PONTO DE VISTA: O cortejo que me encantou


Era mais ou menos cinco da tarde quando minha mãe e meu pai começavam a batalha quase in glória para tirar os filhos da casinha da árvore, se aprontarem e partirem para o espetáculo. “Circo pai?”. “Tamu ino ver o palhaço?”. Pronto. Mágica de circo e eis que as três crianças agora brigavam era para ver quem é que tomava banho primeiro.

Da roça para a cidade, as cabeças balangando dentro do carro de um lado a outro e destino certo, na hora certa.

O chão era de terra meio batida e vermelha. Na entrada uma placa com algum nome estampado. Os circos lá em Minas não eram grandes e ricos, mas tinham lá seu brilho que reluzia nos olhos. Enquanto isso, eu logo pedia uma pipoca pro pai, um palhaço que subia e descia com os movimentos das mãos, um macaquinho que descia correndo por um fio de arame. Era tudo brinquedo que brincávamos por um ano até que um novo circo lá aportava e tudo começava outra vez.

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Posso dizer que o cheirinho de pipoca era o mesmo. Que as cores por todos os cantos escreveram nos meus olhos a palavra saudade começando pela vista esquerda e encobrindo a direita… nostalgia. Senti o tão passado ditado de que não há tempo para ser criança assim que entrei por aquele portão com o nome grande gravado que dizia “Corteo”. Era Cirque du Soleil.

O cenário, claro, era outro e era rico. Neste não havia animais magrinhos que perambulavam entre o mágico, as bailarinas, a mulher maluca que girava enquanto um homem doido atirava facas em sua direção. Também não havia o globo da morte, no qual motoqueiros brincavam de me deixar aflita. Mas neste tinha o Mauro, o Palhaço Sonhador. A explanação da alegria.

O espetáculo da companhia canadense começou quase pontualmente, as dezesseis horas, se não fosse o amado trânsito da capital paulista. O dia? Era domingo, quatorze de julho e dei trabalho ao esquecer minha carteirinha de estudante em casa e ter que desembolsar mais – acredite, não é barato – cento e quarenta e cinco reais para completar meu ingresso e ir ao encontro do palhaço. Ao todo, duzentos e noventa agora valorizados reais.

Debaixo da tenda, um palco diferente dos que já vi, não que tenha visto muitos. Mas este era giratório e de trezentos e sessenta graus e eu via toda a plateia do outro lado. E que palco. Que espetáculo de união de cores, gestos, feições, canções. Une mais um monte de adereços que me perco ao elencar. Mas sou do elenco.

Componho a trupe quando, logo no primeiro momento de espetáculo, as velhas roupas todas novas ganham interpretações como já foi. Um Circo! E então, eis que minha infância é convidada a entrar no palco.

Senhoras e senhores, orgulhosamente apresentamos: Corteo. Um enredo dramático nos dezenove atos que misturam os duzentos e sessenta figurinos pincelados com mais de novecentos tipos de tecidos. Soma-se, então, duas horas e quarenta minutos (aproximadamente) de cirque.

Ao fugir da obviedade caracterizada pelos inacreditáveis números de acrobacias espetaculosas e pirâmides de gente, Corteo me encantou. Encantou ao cantar a subjetividade de não escancarar ao público – que de certa forma não entendeu ao certo “o que foi isso, quase dormi?!” – um tema para olhos esbugalhados.

Os mais de seis milhões e meio de espectadores pelo mundo que já apreciaram Corteo, querem mesmo é rir. Eles podem não entender ao certo o motivo do riso, mas seguem o ritmo acelerado das palmas e gargalham quando entra em cena o casal de anões. Anões de circo, quer coisa mais circense?

Todos os cento e trinta e seis artistas vestiram o teatro e, com uma dose de ousadia, encenaram a fantasia do rei do circo. Não, o leão não! O Palhaço.

Corteo narra a saga de um funeral criado na imaginação do Palhaço Mauro, que é acompanhado de perto por uma Anjinha que, em um dos papéis principais, ensina o já senhor do entretenimento a voar. Naquele cenário entre o céu e a terra, os anjos trazem a magia do circo que tanto encanta quem vê.

O suíço Daniele Finzi Pasca foi muito cortez ao vislumbrar nas escritas e direção as interfaces entre realezas e invenções humanas (veja o trailler: http://corteobrasil.com.br/). É chuva para os olhos ver uma bela e completa artista se equilibrar numa corda e fazer multiplicar bambolês em sua volta. Faltou só sambar com eles!

Meio a toda incandescência produzida aqui dentro, a tristeza da alegria de um palhaço era coisa pequena. Expressões perfeitas e meus olhos cegavam. Quando a comédia com uma dose depressiva entrava em cena eis que logo puxei à mente o nem tão recente filme de Selton Melo, O Palhaço. Também assim no sentido de fantasiar e desnudar a vida de palhaços que passaram suas vidas fazendo seu melhor. E o seu melhor – que Melo ilustrou muito bem como sendo também a única coisa que sabem fazer – é tirar risos espontâneos.

Corteo é cortejo, em italiano.

Corteo é fúnebre.

Corteo é morte do circo antigo. E não há renascimento de um novo circo, apenas novas maneiras de se encarar a arte circense. E Cirque du Soleil é uma delas. Brilhante, digo.

Olhares magnetizados.

Sorrisos boquiabertos.

Resultado final? Uma imersão em uma experiência artística.

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