PERFIL: Jeff, o caipira americano

Sentado na calçada, Jeff observa as pessoas passarem. Alguns de bicicleta, outros a pé. Na frente, centenas de carros trafegam por uma das principais avenidas de Honolulu, a Kalakaua Avenue, que tem de um lado as cores azuis do mar do pacífico, e de outro, comércios frequentados em sua maioria por turistas.

Quem passa pela Kalakaua, tem a oportunidade de presenciar no Waikiki, a maior parte dos hotéis e resorts de todo o Havaí, que se tornou o 50º estado americano no dia 21 de agosto de 1959. Como fica no sul da Ilha de Oahu, é comum encontrar ondas que não passam de um metro de altura, razão pela qual na areia se encontram dezenas de barracas com cartazes divulgando aulas de surfe. As mais variadas categorias do esporte são praticadas por mulheres, homens, crianças, idosos e até mesmo cachorros que ficam deitados na parte da frente da prancha enquanto os donos remam em direção à onda.

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Poucos quilômetros a frente, o “Honolulu Zoo Society”, que abriga 905 animais diferentes. O zoológico fica praticamente na divisa de Waikiki com Kaimana, a praia predileta dos brasileiros que aproveitam para fazer churrascos na areia aos fins de semana.

Ao longo de toda a Kalakaua Avenue, ficam 18 das 39 ABC Store existentes em toda ilha de Oahu, uma das 137 ilhas do arquipélago do Havaí. Nela, é possível encontrar de água e comida japonesa, a cartão postal, roupa e protetor solar. E é justamente em frente a uma dessas lojas que Jeff trabalha todos os dias sentado na calçada.

Ele escolheu essa vida. Largou casa, família, carro e todo o luxo que tinha no Arizona, para ter um “escritório” em frente ao mar. Há 42 anos foi passar as férias em uma das sete ilhas habitadas do Havaí e por lá resolveu ficar. Trocou os dias corridos e estressantes, “por uma vida tranquila de dar inveja”.

Para ter o que comer, o homem de 64 anos vende os chamados “leis”, colares havaianos feitos de flores colhidas a 232 metros de altitude, em uma das mais famosas montanhas do Havaí. “Acordo todos os dias quando o sol nasce. Pego minha bicicleta e vou até o topo do Diamond Head. Demoro cerca de três ou quatro horas para pegar as flores. Esse é o melhor horário, porque ainda tá fresco. Se for mais tarde, elas já estão secas”.

Há quinze anos vive essa rotina. Quando volta para a praia, Jeff estende um pano na calçada, coloca os colares feitos de Plumeria lado a lado e começa a oferecer para cada pessoa que passa. O sorriso é a principal propaganda. E por dez dólares consegue vender quinze colares “em um dia bom”.

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Como o salário é incerto, o homem com sotaque “caipira” típico do Arizona, tem dupla jornada. Também como pedreiro, ele se orgulha de estar perto de deixar as noites dormidas na areia de Waikiki, para descansar pela primeira vez em uma casa desde que se mudou para a ilha. “Juntei dinheiro e a partir do primeiro dia do mês que vem estarei morando numa casa alugada no topo do Diamond Head”.

Em 2009, perdeu uma grande companheira. A namorada com quem ficou junto por um pouco mais de um ano faleceu e as cinzas estão espalhadas pelo mar, ideia do próprio Jeff. Enquanto trabalha, ele olha para praia e lembra dos momentos que passou com a amada.

O local onde fica todos os dias é de frente à ABC Store, um restaurante, um hotel e uma loja de café. Para conseguir a autorização dos comércios e vender naquela esquina, Jeff conta que precisa varrer a calçada cerca de cinco vezes ao dia. “Ainda ajudo a pegar os meninos que roubam a loja de conveniência. Um dia percebi que um grupo de jovens pegava algumas mercadorias e saíam sem pagar. Na hora fui tirar satisfação e avisei os funcionários”, sorri ao lembrar.

Apesar de não ter nada mais que uma sacola com pertences pessoais para carregar, Jeff não se arrepende de ter deixado a vida confortável do Arizona. “Foi amor à primeira vista. Depois das férias aqui não quis voltar mais. E não há coisa melhor que trabalhar com flores e de frente pro mar. Meu trabalho faz muitas pessoas sorrirem. Quando eu costumava dormir naquela praia, estava com a minha bike e meu travesseiro, vieram uns gringos que estavam hospedados num hotel. O pernoite lá é mil dólares. Eles me perguntaram se eu queria trocar de lugar com eles. E eu disse: não, obrigado. Do que adianta passar uma noite de frente para esse mar, para depois voltar a trabalhar estressado? Sou mais feliz assim…”

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2 Respostas para “PERFIL: Jeff, o caipira americano

  1. ana cristina façanha

    Amei a história do Jeff, áh se eu pudesse viver algo parecido com isso…. mas não vivo só de sonhos, costumo realizar alguns.. só alguns.. AMEI mesmo!

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