PERFIL: Da bobina ao giz

Eram quatro e meia da manhã de um sábado quando colocamos as compras na esteira do caixa. Nos corredores, funcionários limpavam as prateleiras, organizavam os produtos e dedetizavam o local. “Se quiserem pegar frutas e verduras, aproveitem agora que o moço ainda não veio com o veneno”, disse um senhor simpático.

Uma mulher que aparentava ter 30 anos pegava os produtos do carrinho e ia registrando um por um no computador. Luzia era o nome dela. O rosto cansado e as olheiras denunciavam que não dormia bem há dias.

Quando o céu começa a clarear, a caixa do supermercado Extra da Avenida Abolição de Campinas, troca o computador e a gaveta de dinheiro por livros e um quadro negro. A vaga como professora eventual em uma escola estadual no Parque Santa Bárbara, em Campinas, não foi o suficiente para pagar as contas.

Há quatro meses a moça morena de cabelos enrolados saiu do interior do Maranhão. O marido, de 62 anos, morrera de cirrose hepática, deixando para trás Luzia e o mercadinho que o casal tocava na pequena cidade. “Tive que sair de lá para conseguir seguir minha vida”, conta enquanto registra um produto.

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No nordeste, ela já batia o ponto em uma escola estadual e com a ajuda do comércio que tinha com o marido, conseguia ter uma boa qualidade de vida. Em Campinas, achou que pudesse encontrar a paz que precisava, mas o salário de um pouco mais de dez reais a hora para lecionar inglês e português no Ensino Fundamental não bastava.

Luzia é apenas uma das 49 mil pessoas que recebem esse salário como professor temporário da rede estadual de ensino. O número ainda não é suficiente para atender todas as salas. Apenas no estado de São Paulo, 4,8 mil turmas ficaram sem aula de alguma disciplina no primeiro semestre de 2013. Faltam professores em quatro de cada cinco escolas. O déficit de docentes efetivos que vem persistindo nos três mandatos do governador Geraldo Alckmin, do PSDB, já chegou nos 49.085. Os números foram divulgados pela Coordenadoria de Gestão de Recursos Humanos da Secretaria de Educação.

E foi justamente para tampar esse buraco que Luzia e os tantos outros profissionais foram registrados por salários tão baixos. Com essas contratações, o número de docentes temporários aumentou 69% desde maio de 2012. Apesar desse crescimento, 833 turmas ainda estão sem professores de matemática, 767 não contam com aulas de geografia e 767 estão sem aprender sociologia.

Uma matéria no site do jornal O Estado de São Paulo mostra que os responsáveis por esse déficit seriam os cerca de 22 mil professores em licença médica – a média de faltas por licença-saúde foi de 21 dias para cada profissional em 2012-, a dificuldade em manter os docentes nos bairros mais carentes e violentos da região metropolitana (já ouço vozes de alguns médicos: “Tá vendo? Traz agora professores cubanos!”) e enfim, a falta de professores com licenciatura em ciências exatas que, segundo autoridades educacionais, preferem trabalhar na iniciativa privada recebendo um salário maior que o do magistério público.

Luzia não se encaixa em nenhum desses perfis. Ela pretende prestar a próxima prova para que, concluindo uma jornada de 40 horas semanais, possa contar com um salário-base de R$ 2.257,84. Valor já reajustado em 8,1% em julho deste ano após 19 dias de protestos pedindo entre outras reivindicações, o aumento salarial.

Débito ou crédito? Débito…

Pode inserir o cartão.

Faltava pouco tempo para o sol nascer e Luzia continuava empacotando as mercadorias do próximo cliente. Às sete horas da manhã continuaria a jornada na escola estadual. Entre um trabalho e outro não há tempo para dormir. As quatro horas de sono diárias têm sido suficientes para recarregar as energias. Pelo menos por enquanto…

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Uma resposta para “PERFIL: Da bobina ao giz

  1. Elisandra Camilo

    Realmente a Luzia é muito batalhadora, e o faz porque é realmente necessário.
    E por que essa mulher tem que se submeter a tanto desgaste físico e mental? Isso ocorre devido a falta de valorização de uma profissão que deveria ser muito bem reconhecida por nossos governantes.
    Já não está dando mais para suportar tamanho descaso destinado aos e as profissionais da Educação desse imenso país.
    Parabéns Bendita Versão por divulgar tal problema que atinge muita gente, temos que resgatar a importância que uma professora ou um professor tem. Assim quem sabe avançamos em qualidade social, econômica e acima de tudo política.

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