CRÔNICA: O bom da memória é o cheiro!

Drummond implorava por anúncios, textos, bigornas, bigodes feitos, pernas bonitas, bancos de praça, sorvete na calça, óculos limpos, pipoca após a missa!

Drummond implorava aos cantos por contos que o fizesse enxergar quão maravilhosa era sua terra que mais cheirava orvalho das montanhas que o cercavam.

Minas Gerais!

Todas as manhãs o café era quente para contrastar com a água gelada que escorria minguada pelo cano meia boca da torneira do banheiro vermelho. O rosto até trincava!

Mas minha mãe dizia para lavar o amanhecido e tirar as rugas da noite. E que noite fria!

Chega a doer a espinha somente de lembrar… Ai! Que frio. Pior que frio na barriga quando sentia medo… Bem pior!

A roupa então era posta sobre a cama arrumada e ia diretamente para o corpo que tentava se esconder do ventinho que passava pelas frestas da janela de madeira azul. E que azul! Tão belo quanto meu pássaro Sanhaço. Morreu. Comeu batata crua.

Então me esperavam sentados com os pés encolhidos: mamãe Maria, papai Torquato, irmão Bael, irmã Paloma e o fiel Snoopy. O cão de todas as horas e verdadeiro comedor de galinhas frescas que piavam pelos canteiros da horta.

Ah, ainda não te contei! Morávamos em uma chácara. A Chácara São Camilo, onde os visitantes tentavam se encorajar para fisgar um peixe enquanto eu mais meus irmãos já havíamos enchido um barril de tilápias!

Então era hora de limpar os cantos da boca com o pedaço do toalhado florido da mesa. Minha mãe sempre fora romântica por demais. Nossas camas eram banhadas de enxovais brancos com florais estampados, as cortinas, as almofadas e toda a decoração de casa levava uma pétala de rosa que fosse. Vai ver por isso hoje não levo o romantismo à frente…

Mas voltando ao claro passado.

O carro se transformava todos os meses. A situação em casa era boa. Farta! Íamos à praia ao menos uma vez ao ano. “Ubatuba, aí vamos nós!”. Felizes da vida.

As vacas da chácara eram gordas e enchiam os latões com seus leites brancos e untuosos como elas somente.

Neste dia meu pai dirigia um FIAT 147, bege, bancos de couro e até com teto solar. Em época de Copa do Mundo o 147 bombava de crianças saltando pelo teto! Estampávamos sorrisos de vitória e demonstrávamos a situação que o país se encontrava: pão e circo. Tudo era esquecido por meses… Só falava-se em Romário, Bebeto, Branco, Tafarel…

Eu era a Bebeta! Corria e chutava para meu irmão, vulgo Tafarel nestas épocas. Logo menos o drible da Romaria, a caçula, e Branco, o pai de família, chamava a atenção de todos os familiares que avistavam a “pelada” sentados na varanda da confortável casa de antigamente.

E o FIAT ia pela estrada de terra e buracos. Balançávamos de cá e o encontro de cabeças era inevitável. Até que a briga de irmãos culminava. A mãe ficava doida da vida e o pai não perdia o bom-humor acompanhado da calma que sempre carregou.

O choro era grande. A boca da caçula arregaçava até onde não mais poderia conseguir!

E chegamos à escola.

Casarão branco e verde. Janelas altas e pesadas que machucavam os dedos das pobres crianças incomodadas com o vento e a água da chuva.

O tempo na cidade estava bom. Nunca fazia calor tremendo e sempre apanhávamos casacos antes de sair de casa.

A grande Muzambinho se castigava de frio. As paredes encolhiam e rezavam pelo solzinho da tarde… Ai como era bom!

Como era bom não pensar no trânsito, no sapato, na blusa combinando com a ramona na cabeça.

Como era bom sentir o cheiro da poeira penetrante até nas folhas dos meus caprichosos cadernos de menina aspirante à Jornalista.

Era bom assim como hoje é diferente.

Diferente nas suas angústias de mulher crescida, com afazeres, namorado, casa para cuidar, gasolina para encher, compras a fazer, cabelo a escovar, dentes a mostrar e dinheiro a ganhar.

No regular vou participando dos momentos.

Momentos presentes que trazem o passado como explosões dos maiores vulcões da América Latina. Existem vulcões na América? Claro, meu senhor!

O cheiro do café do colega pela sala… é presente do presente! Agora me vou até lá adoçar bem uma xícara de café preto como a preta velha.

Hum…

O vento trouxe alguns respingos da fraca chuva que cai fora de mim e o cheiro me fez lembrar das praias que conheci quando viajava na própria imaginação. Muitas horas de viagens… Dias e dias.

E tem o perfume da amiga que traz à mente o rosto da tia da infância.

Tem a mente produzindo gostos e cheiros todo o tempo.

Agora o aroma reluziu ao milho cozido de beira-mar com bastante sal, para manter a pressão em dia, e um pucado de manteiga melada.

Às minhas memórias dedico todo meu passado e ao meu futuro não esqueço de agradecer o presente de existir agora.

O ciclo se fecha, mas recomeça em tempos curtos, tão curtos que não damos conta do quanto nos reciclamos. Não sei qual será o produto final da minha próxima própria reciclagem… Sei somente que espero não me transformar em plástico vagabundo pelas ruas ambulantes sem tempo para morrer e esperando um pé para ser chutado.

Ah! O bom da memória é o cheiro…

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