PERFIL: Militar, fluminense, conselheiro e humorista

Barulho de palmas em frente de casa. Era hora de brincar.

Corríamos, pedalávamos, subíamos em árvores, jogávamos pega-pega, pique alto, pique bandeira, queimada, amarelinha, pique esconde….

No clube, o parquinho tinha sabor de picolé e Fanta Laranja. Fazia aula de natação, jazz e até lambada.

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Era começo da década de 90. A tranquilidade de viver na vila da Aeronáutica permitia brincar sem limites e longe de nossos pais. Brincadeiras que me fizeram parar três vezes no hospital em apenas três meses: levei ponto no lábio, no queixo e no dedão do pé. Era terrível.

Já tivemos cachorro, gato, peixe, periquito… E cada fim de semana que subíamos para Teresópolis, queria comprar um coelho diferente. A venda dos animais ficava próxima ao meu ponto predileto: uma lanchonete onde parávamos para comer pastel e tomar iogurte… a alegria era certa quando chegava a bebida rosa num copinho.

Lembro-me bem do campeonato de queimada. Minha irmã jogando e eu sentada assistindo atenta enquanto o “técnico” rabiscava uma folha de papel mostrando para o time de meninas de 7 anos a melhor jogada: “Fiquem passando a bola sempre entre vocês até o adversário cansar. É aí que vocês jogam a bola para tentar ‘queimar’ alguém do outro time”. Técnico ou não, meu pai era especialista no assunto.

Magro, por volta de um metro e oitenta centímetros, cabelos pretos e um bigode fofinho. Em 94, ano da Copa do Mundo, havia um slogan “Faça o 94 diferente”. E foi com essa frase que vi pela primeira vez meu pai sem bigode. Foi estranho. E aqueles pelos nunca mais voltaram.

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Nos jogos do Brasil, pintávamos o rosto com tinta verde e amarela e nos reuníamos na copa com pompons das mesmas cores. Era um grande evento. Desenhos e bandeiras deixavam as ruas da vila coloridas. E no dia de São Cosme e Damião disputávamos para ver quem enchia mais mochilas com doces. Batíamos de casa em casa pedindo balas, pés de moleque e maria mole. Não comia nem um terço, mas a sensação de ter conseguido tudo aquilo era a melhor do mundo.

Naquela época tínhamos um sítio com piscina e casinha de boneca. Adorávamos nos encontrar com nossos primos e passar um fim de semana naquele lugar que também recebeu minhas festas de aniversário por vários anos. Íamos para lá de carro e no caminho, disputávamos para ver quem “dirigiria” nos últimos quarteirões da rua de terra. Era minha vez. Sentava no colo do meu pai e meus pezinhos ainda ficavam longe do chão. Ele acelerava e o carro andava a 10 km por hora. As duas mãos no volante vinham sempre acompanhadas de um longo sorriso de satisfação no rosto. E as mãos dele, escondidas, segurando o volante por baixo.

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Cada minuto ao lado dele era intensamente aproveitado, já que viajava até aos fins de semana e passava dias fora. O bom disso tudo é que sempre voltava com presentes.

– Para que time você torce?

– Fluminense!

– Ahhh tá.. agora sim vou trazer uma boneca para você.

Foi por livre e espontânea pressão que virei Fluminense, e apesar de não ser uma boa torcedora, até hoje trocamos mensagens quando o tricolor carioca ganha um jogo.

Ele tem as piores piadas do mundo, mas sempre será meu humorista favorito. Lembro-me que um dia saímos do elevador e havia umas cinco pessoas aguardando para entrar. Meu pai olhou para trás falando que o “bicho não parava de tremer e que parecia que ia cair a qualquer momento”, só para nos fazer rir vendo a reação daquela família. Outro dia estávamos parados na fila de carros para entrar no shopping. A outra andava que era uma beleza, mas a nossa não saía do lugar. Ele puxou o freio de mão, saiu, fez sinal para os carros da faixa ao lado pararem e com a outra mão acenou para os veículos da nossa fila começarem a andar e depois voltou rindo. Conseguimos enfim entrar para estacionar. Com seu jeito “delicado” já chegou até a dar um susto em uma vendedora, fazendo todas as caixas de sapato caírem só para fazê-la parar de soluçar. Ressalto aqui que o truque deu certo e ela agradeceu depois, claro, de se recompor. Foram muitos os momentos que me fizeram rir!

Mas ele já me fez passar vergonha também… como a vez que entramos em um elevador de vidro e me disse que ninguém nos veria do lado de fora. Dancei, fiz careta, pulei… e quando sai, percebi que conseguia enxergar até os números dos botões.

Não demorou para o meu pai começar a trabalhar em São Paulo. E nós, que ainda morávamos no Rio de Janeiro, tivemos que nos mudar para Campinas, onde o “R” caipira contrastava com o meu arrastado. A cidade carioca passou a ser nosso destino predileto. Quase todos os meses íamos para lá. E não existia atravessar a fronteira dos estados sem bagunçar o cabelo da minha mãe gritando “eeeeeee” junto com meu pai. “Cheguemos, não batemos então comemoremos!”, era a frase que marcava o fim de cada viagem.

Ninguém tem uma fórmula tão quadrada para tomar whisky: copo redondo e baixo, quatro pedras de gelo, de preferência de água de côco, e dois dedinhos da bebida. Se não fosse assim, não estava bom. E depois do primeiro e único copo da noite, não só o rosto, mas a careca e o pescoço já ficam vermelhos, características que deduram que seo Maruoka ingeriu álcool e que esta é a hora certa de pedir alguma coisa para ele.

As regras que tinha que seguir a risca acompanharam-me por muitos anos, como na época em que minhas amigas podiam voltar da balada às seis horas da manhã enquanto eu tinha que estar em casa antes da madrugada.

– Pai, me deixa voltar mais tarde!

– Você ainda não tem idade para isso. Vai voltar meia noite.

– Uma hora da manhã pelo menos?

– Onze e meia.

– Tá bom, meia noite…

– Onze!

E “ai” se reclamasse. Sempre saía perdendo!

Se a noite era assim, de manhã, os traços militares também o acompanhavam:

– “Acorda recruta, seu filho da mãe…. A, B,C, arrego para vocêêê….” Vamos acordar filha!

Podia ficar longe por muitos dias, mas nunca esteve ausente. E quando chegava de viagem, tínhamos que parar de brincar para correr e dar um abraço. Ele sentia essa falta… e sente até hoje. Falta de chegar em casa e me ter de braços abertos o aguardando, enchê-lo de beijos, me ouvir falar que senti saudades…

Por anos trabalhou em São Paulo e voltava apenas para dormir em casa, pela simples recompensa de nos dar um beijo e uma boa noite. Cuidado esse que não sumiu com o passar do tempo. Se preocupa com os filhos até hoje, mas parece tentar esconder. Ouço a TV ligada até ele ouvir o barulho do alarme. “Ela chegou.” E então desliga e vai dormir.

Em 2002 um choque. Recebi a notícia de que ele, meu herói, estaria com um tumor no rim. Chorei trancada no banheiro, tive medo. Meu avô já havia morrido de câncer e eu não queria perder meu pai. Horas no hospital, cirurgia bem sucedida e um rim foi retirado. Alívio. Os pontos ainda na barriga e ele não parava de contar piada e fazer brincadeiras com as enfermeiras. Ele estava de volta.

Um ano depois estaria sentado na cozinha me dando conselho. Estava saindo com um menino que mais tarde se tornaria meu primeiro namorado. Resolvi chamá-lo para terminar porque não queria me envolver mais do que já havia me envolvido. Tinha medo. E meu pai sabia.

– Por que ele foi embora?

– Não queria mais.

– Não gosta mais dele?

– Gosto… mas não queria mais.

Era a primeira conversa que tinha com o meu pai sobre “meninos”.

– Filha, existem dois tipos de pessoas no mundo: as que tem medo de arriscar, de sofrer, e que por isso vivem uma vida mais tranquila, e consequentemente sem muitas aventuras e sofrimentos. E existem aquelas que se arriscam, vivem mais, fazem o que tem vontade de fazer, mas também sofrem bem mais. Qual delas você quer ser?

Essa conversa mudaria minhas futuras escolhas para sempre.

Muitas outras vezes ele me chamara para sentar no sofá da sala querendo me ouvir. Me pediu para contar meu dia, perguntou como estava meu trabalho. E na maioria das vezes não tive paciência para contar. Também perdi as contas das vezes que ele veio com conselhos e eu não quis ouvir.

Batemos muito de frente, talvez por sermos parecidos. Agimos muitas vezes da mesma forma, somos cabeça dura, desastrados e teimosos. Mas sei que um dia sentirei falta dele e tenho medo que esse dia chegue. Medo do arrependimento que virá quando não o tiver mais (logo ele) me esperando chegar em casa, me dando os puxões de orelha e me ensinando.

Há uma semana não o tenho na mesa do jantar, me pedindo um beijo de boa noite e me chamando para conversar. A filha caçula saiu para morar com o noivo. E saiu sem agradecer por todos esses momentos que teve o privilégio de viver ao seu lado. Foi embora sem falar um “te amo” e tenta aqui, por meio de um texto no blog fazer um pedido de desculpas, mostrar para ele o quão importante é e como não consegue se ver longe do homem que mais amou até hoje. É… ainda tem muito a aprender.

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9 Respostas para “PERFIL: Militar, fluminense, conselheiro e humorista

  1. Luis felipe

    Sem palavras………aí mostra que és uma ótima jornalista, parabéns bjs

  2. Priscila Maruoka

    Orgulho da minha, irmã, orgulho do meu pai, orgulho dessa familia!!
    Lindo texto Thais!! Me fez chorar mais uma vez… 😉

  3. jeferson

    Caramba Cunha, que lindo texto, me deixou emocionao, grande Sr. Robson, espero ansiosamente por varios dias dos pais e consequentemente por outros textos espetaculares
    !!!!

  4. Maria Margarida Cardoso

    Vindo da Thaís não me surpreende.Linda, inteligente, humilde de grande sensibilidade. Sou sua fã incondicional. Parabéns pelo texto e parabéns a seu pai. bjus minha ídola. rsrsrs

  5. Priscila, Felipe e Margô, vocês conhecem seo Maruoka e sabem muito bem a pessoa maravilhosa que é… não há texto algum que consiga descrevê-lo detalhadamente…

    E Jé, ainda terá muitos Dias dos Pais para curtir com a pimpolha…. tenho certeza que será um grande pai e trará muito orgulho a essa pequena!!

  6. Robson Maruoka

    Minha Querida Filha!

    Ontem recebi sua mensagem com muita emoção e após me recuperar escrevi algumas linhas de agradecimento e TENTEI POSTAR no seu blog, mas acredito ter feito alguma manobra errada e não saiu no Facebook. Apesar de já ter agradecido por telefone eu não podia deixar de escrever novamente. Sei que no momento de emoção as palavras fluem automaticamente, mas farei um esforço para me aproximar ao máximo daquele momento ímpar que você me proporcionou.

    ” Acordamos às 11:00 horas, coisa rara para sua mãe, mas tivemos uma baladinha na noite anterior e fomos dormir depois das 02:30 horas. Após o café da manhã me sentei na sala para ler no meu iPad os últimos e-mails e um pouco da Veja digital que comprei recentemente. Ao começar a ler os e-mails um deles me remeteu a sua mensagem que comecei a ler imediatamente. Já nas primeiras linhas não consegui me conter e as lágrimas vieram sem timidez. Como na sala se encontravam a Tia Ana e a Vovó Hylda jogando um baralhinho, resolvi sair e ficar na varanda. Ali, sozinho, li partilhadamente a sua mensagem, pois por várias vezes tive que parar por não conseguir ler pelas lágrimas que corriam.
    Minha Querida Filha! Você conseguiu realizar uma viagem por nossa vida trazendo detalhes já esquecidos a muito tempo. Conseguiu fazer com que eu vivesse momentos maravilhosos de lembranças ricas em detalhes e conseguiu fazer com que este Dia dos Pais se tornasse um dos mais bonitos e significativos da minha vida. Senti falta dos comentários do freezer deitado cheio de picolés que foi prometido para a vinda de vocês para Campinas, rsrsrsrs, mas tenho certeza que a decisão da mudança do Rio para Campinas foi muito importante para a continuidade da criação e formação de vocês sem as dificuldades e os perigos doRio.
    Você é muito parecida comigo, sofre ou vive momentos maravilhosos na sua intimidade, mas como você disse eu também preciso MUITO do abraço, do beijo e do carinho de vocês.
    Obrigado Filha por este presente e por este momento.
    Amo vocês!!!!
    Beijos,

    Papai

    PS: Parabéns Filha, você está escrevendo de uma forma que consegue fazer com que o leitor faça uma viagem através de lugares, tempos e momentos que você deseja. Digo isso por esta e por outras que já li. Beijos

  7. Mauro Rocha

    Super Táta. Te amar é tão fácil, vc é tão doce. Agora escorrendo o mel pelos dedos e digitando assim, faz sim nossas emoções aflorarem. Durante muitos domingos estive por ali com vcs e a camisa do Fluzao com o MARUOKA 72 era a pele do véio. provavelmente ontem este manto estivesse ali secando algumas das lágrimas. Aqui no Rio, com calor e sem camisa tive que buscar “lencinho pra secar as minhas quando li a tua. Pô, depois fui buscar outro lencinho pra secar as que insistiam em cair lendo as dele.
    Vocês sempre serão exemplo em tudo. E o melhor de tudo…… só dão exemplos bons. Beijos do tio. 😛

  8. ana cristina façanha

    Foi impossível ler sem chorar….eu e Claudia revezávamos porque cada momento uma embargava a voz e as lágrimas desciam, aí a outra continuava lendo, parava e dava um tempinho para nos refazermos…Parabéns aos dois, porque foi ele quem te inspirou a fazer um texto tão lindo!! SOU SUA FÃ !!!

  9. Poliana Rodrigues

    Lindo Tha….meus olhos encheram de lágrimas! Parabéns pelo paizão! Já admiro e gosto dele, antes mesmo de conhecê-lo! rsrsrs beijos

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