MINI CONTO: Roda gigante

1947ef7edbb5014331f4b706a4eb9e32

Contos para contar que fui cantada por aquele rapaz que os sonhos nem imaginavam em sonhar. De tão único a sua persuasão. Que me fez cantarolar dias a fim, dias a nado, dias a rede… Dias que nem me lembro mais do dia que nos conhecemos. Quanta ironia. Quanta alegria. Quanto nostalgia em um copo de água pedido pro garçom que insistiu em trazer foi uma taça de vinho. E veio o vinho. E fez a cabeça. E então o vi lá e ele me viu cá. Foi assim, simples e esperado pelos corações que saltitavam em ritmos frenéticos de sambas cantarolados por Cartola na sua gostosa adolescência traumatizada. E eu não! Prefiro ficar com o dito que deixei de dizer… mas cá, cá dentro, cá comigo, tenho ele na sua pureza de compositor que não é. Ele é o amante. Amante à moda antiga que ainda faz o favor de não fazer favores, fazer amor. Insiste em pensar grande dentro da sua pequenina vida provinciana. Eu também vivo numa província que pensa que sabe pensar como metrópole. Mas política à parte. Ele não senta antes que meu bumbum esteja acomodado como deveras. Ele não anda, se preocupa com meu andar. Ele não muda a canção por não curtir a vozinha estranha de Cazuza por saber que meu gozo profundo vem daquelas desafinações sem medos e angustiadas. Ele sabe que aquele vinil antigo que insisto em manter na prateleira da estante improvisada é relíquia para minhas mãos que só fazem o pegar vez ou outra para limpar o pó. Ainda não tenho uma vitrola. Mas ele canta aqui e eu o deixo guardadinho, como o velho vinil empoeirado. O deixo e queixo. Rebelde sem causa, mas causando a rebeldia. Isso era o que importava em uma tal década de 80 que nasci. E cresci fora dela… Então ele mata minha sede, planta meu alface, cuida da minha jabuticabeira. Ele veste azul, usa Ray Ban e uns tenisinhos capazes de me fazer brilhar o olhar. Me enfeitiça com as bolotas verdes meio azuis que tem no meio do nariz. Olhos profundos que olham paixão. É ele que me atira do alto da montanha para realizar a loucura mais sensata da minha infância até hoje: andar de roda gigante. Lá do alto toco o céu colorido à minha vista, faço jus às meias coloridas e transpareço a inocência de ser quem sou. Nessas grandes virtudes afrontadas pelos meus quereres, estamos cá em instantes que sempre se eternizam em segundos. Segundos seguidos de pura adrenalina calorosa. Mais que sonhar com o voo contínuo desta sintonia querida, fico cá dando graças aos possíveis existentes fenômenos que já passaram por aqui. E a todos àqueles que ainda passarão na santidade nada transparente do ser humano. Humanizando meus sentidos, desnudando meu peito, salientando todo meu generoso processo de processar a verdadeira companhia de alguém. Estar bem.

 

assinaturas

Anúncios

O que você pensa sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

agenda

agosto 2013
D S T Q Q S S
« jul   set »
 123
45678910
11121314151617
18192021222324
25262728293031

Blogs que seguimos

Cia Fios de Sombra

Teatro de Animação

Dully Pepper24H

Arte pelo Amor, Arte pelo Mundo, Arte pela Paz!

CorpoInConsciência

consciência corporal corpo inconsciência integração equilíbrio resistência alongamento respiração alimentação consciência

Educação Política

mídia, economia e cultura - por Glauco Cortez

%d blogueiros gostam disto: