PERFIL: Fabulosa Amélie

Abro a porta de casa. Olhos inchados. Restam ainda algumas lágrimas. Dia difícil. O alívio por estar no apartamento que decorei cuidadosamente ao logo dos últimos quatro anos me acalenta.

Nem olho para a sala. Vou direto para o quarto já trocando de roupa. A calça e a camisa sujas são postas no móvel ao lado. Sapatos jogados de qualquer jeito. Cansaço. Deito na cama e me cubro. Ideias confusas e incertezas me distraem e não escuto os passos quase imperceptíveis vindo do pequeno corredor.

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Sinto a presença tímida dela na cama. Sorrateiramente, ela vai para debaixo do cobertor e se encosta a minha perna. Começa a lamber delicadamente meu tornozelo. Logo para e repousa o focinho na minha perna. Adormecemos.

Acordo com o som do despertador do celular. Ela agora está com a cabeça sobre o meu pescoço. Faço uma pergunta retórica: “Como posso amar tanto um serzinho tão pequeno?” Dou beijo nela e me levanto.

Amélie tem 4 anos. Olhos esbugalhados como de quem está permanentemente tendo um susto. Orelhas desproporcionais e quatro gravetos em forma de patas. O focinho é comprido e o nariz sempre gelado. Atualmente usa uma coleira de estampa de onça. Mas já tem uma folhada a ouro guardada na gaveta. O “guarda-roupa” conta com vestidos vermelhos, rosas, azuis e até uma fantasia de mamãe-noel.

A miniatura de pinscher tem o pelo preto, barriga pelada e pesa apenas dois quilos. “Tenho até medo de fazer carinho nela e machucar”. É um comentário comum entre os visitantes da minha humilde residência. E dá medo mesmo. Não raramente tenho síndromes de Felícia do Tiny Toon (quem tem pelo menos seus 20 e tantos anos deve lembrar) e Amélie demonstra não curtir muito. Emite uma espécie de fungada de repreensão e se afasta. Ela é tão pequena que a chamo “carinhosamente” de rato.

Quando chegou em minhas mãos, tinha apenas 40 dias e era menor que o controle da televisão. Ela custou R$ 300, valor que ainda dividi em seis vezes no cartão de crédito. A decisão de comprar Amélie foi tomada por impulso, durante um momento de carência extrema em uma das vezes que meu pai (ou painho para os íntimos) voltou para Natal depois de passar alguns dias em Campinas comigo. Despedidas são sempre angustiantes e em uma delas percebi o quanto me sentia sozinha.

Enquanto relembro a chegada dela na minha vida, me encontro sentada na cama e enrolada no cobertor. A noite está fria e ela segue deitada entre minhas pernas e, como de costume, embaixo das cobertas. “Como ela consegue respirar?”, minha mãe sempre se impressiona durante suas visitas a terras campineiras. Não tenho essa resposta, apenas sei que ela não dispensa um lençol. Basta aparecer com um cobertor que ela tenta levantá-lo com o focinho e se acomoda.

Certa vez, essa mania me pregou uma peça. “Amélie! Amélie!”, gritava sem sucesso. Eu havia passado uma noite em outra cidade e a deixado sozinha. Talvez por birra ela resolveu não me recepcionar como o usual.  O coração apertou um pouco. Será que aconteceu alguma coisa? Procurei nos dois quartos e nada. Cozinha e nada. Mas bastou olhar a coberta propositadamente deixada sobre o sofá para encontrá-la. Sorri sozinha.

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Franco-alemã

O pinscher é de origem alemã e é conhecido por ser uma das raças com mais energia do mundo. O latido é estridente. Basta ointerfone tocar que Amélie enlouquece e começa a dar voltas e piruetas pela casa. E diga-se de passagem, latindo. Às vezes parece que sofre de TPM de tão chatinha que pode ser. Mas se o cachorro é o reflexo do dono acho melhor pular essa parte.

Na minha infância eu tive um pinscher macho chamado Aleph em homenagem a uma novela que passava na época. Alguns anos depois, o nome Amélie foi retirado do filme francês “O fabuloso destino de Amélie Poulain”, de Jean-Pierre Jeunet. Além de ser o meu filme preferido, a personagem vivida por Audrey Tautou mora sozinha e possui um certo ar melancólico que me identifico sempre que coloco o DVD no aparelho para assistir. Afinal, como fala no filme: “São tempos difíceis para os sonhadores.”

Mas a Amélie pinscher  de melancolia não tem nada.  Ela faz jus à raça. Além de uma peste, também é muito fiel, carinhosa e, apesar de pequena, possui instinto de cão de guarda (se acha o próprio doberman). Sempre que escuta o meu carro entrar na garagem já fica à espreita. Confesso que não a treinei o suficiente e a única palavra de ordem que entende é “não”. Contudo, para mim está bom, já que minha intenção não é nada mais do que ter uma companhia.

Entretanto, pesquisas revelam que mais do que uma companhia agradável, os animais de estimação também fazem bem à saúde. A Universidade de Minessota nos Estados Unidos realizou um estudo que comprova que um homem que possui um gato tem 30% menos chances de sofrer um ataque cardíaco. Um teste anterior já havia comprovado que a convivência com cachorros também é benéfica às funções cardíacas e pulmonares.

Neste momento, Amélie sai um pouco das cobertas e nem olha para mim.  Toma um pouco de água e volta para a cama. Dorme tão imediatamente que é possível escutar sua respiração profunda.

Faço um carinho na cabeça dela e lembro do dia em que foi castrada. O pet shop nunca foi tão impessoal. Aguardava ansiosa e já arrependida por fazer meu ratinho sofrer. “Se você não tem interesse em colocar para cruzar, é melhor castrar”, havia orientado a veterinária. Resolvi segui o conselho ela. E naquele momento, eu me encontrava na sala de espera. Mãos suando. Impaciente. E bendita cirurgia não terminava.

“Martinha, pode entrar.” Levantei rapidamente. A cena era de amolecer até aqueles que não gostam de animais de estimação. O meu serzinho de dois quilos ainda estava dormindo na mesa fria. A pele estava gelada. Os pontos na barriga eram evidentes. “Ela vai acordar daqui a pouco, mas antes preciso te passar algumas recomendações”, disse a “médica” de Amélie. Limpeza, remédios, pomadas. Tudo comprado. E não posso esquecer da roupa cirúrgica que quase não tinha do tamanho dela.

Os gastos com a cirurgia de Amélie são insignificantes diante do enorme faturamento do setor de animais de estimação no Brasil.  O País é hoje o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. No ano passado, a área faturou mais de R$ 14 bilhões, o que representa um aumento de 16% em relação a 2011.

De acordo com um levantamento feito pela Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), o Brasil tem mais de 100 milhões de animais de estimação. Sendo que o cachorro é o mais popular. São mais de 35 milhões.

O setor é tão representativo, que a partir de 2014, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, passará a incluir os animais de estimação em seus levantamentos. Os dados farão parte da Pesquisa Nacional de Saúde,  encomendada pelo Ministério da Saúde, e integrará a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.

Deixar pra trás um cachorro

O avião pousa violentamente. Embaixo do banco da frente, os olhos esbugalhados de Amélie chamam a minha atenção por trás da tela branca da bolsa de transporte. Me dá um peso na consciência fazê-la passar por uma experiência tão desagradável. Entretanto, ela permanece quieta, apenas me encarando com cara de dó. “Como ela é quietinha”, chega a comentar uma comissária de bordo no momento do desembarque. “Ela já acostumou”, falo meio sonolenta.

Natalense de nascença, mas campineira por opção, deixei o Nordeste em 2005 e sempre que posso dou um pulinho por lá para aproveitar a companhia da família e amigos e, logicamente, as praias. Amélie, é claro, vai junto. A única vez que a deixei em um hotel para cachorros, ela voltara suja, tremendo e traumatizada. Só que para viajar com um animal de estimação, é preciso desembolsar uma quantia considerável. Na companhia aérea Azul, por exemplo, o valor é de R$ 100 por trajeto. Além do pagamento feito mediante uma reserva, a carteira de vacinação tem que estar em dia e é preciso de uma carta assinada pela veterinária constatando que o animal está apto a viajar.

Aguardo a vez de pegar minha mala, enquanto isso, uma menininha vem brincar com Amélie. Eu logo aviso que apesar de tranquila, ela não costuma gostar de estranhos, pelo menos num primeiro momento. Logo em seguida, já se rende toda. “É uma vendida”, chego a brincar. A criança coloca a mão na cabeça dela, que permite. “Ela é calminha, né? Geralmente essa raça é mais chata”, comenta a mãe da garota. Concordo.

Identifico minha bagagem na esteira e peço licença. Na porta de desembarque vejo painho. Me aproximo e dou um abraço. Amélie, esquece que existo e já pula no colo dele. É uma vendida mesmo.

Como sempre, passo poucos dias e logo enfrentamos mais um voo. Dessa vez, pelo menos, o pouso foi mais tranquilo. Chegamos em casa e ela já corre para o quarto como se estivesse me chamando para dormir. Os olhos semicerrados dela denunciam o remédio que eu dera para garantir que ela viesse mais tranquila no avião. Pego o livro “Barba ensopada de sangue” do Daniel Galera para ler e um trecho vem bem a calhar:

“Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo, disse‑lhe uma vez quando ainda era criança e a família completa vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre de parte do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá‑lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado. É um pacto que não pode ser desfeito por nós. O cachorro pode desfazê‑lo, embora seja raro. Mas o homem não tem esse direito, dizia o pai.”

Quanto a isso, Amélie pode ficar tranquila. Ela ainda vai se enroscar em muitos cobertores, me enlouquecer com os latidos depois do interfone tocar e me consolar depois de um dia difícil.

Guardo o computador e ela permanece dormindo profundamente embaixo da coberta entre os meus pés. Desligo a luz e me deito. Ela desperta e se adequa. Escolhe um lugar  mais próximo da minha cintura para voltar a dormir. Passo a mão na cabeça dela e falo: “Eu amo você, meu ratinho.” Adormeço.

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