PERFIL: Filha de painho

As portas se abrem e no centro da minha visão painho está sentado em uma cadeira de rodas. Saio do ambiente e me escoro na parede. Choro copiosamente. Aquele homenzarrão parecia indefeso. Enxugo as lágrimas e volto ao corredor. O exame havia dado certo e a recuperação indo bem. Mas o susto havia sido grande. Um infarte depois de 95% da veia aorta entupida não é para qualquer um. Resultado de anos de excessos de quem vive todos os dias como se fossem o último.

martinha e painho

Essa foi a primeira vez que tive medo de perder meu pai. Na época eu tinha 12 anos e ainda pensava que ele viveria para sempre.

Pego a mala na esteira e saio da sala de desembarque do Aeroporto Internacional de Natal. Procuro painho entre as dezenas de rostos desconhecidos. Reconheço os cabelos brancos e o bigodão. Ando rápido na direção dele. Dou um abraço apertado. Como é bom estar mais uma vez com aquele que sempre chamo de “amor da minha vida”.

Ele me pergunta como foi a viagem durante o percurso até o carro. No veículo, implico com o cigarro e o cinto de segurança. Já com 26 anos, sei que ele não será eterno e quero aproveitar todos os momentos ao lado dele.

Jorge Romano Filho é auditor fiscal aposentado. Foi casado três vezes e tem seis filhos. Atualmente exibe uma silhueta corpulenta ao longo dos seus 1,84 m de altura. A voz grossa e alta é usada comumente para falar palavrões e contar histórias engraçadas. A risada sincera se espalha pelo ambiente depois de cada piada.

Aprecia um whisky misturado com água tônica. O cigarro sempre presente. É explosivo e temperamental, características que escondem o coração enorme.

A cozinha é o lugar preferido da casa. Gosta de ficar fumando um cigarro enquanto orienta Maria, a mulher que trabalha para ele há pelo menos 15 anos. Entre uma brincadeira e outra atente o celular. Aos 72 anos, ele sabe cultivar amizades.

Acordo e desejo feliz dia dos pais. “Amo você painho”, digo sem cerimônias. “Não há ninguém que eu ame mais que você”, ele complementa. Sento na cadeira em frente a ele e conversamos.

Quantos porres já foram tomados naquela cozinha. Aliás, um dos prazeres da minha vida é beber minha cervejinha com ele e falar sobre a vida. Ele, claro, no whisky. Planos, sonhos, projetos, recordações. O som alto sempre toca sambas ou canções românticas. Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Bezerra da Silva, Tom Jobim e por aí vai.

Conta o contexto das músicas e como elas foram compostas. Sempre se emociona quando toca “Luar do Sertão”, que o faz lembrar o pai dele. Vez ou outra repete a história de quando apertou a mão de Orlando Silva. O caso com Elke Maravilha também foi lembrado da última vez que estive em Natal.

Tantas histórias de quem já foi de caminhoneiro a goleiro do ABC. “Você quase nasceu na carroceria de um caminhão”, lembra sempre.

Quando estou em Campinas nos falamos quase todos os dias. Se em algum deles eu deixo de ligar já solta um: “Você ainda tem pai?”. Mas saio da situação ao responder: “Tenho e é o melhor do mundo.” Ele já se abre todo, principalmente, porque não falo da boca para fora. E no final da ligação não pode faltar: “A benção painho.” “ Deus te abençoe”, ele responde. Não há amor maior do que o que sentimos um pelo o outro.

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