“Para mudarmos o mundo precisamos mudar a forma como nascemos”, Michel Odent, meu mais novo amigo, francês, cientista, médico e referência quando o assunto é obstetrícia. E vieram dele as falas que mais me impressionaram, pois ele fala de amor.

Ele tanto fala que fui pesquisar mais para saber que a ocitocina – hormônio malucamente produzido pelas gestantes e que é responsável pela profunda troca de informações da mãe com o bebê, vem sendo estudada e caracterizada como o “hormônio do amor”. É aqui que nasce a capacidade e amar.

Essa troca profunda e humanizada entre mãe e bebê é o plano de fundo do O Renascimento do Parto, um filme que aborda sem restrições de imagens e suas possíveis sensações de dores durante os partos naturais lindamente exibidos. Dor não é sinônimo de sofrimento!

Falta estrutura. Tanto falta que hoje estamos diante de um número muito próximo a zero na indicação de que as mulheres deem a luz aos seus filhos sem o uso de qualquer intervenção cirúrgica ou médica. Tragédia. Esta é a palavra que define o cenário brasileiro perante o ponto de vista do médico francês Odent.

E não existe escolha sem informação. Esta talvez seja a principal importância do documentário trazido por Érica de Paula, Eduardo Chauvet e uma trupe rica em boa vontade e conhecimentos capazes de mudar concepções impostas pelo sistema.

Efeito colateral do bem:

Sim! Quando fiquei conhecendo o documentário, pelas páginas do Facebook (a Fan Page: https://www.facebook.com/orenascimentodoparto), na hora associei ao meu instinto natural de ser mãe. E pensei em uma possível reportagem para o Bendita Versão. Fui e levei meu namorido ao cinema. No momento da compra dos bilhetes, com a fila cheia de futuras mamães, ele logo soltou um “Marília, você tá grávida?”, como se quisesse dizer “Por que você me trouxe aqui”. Então eu só disse uma coisa e nos calamos para aprender. Disse primeiro que não, não estou grávida (ainda) e que além de ser uma questão de profunda mudança cultural que caminha paralela às mudanças já conquistadas pelas mulheres (“Só quem já morreu na fogueira sabe o que é ser carvão” ilustra esse dado), era também uma necessidade de combate ao capital. E ele só me olhou como se quisesse dizer “Não te entendi, mas vamos que vamos”.

Nem precisei perguntar a ele sua opinião após o fim da película, pois ele saltou à frente vestindo a camisa pela humanização do parto. E ele defendeu tudo de maneira clara, objetiva e racionalmente sentimental. Quero dizer: esse filme precisa, sim, ser apresentado à maioria das pessoas, começando no ensino médio para os pré-adolescentes que um dia, excluindo uma pequena minoria que não quer ser mãe ou ser pai, passará por esta realidade. Isso é o que defende Laura Uplinger, Psicóloga formada por Sorbone e educadora Perinat do Rio de Janeiro com experiência de mais de 30 anos sobre gestação e parto consciente.

E que sistema é esse?

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Sistema embutido no ter e não no ser. Sistema que nos passa a falsa ilusão de que tudo tem que ser passageiro, pois não temos tempo, de que o instantâneo é o melhor, de que se pagar por algo é assegurar vários privilégios. Como se fazer uma abdominoplastia na sequência ao parto, por exemplo. Como fazer as unhas, arrumar o cabelo ou mesmo escolher um dia para o Pedro nascer. “Tenho quarta-feira, as 15h para fazer sua cesariana. Quer deixar marcado? Fora isso não tenho mais nada, aproveite”. Alguém conversou com o Pedro para avisá-lo que ele vai nascer na quarta, as 15h? E ele, respondeu que tudo bem? Que já está preparado para enxergar aquelas luzes todas e o frio do centro cirúrgico?

Ricardo Chaves, Médico Pediatra, Chefe do Serviço de Pediatria do Hospital Universitário Pedro Ernesto e Professor do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, dá um show ao salientar a necessidade do bebê falar por ele mesmo e não deixarmos que a “praticidade” engula um momento que caracteriza fortemente um papel tão importante da mulher.

Oras, mas agendar um horário é tão prático, não é?

Sim, é prático para 52% das mulheres. Que são levadas pelo sistema que acaba por configurar o Brasil como o campeão mundial de cesarianas. No ano de 2010, pela primeira vez, o percentual de cesárias superou o de partos normais, dividindo quase 40% na rede pública e mais de 80% na rede privada. São os abastados em grana (não em glória), os seguidores assíduos do parto horizontal sem amor.

Engraçado… Como a medicina trabalha? É algo sustentado em algum algo? Digo, existem normas a seguir que dizem respeito ao respeito que deve-se ter com os seus “clientes”? Fico em dúvida e chego a associar a uma máfia bem estruturada esse sistema. Afinal, a OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda que essa taxa não ultrapasse 15%. Mais alarmante é conferirmos provas vivas e reais desses números. E termos ciência de que esse elevado índice de partos cirúrgicos está associado não apenas à vontade das mulheres, visto que pesquisas recentes apontam que a maior parte deseja ter um parto normal, mas sobretudo está colocada em alto pedestal de importância a comodidade de todo um sistema médico e financeiro que rege o nascimento.

Esse aparelho em funcionamento crescente que nutrimos é mantido hipocritamente por mitos que colaboram para que as mães mudem de ideia, perante sua fragilidade emocional borbulhante, e não queira ter seu parto de maneira fisiológica e natural.

Mas o problema não se resume só a isso. Soma-se ao sistema a brutalidade com que as mamães são tratadas durante os partos vaginais com intervenções perigosas, traumáticas e desnecessárias. Colocamos no porta retrato o grande descompasso entre a prática médica corrente e a medicina baseada nas mais recentes evidencias científicas.

“Depois de milhões de anos nascendo segundo as leis da natureza, a humanidade entendeu que podia otimizar este processo”. Então caracterizemos uma nova frase: CORTE SEU CORDÃO COM O SISTEMA.

7Foi então que perguntei como ela ficou conhecendo “novos e diferentes” meios para se parir sua bebê que não a cesariana. E foi então que ela despertou meu olhar com uma resposta repleta de ativismo e cultura. Fernanda Marques Valente é mãe da Giulia, Jornalista e credora em uma sociedade menos induzida e mais fiel aos seus valores. “Estão nos convencendo (médicos, hospitais, mulheres influenciadas etc.) de que a mulher brasileira não precisa parir! Pior, que não é capaz de parir! Se pararmos para pensar, isso causa uma lacuna nas nossas vidas. Um momento mágico e lindo, que é o nascimento, praticamente não existe mais (já que na cesárea, a mulher não tem participação alguma durante o processo, pois fica lá, deitada, imóvel e pior, totalmente grogue)”.

A menina mulherão de longos cabelos negros, como a asa da graúna, revela que não sonhava em ser mãe até entrar na fase adulta e que este desejo foi nascendo e criando forma junto ao seu amadurecimento. Hoje ele tem nome, chama-se Giulia e parece ser intrínseco a ela.

Por trás da doçura que hoje forma uma família, junto do Fofo, quero dizer, do André Luís de Oliveira, Fer salienta dúvidas. Naturais, deixo claro. Tão naturais que se não forem devidamente respondidas com doses cavalares de informação, amor, naturalidade e valores reais, logo as dúvidas se transformam na certeza da imposição médica pelo parto horizontal, pela cesariana sem indicações de gravidade para tal.

“Quando engravidei, eu não queria pensar em nada. Tinha, lá no fundo, muito medo do parto. Mas sabia que de alguma forma o bebê teria que sair e eu não queria ficar preocupada com isso”. Mas logo estas questões foram sendo desmascaradas em pesquisas feitas pelo pai da Giulia, o André que, muito curioso descobriu e inseriu à rotina dos futuros papais, a linguagem do parto humanizado. “Acredite, meu marido que nos levou para esse ‘universo paralelo’”.

Depois disso não foi preciso de muito para que o casal entrasse de vez no apaixonante mundo do parto humanizado. Então eles começaram a frequentar o Grupo Samaúma (vale conhecer: http://www.gruposamauma.com.br/site1/index.php), na cidade de Campinas e encontraram, nas reuniões semanais, informações que fortaleceram a convicção sobre a forma como eles queriam que a Giulia viesse ao mundo.

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O parto de hoje visto pela mãe da Giulia: “As cesáreas marcadas, conhecidas como eletivas, estão aí para mostrar muito sobre a nossa sociedade. A sociedade do fast food, onde o que importa é o menor tempo e não a qualidade; a sociedade do luxo, já que muitas acham chique fazer uma cirurgia e não passar pelo processo do parto; a sociedade da vaidade, afinal, com uma cesárea marcada, dá tempo de fazer as unhas, escovar o cabelo e passar maquiagem; a sociedade do fútil, muitas agendam o nascimento do filho para que caia em um dia especial para a mãe, para o pai, enfim. As cesáreas são importantes e estão aí para salvar vidas. O problema não está na cesárea e sim na banalização dela”.

Humanizar o parto é respeitar a mulher e, acima de tudo, o bebê que está em seu ventre. Ele precisa estar pronto para nascer. Passar pelo trabalho de parto é essencial para a vida de um ser humano, é seu primeiro grande desafio. Quando olhamos para o parto como algo fisiológico e não médico, entendemos que na vida há vários ciclos e todos eles precisam ser vividos de forma plena. “Humanizar o parto faz isso. Muda a gente, para sempre”.

E, quando na telona vi o choro emotivo da mãe envolvido ao choro do bebê, tive a certeza de que a brutalidade banal de uma cesariana não indicada corretamente é uma agressão pura à mulher.

O site do filme (este aqui, ó: http://www.orenascimentodoparto.com.br/) é muito rico em informações e tem dados completos sobre estatísticas atuais. Vale a pena conferir!

 

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21 Respostas para “REPORTAGEM: Quando o choro da mãe se confunde com o do bebê

  1. André

    Texto perfeito!
    Obrigado.

  2. Livia

    Conheço o Fofo e a Fer e adorei seu texto! Tomara que na minha vez eu possa experimentar esse maravilhoso mundo das mulheres empoderadas!

  3. Marcela Gonçalves

    ótimo texto e maravilhosa reflexão!

  4. Olá pessoal! Gostaríamos de divulgar essa resenha na página do filme! Podemos? De quem é a autoria? Grato!!

    • Olá, Eduardo! Bom dia, tudo bem?
      Mais é claro que pode! Será um prazer para nós!
      A autora do texto é a Jornalista Marília Gabriela Viana (tem a assinatura dela ao final do texto).
      Agradecemos a visita e ao belo filme 🙂
      Obrigada!

  5. Pingback: REPORTAGEM: Quando o choro da mãe se confunde com o do bebê | CorpoInConsciencia

  6. Valeu cada palavra, linha e ideia. Ainda não assisti ao filme, mas só o fato de estar desencadeando um debate amplo e aberto sobre o parto humano (de propósito, não quis escrever “humanizado”) já garante que este cumpriu seu objetivo de nos fazer refletir sobre o retorno à natureza do parto, com sua singularidade, beleza e importância para todos nós. Parabéns pelo texto.

  7. Giselle

    Ainda não tive a oportunidade de assistir o filme mas estou aguardando uma oportunidade para tal..li o texto e fiquei muito impressionada, ótimo texto, ótima resenha.. Lindo trabalho….tenho dois filhos e infelizmente meus dois partos foram cesariana, talvez se eu tivesse mais informação na época e mais apoio também, quem sabe pudesse desfrutar de um momento tão lindo, mágico…tenho planos para uma nova gravidez mas acredito que depois de duas césareas não poderei tentar pátio natural…é verdade??? Um abraço

  8. Parabéns pelo texto Marília. Muito interessante ver a sua ótica de quem foi introduzida a este universo, quase sem querer e antes mesmo da gestação. Nós assistimos o filme depois de ter vivido a experiência de um parto humanizado, e já éramos “ativistas” antes disso. Bom saber que a mágica do cinema transformou e esclareceu seu pensamento (digo com o sentimento de dono do filme uma vez que colaborei com o crowfunding).
    Quando estávamos neste processo de descobrimento da verdade e revolta, ficamos meio atordoados e perdidos com a falta de alternativa para quem tem vontade de parir normalmente. Daí descobrimos aqui em São Paulo um centro de parto humanizado – a Casa Ângela, a qual tenho obrigação de divulgar a todos que procuram um lugar onde o respeito e o amor imperam neste momento tão lindo. Afinal de contas, ter um parto em casa é sonho para quem mora em apartamento e não quer ter o SAMU chamado pelos vizinhos.
    Abraços e novamente parabéns pela sua sensibilidade.

    • Oi Rodrigo!
      Que alegria!
      Eu confesso que o conhecimento sobre o assunto me deixa muito mais tranquila quanto ao que vem por aí. E me indigno e me impressiono cada vez mais com as informações que nos são tiradas pelo simples motivo de que gente sem conhecimento é mais fácil de se lidar. Não é verdade?
      Agradeço muito ao elogio! E continuemos lutando pela diferença de ser e não apenas existir para ter…
      Abraço (Marília Gabriela Viana)

  9. Absolutamente perfeito! Ainda não consegui assistir ao filme, embora esteja grávida e acompanhada de uma das melhores equipes de Parto Humanizado de SP.
    Este texto é simplesmente perfeito, sem palavras para definir! ❤
    Bjs
    carol
    http://www.meuparasita.com

  10. Pingback: Corte seu cordão com o sistema: Quando o choro da mãe se confunde com o do bebê

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