PERFIL: Saudade tem nome, rosto e cheiro

Lembro-me daquele leite fervendo com Nescau levado na cama. Ou então quando ele trazia pra casa frango a passarinho e passávamos horas reunidos na cozinha soltando palavras. Mas tem também as lembranças de um dia de desfile de cavaleiros, dos torneiros leiteiros no qual suas vacas eram quase sempre consagradas campeãs. Idas à praia, idas à escola e conselhos ao pé do ouvido. Lembro-me também, ainda com mais aperto no peito, do sorriso, das paiaçadas, dos planos pensados para uma família de cinco.

Mas hoje nos compomos em quatro. Sou eu, Paty, Bael e tia Martinha. Amparados por um Maracanã recheado de tias, poucos tios, avô, avó e amigos que só fizeram fortalecer em nós a certeza de que tudo foi meticulosamente planejado por mãos superiores que nem os mais consagrados filósofos conseguem unificar.

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Um grande homem. Tarcílio Siqueira Viana, esposo de Marta Helena da Silva Viana e pai de três sempre crianças Gabriel, Marília Gabriela e a caçula Patrícia Helena. O local era a Chácara São Camilo entre altos pés de Eucaliptos e entranhas bem boladas de bambu.

E era nestas entranhas que, com a ajuda do pai, o filho mais velho construiu sua primeira grande obra: uma casinha nos bambus. Era tudo de verdade. Chão de madeira, a caçula levava alguns rejeitados toalhados para enfeitar o ambiente que se tornava acolhedor para quem conseguia subir com a ajuda de uma corda e se encantar com a propriedade das crianças. Tinha até sala!

Mas ele levantava cedo. Antes das seis da manhã meu pai já estava coando o café para rumar-se rumo a algum afazer na roça. Em um dos cafés da manhã, ainda dormíamos quando escutamos alguns quase gritos e pudemos identificar que alguém estava passando muito mal no banheiro. Era ele, nosso pai, certamente ainda sonâmbulo perto as poucas horas indicadas no relógio, colocou o café na xícara sem olhar para seu fundo antes. Isso não se faz na roça, seu Tarcílio! Bichinhos são tão comuns entre nós que os mosquitos chegam a fazer parte dos almoços, as rãs habitam no vaso do banheiro, os sapos pulam entre as camas e até as cobras fazem morada nos pés das cadeiras. E olha que isso não é papo de pescador! Pois no fundo da xícara de seu Tarcílio, havia era um piolho de cobra. O que esse pai sofreu com isso, por horas e mais horas trancafiado no único banheiro da casa!

E aí, meio às lembranças mais engraçadas fazem fugir, mesmo que momentaneamente, a saudade que aperta constantemente nossos tum tum, tum tum.

Posso concordar que criança enxerga um mundo mágico. Mas posso afirmar que essa magia é nitidamente passada de pai para filhos. Que essa magia e vontade de ver um mundo diferente está é dentro daquele que nos educa primeiro.

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E éramos muito educadinhos. Um belo dia de domingo, a família de cinco estava amontoada no quarto da minha mãe. O pai sempre dormia. Em qualquer ocasião – e os amigos dele não me deixam mentir –, ele conseguia tirar um cochilo seguido de roncos um tanto quanto profundos. E neste domingo ele estava com a boca aberta, roncando e descansando para a segunda-feira. Então aproveitamos o momento, não poderia ser diferente!

Batons, sombras, lápis e até máscara para os lindos cílios. Eis que fizemos uma bela maquiagem em nosso pai e ele lá, dormindo em berço esplêndido! E mais uma comprovação de que ele acordava cedo, mas ainda não estava bem acordado foi que ele apareceu na cooperativa de Muzambinho para trabalhar e cheio de maquiagem no rosto.

Engraçado! Chego a lembrar nitidamente o pequeno discurso seguido de muitos risos de todos com ele tentando ficar bravo com os três filhos. Mas não adiantava, ele não conseguia!

Aí me fala uma coisa: como é que não se sente saudade? Como é que o peito não aperta?

Por falar em apertar… nosso pai era um faz tudo. Ajudava com o coração aberto todos e com o que as pessoas precisassem. Era fiel, era amigo e companheiro. Tinha o grandioso hábito de não falar não a ninguém. E isso o fazia sentir algumas dores estomacais no fim do dia. Mas ele tinha o poder de esquecimento, de passar por cima daquilo que de fato não fosse acrescentar à sua vida. E que vida bem vivida!

Tarcílio foi administrador de aras, foi veterinário, foi criador de porcos, foi o primeiro a levar muitos conhecimentos à sua pequena e tão querida cidade natal no sul de Minas Gerais. Ele foi mecânico também!

Para quem não sabia dessa habilidade do nosso pai, ele foi sim um bom mecânico. Afinal de contas, alguém tinha que dar um jeito nos carros da família. Então lá ele ficava horas e horas embaixo de um carro arrumando daqui, desmontando dali, encaixando aqui e eis que o motor resolvia dar sinal de vida. Em uma das ocasiões, o que erguia o carro era um macaco creio que meio improvisado, talvez um macaco aposentado. A caçula brincava no jardim da frente a casa e a “oficina” era na garagem, tudo junto. Então fez-se um barulho e o carro caiu. Só estava a Paty e o nosso pai. Quem poderia socorrê-lo ou pelo menos gritar por socorro era a caçula, que nada fez. O pai então tentava falar pra filha pedir ajuda e ela não entendia. Paty sempre foi um pouco lerdinha, agora que está melhorando! Mas enfim, com muito custo ela entendeu que aquilo era sério e que o pai precisava mesmo de ajuda. Então foi até a cozinha e sorrindo disse à mãe, que não acreditou. Nosso pai fazia tanta paiaçada que ninguém acreditava!

Vez ou outra nosso meio de transporte era uma moto. E, acreditem, a motoca levava os cinco integrantes da família Viana da roça para a cidade todos os dias. Tudo bem que nos morros mais íngremes, a mãe e o filho mais velho desciam para a moto poder subir. Aventuras!

Foi então que crescemos. Quando chegou a hora de partimos de Muzambinho rumo às respectivas faculdades foi um parto. Gabriel sempre mais apegado ao nosso pai, era nítido sua necessidade em tê-lo por perto e tirar dele todo ensinamento possível. Gabriel admirava Tarcílio. E Tarcílio fazia questão de ensinar tudo a Gabriel.

A distância quilométrica fez só fortalecer a amizade e a necessidade que tínhamos de estar com ele, de estarmos em família.

Todos os dias dos pais era uma festa! Invertíamos os papéis e nós que levantávamos as seis da matina para preparar o café e servir na cama. Era uma festa.

E então a correia da vida, as dívidas, o estresse e a falta de tempo para com ele mesmo fez com que ele se visse de frente para uma enfermidade dolorida. Dias, meses, anos que nos escancaram quem era nosso pai. Sua fortaleza perante esses momentos, quimioterapias, transplantes de medula óssea e dias a fio num quarto de hospital. Nada reduziu a ilusão a pó!

Ele era tão cheio de vida que alguém em algum lugar sabia que quem daria conta de tão profunda transformação tanto pessoal como espiritual, era ele. E nós ganhamos. Vencemos a luta da barreira transparente chamada morte, ou vida eterna. E lutamos dia a dia com a dor profunda chamada saudade.

Neste Dia dos Pais, sem dúvida alguma, nos reunimos em pensamentos para agradecer por termos tido a honra de conviver com um guerreiro. Que, mesmo após a partida, há quase seis anos, vive mais ainda dentro de nós. Fortalecendo qualquer certeza de que nada é eterno, mas que a eternidade está em nós e em fazermos dela uma preciosa recordação de como é viver em comunhão com o amor.

amore mio

 

 

 

 

 

 

 

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2 Respostas para “PERFIL: Saudade tem nome, rosto e cheiro

  1. Ana Martins

    Marília confesso que tive que parar umas duas ou três para enxugar as lagrimas ,quem conviveu com seu pai sabe que foi tudo assim mesmo ! Acho que estas histórias são lindas e bem parecidas com a minha vida . Quem teve o prazer de ter um grande Pai sabe o que é isso ! Beijão!

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