CRÔNICA: O tudo junto e misturado da espiritualidade da Nair (texto colaborativo)

Quando uma pessoa morre, vira santo. Todo mundo lembra-se apenas das generosidades, dos momentos de altruísmo, das benfeitorias… Pois bem, minha avó Nair é uma exceção.  Quem a conheceu com certeza lembra-se do seu riso fácil, da sua alegria e da sua hospitalidade.  No entanto, sem adotar uma visão sincrética e dualista de que o mundo se divide entre bem e mau, acredito que minha avó não gostaria de ser lembrada apenas pelas virtudes. E nem pode. Os seus defeitos eram suas maiores características.  Era meticulosa, dissimulada e um pouco manipuladora. Armas que utilizava com todo o seu ardil para convencê-lo de que seu ponto de vista era o único. Por essa e por outras, minha avó não era somente boa. Paradoxalmente, cunhava que a matéria é intrinsecamente má e que o espírito era intrinsecamente bom.  Mais maniqueísta impossível. Essa filosofia religiosa divide o mundo simplesmente entre bom ou mau. Na Babilônia e na Pérsia do século III surgiu essa vertente, onde seu fundador, o profeta persa Mani, uniu elementos do Hinduísmo, Budismo, Judaísmo e do Cristianismo e acreditava que através de uma revelação divina ia superar as mensagens peculiares de cada religião e desenvolver uma verdade completa. Minha avó era boa e ruim. Pensava que existia o bom e o mau.  O certo e o errado. Em alguns momentos raros de delírio aceitava o meio termo. Às vezes, em meio a alguns surtos de sincretismo religioso surgia uma sabedoria transcendental extraordinária.

Dizia que a pessoa que vem é sempre a pessoa certa. Eu ainda sinto o gosto das lágrimas da minha primeira desilusão amorosa.  Estava de férias na casa da Nair. E minha avó soltou essa máxima com a voz calma de quem tinha estado no inferno dos corações esmigalhados e partidos e voltado para pregar a salvação. Disse: “Filha, ninguém entra em nossas vidas por acaso. Todas as pessoas que conhecemos têm algo para nos ensinar. Serve para o menino da escola, para seu colega de turma, aquele amigo que você perdeu o contato e até o porteiro que foi gentil ao abrir a porta. As pessoas permanecem na sua vida pelo tempo que é destinado. Nunca pense ‘Que pena que acabou’. Pense que aconteceu à única coisa que poderia ter acontecido”.

Ou seja, nada, nada do que ocorre em nossas vidas podia ter se passado de maneira diferente: era para que aprendêssemos uma lição e seguíssemos em frente. Minha avó acreditava nisso instintivamente. Porque esse é um pensamento com raízes budista. Diz que a vida é feita de inúmeras escolhas e toda vez que você tomar uma decisão, será o momento perfeito.

Em outras ocasiões, ela falava árabe. “Maktub”. Tudo só começa na hora certa, nem antes, nem depois. Somente quando estivermos prontos para ir para a próxima etapa é que iremos. Então apesar dos livres arbítrios, sempre somos guiados ao lugar que nos foi destinado. Maktub. Era para acontecer. Estava escrito nas estrelas. Ou então adotava um viés kardicista e lembrava que se algo acabou em nossas vidas era para nossa evolução.  Pratique o desapego. Deixe ir e siga em frente fortalecido pela experiência. Em seguida, os ensinamentos retornavam ao cristianismo, religião que era fervorosamente defendida, e culminavam no famoso Sermão da Montanha. “Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: O dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu mal”. Viva o presente.

Agora, em setembro, faz oito anos que a minha avó me deixou. Eu imagino-a chegando ao céu e descobrindo que os ensinamentos que difundia eram um samba do criolo doido tudo junto e misturado e que todos tinham sua razão. A convivência com ela desenvolveu dentro de mim o profeta Mani em sua mais pura essência: Só que eu ainda estou aguardando pela revelação divina que acredito que me foi reservada. Espero que sim. E espero pacientemente. Enquanto não chega: Obrigada Nair.

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