RESENHA: Barba Ensopada de Sangue, Daniel Galera

Olho o relógio e já é quase uma da manhã. Terei que acordar dali a pouco mais de quatro horas. Mas não consigo dormir. A história contada pelo jovem escritor e tradutor Daniel Galera nas 422 páginas do seu quarto romance “Barba ensopada de sangue” passava pela minha cabeça. O final sufocante era condizente com o enredo que me prendeu desde as primeiras páginas. Sem dúvida, “Barba…” havia entrado para a lista dos meus livros favoritos e Galera o provável autor dos próximos livros que lerei.

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A história é centrada em um personagem sem nome, formado em educação física que, depois do suicídio do pai, decidira se mudar de Porto Alegre para a cidade litorânea de Garopaba, em Santa Catarina. A principal motivação dele é descobrir o que havia acontecido com o avô paterno Gaudério, que teria sido assassinado em Garopaba há mais de 20 anos. Teria, porque ninguém nunca havia encontrado o corpo.

Porém o enredo policial que, a julgar pelo título, provavelmente seria o mote da história não passa de uma das nuances exploradas por Galera. Como ele mesmo definiu durante uma entrevista ao programa “GloboNews Literatura”, “Barba…” é um romance existencial.

E não há como negar isso. Talvez até mais do que desvendar os mistérios que cercam a morte de Gaudério, o protagonista passa o livro tentando descobrir quem é. Mesmo que sem ter esse objetivo em mente. E talvez seja justamente essa busca pessoal involuntária gere tanta empatia com relação a ele.

“Tinha fantasiado uma busca duradoura ou mesmo infinita e é frustrante ser lembrado tão cedo daquilo que prefere continuar fingindo não saber, que a sensação de vazio que cobiça está dormente dentro dele e que ele arrasta consigo para onde vai.”

A tensão está presente em todas as linhas do romance. A relação conturbada entre o personagem e o restante da família é contada aos poucos. Somente no último capítulo descobrimos os porquês.

Por outro lado, o protagonista cria uma relação de total entrega e quase de dependência com a cachorra Beta. O animal era do falecido pai. Um dos trechos que evidencia o quanto Beta era importante para o personagem é quando, mesmo ferido e debilitado, ele enfrenta um grupo de nativos que havia roubado o animal. Sem contar com os incontáveis gestos de amor e companheirismo relatados no decorrer do livro. Difícil não se comover.

Quando digitei o nome Daniel Galera no Google, encontrei um site simples e de navegação quase primitiva. O fundo é amarelo e as letras marrons. Li com interesse as sinopses das obras anteriores do escritor paulistano radicado em Porto Alegre e continuei minha pesquisa. Wikipedia, twitter, o site da editora Companhia de Letras, a coluna “Pesqueiro” do jornal Zero Hora. O destaque era sempre o mesmo: o quarto livro dele “Barba ensopada de sangue”. Compartilhei o link da entrevista da GloboNews no Facebook e logo uma amiga comentou que havia se encantado pelo livro. É, com apenas 34 anos, Galera já é considerado por muitos críticos um grande escritor.

Mas voltando ao seu mais recente romance, posso afirmar que “Barba…” é uma daquelas narrativas que não permite que fiquemos indiferentes a ela. Certas angústias e questionamentos expostos pelo protagonista nos aproxima dele. Involuntariamente, passamos a torcer por ele e, é claro, por Beta.

Outra questão determinante para a história é o fato de o personagem possuir uma doença neurológica chamada “prosopagnosia”,  ou como é conhecida, “cegueira para feições”. Contudo, apesar do nome popular estar relacionado à cegueira, a doença não tem nada a ver com a falta de visão, mas sim com a incapacidade de reconhecer rostos.

E neste ponto, a prosopagnosia é fundamental para compreendermos um pouco mais a postura do protagonista diante das pessoas. A impossibilidade de reconhecer os rostos, até mesmo o dele, faz do personagem uma pessoa reclusa e que sempre tenta manter uma certa distância dos outros.

“Não consigo conviver muito tempo com ninguém. E tinha isso em mente ao decidir que não teria telefone em casa. Se houvesse a possibilidade das pessoas me ligarem, eu sofreria demais nas noites em que ninguém ligasse. Quando ligassem, eu me irritaria por estarem me incomodando.”

Só que esse distanciamento deixa de ser conveniente quando ele mesmo passa a sofrer por isso e quase implora para ser resgatado. Desespero que fica evidente no trecho: “Sente a presença constante de uma coisa indefinida que está demorando para acontecer. Fases assim são o mais próximo que conhece da infelicidade. Às vezes desconfia de que está infeliz. Mas se ser infeliz é isso, pensa, a vida é de uma clemência prodigiosa. Pode ser que ainda não tenha visto nem sombra do pior, mas se sente preparado.”

Protagonista cheio de nuances, reflexões pessoais, conflitos internos, narrativa ágil. Sem dúvida, “Barba ensopada de sangue” é um daqueles livros para se ter em casa e para ser lido com calma, com prazer. Já Galera é um escritor que ainda vamos ouvir muito falar. Sem dúvida.

 

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