PERFIL: A razão de afetos

A lousa da sala de aula encontra-se desértica. Pronta para receber somatórias da matemática, ângulos da física, cálcios da química e demais matérias da vida dela que é filha de pai sírio e mãe mineira.

Vida antes de viver

Ainda era mil novecentos e oito quando Maria Gabriela, uma jovem de longos cabelos e saias pra baixo dos joelhos, mirou o olhar e atirou paixão rumo ao recém-fugido-chegado Elias Dipe. Ali, na minúscula Muzambinho, começaram a escrever o livro da vida de uma família que já passa dos trezentos parentes. A mirrada mineira, conhecida anos mais tarde por Vó Côca, então pariu seus doze filhos: Hercília, Armedes, Pedro, Hélio, Quincas, Francisco, Helena, Lurdes, João, Maria, Elias e Ássima.

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Entre eles, Hercília Dipe cá chegou em quatro de outubro de mil novecentos e vinte e dois. E posso dizer que ela é alta se comparada à estatura média da gelada cidade que se esconde entre as montanhas cafeeiras e vacas Holandesas com suas farturas de leite que logo e tão bem se transformam em queijos e doces divinos. Hoje, Muzambinho, a Sul de Minas Gerais e também tida como uma mineira com cabelos de café, tem pouco mais de vinte e dois mil habitantes – e na somatória está a massiva zona rural. Mas então, ela é alta perto dos um metro e sessenta centímetros das mulheres de grandes feitos. E os de Hercília requerem sensibilidade para ouvir pelas palavras.

Palavras que embelezam uma das prateleiras da Casa de Cultura de Muzambinho. Palavras que, reunidas, contam a trajetória da formação da família Dipe e, consequentemente de Hercília, a tia querida de toda uma cidade. Palavras que forram as páginas do livro “A verdadeira Pátria”, de Maria Ignês Bócoli Martins, detentora da quarta cadeira cativa da Academia Muzambinhense de Letras e sobrinha da tia. Com vida narrada em poesia, Maria Ignês retoma dados e datas até mesmo antes de Elias (o pai) nascer, na Síria, quando seus jovens pais, Dipe Zideni e Fatum Bardum, ainda em mil oitocentos e noventa e cinco, entre fugas e tanta terra arenosa, cruzaram o brilho dos olhares para nascer o menino.

E foi entre banhos de cultura, frutas da região, trigo, azeitonas e rebanhos de carneiros que o pai de Hercília viveu até seus sete anos de idade. Até que uma brincadeira de meninos tragicamente travou a mudança dos seus passos.

Era tarde de sol rachante na Síria. Tão quente que não se traduz, mas que cooperou para alastrar o fogo que Elias e os primos resolveram atear em um monte de palhas que ficara ao lado do trigo seco que a família síria havia acabado de panhar. Brincadeira que acabou em fogo na certa. E navio à vista. O destino era a França, que fez de Elias um homem mesmo com sete anos de idade. Lá ele aprendeu a língua e a viver os contratempos de um tempo sem pais.

Idas e vindas e eis que o garoto aporta, finalmente, em terras brasileiras. De Santos para São Paulo e de São Paulo para o sul das minas gerais: a tal Muzambinho. O negócio com os primos, também sírios, ia bem e o pai de Hercília cada vez mais ambientado com os mineiros hospitaleiros. Se bem que não era difícil, pois na cidade havia muitos estrangeiros. Entre estes, os africanos ganhavam na proporção. A título de curiosidade, Muzambinho foi a primeira cidade brasileira a abolir a escravatura.

Hoje já se passaram noventa e um anos. Hercília, a filha mais velha, resguarda-se. Havia um degrau no meio do caminho, no meio do caminho havia um degrau no qual ela, há quase dois anos, viu o chão de perto. E eu, a vi de longe. A fina moça de longas pernas caíra sem chances. O médico alertou: franqueza nos ossos.

Cuidadora rezadeira

Lá, naquele canto de Minas, os dias geralmente se arrastam numa nefasta sensação de liberdade. Dentro do fusca branco, as orações inseparáveis de Hercília ganhavam mais sentido e o calor do sol fazia com que elas surtissem efeito nos sobrinhos para quem ela as destinava. Era assim que suas tardes pós-almoço seguiam.

Pois sim. Hercília foi a pajem da maioria dos hoje homens e mulheres formados. Seus pais, todos parentes da tia, acalmavam seus pensamentos por saber que o dia de trabalho seria levemente contrastado com a reunião de crianças para ela cuidar. E cuidar mesmo, com carinho de mãe e ensinamentos de professora que tão bem passou pelas salas de aula da cidade e região. Principalmente pelas zonas rurais – nestas, deixou que a poeira fosse apenas pano de fundo para os dias de longas caminhadas ou mesmo trotes a cavalo até chegar às escolas estaduais e proferir com sua postura. Fina. Moça sempre muito fina.

Mais aí, entre as muitas cabeças que ziguezagueavam pela sua casa do raiar do sol às tantas da noite, eis que surgia ela com o vestido levantado, preparando uma suposta maratona de ponta a ponta da casa, com a anágua à mostra e os sobrinhos meninos de olhos estatelados. O desespero batia, tinha que bater a uma senhora, esguia, que a certa altura do dia calava aos gritos da pequena multidão de alunos parenterais. Era então que, entre as corridas pela casa com a anágua à mostra, sua tentativa de silenciar as pequenas bocas caia por terra. Afinal, não era sempre que os meninos avistavam a calçarola de uma senhora na expectativa de ser ouvida.

Pronto. Nada resolvido e muitas risadas tiradas. A bagunça estava pregada e Hercília já não tinha mais porque correr pela longa casa. Então sentava-se entre os sobrinhos e, com voz de velório, começava a sussurrar cabulosas histórias que vinham do seu mundo paralelo.

Mundo paralelo que não tinha a presença de homem, mas de um chapéu à entrada de casa para garantir a segurança. Afinal de contas, caso alguém ali batesse, veria que “é uma casa de respeito”, como ela sempre dizia.

E então, seu sussurro era como alto-falante de carro de gás. Alto. Ele contrastava com a bagunça e em minutos os pequenos estavam em sua volta postos a serem conduzidos por contos que amedrontavam a ponto de todos caírem em sono profundo.

Eis então que a professora cumpriu seu papel. E pela casa não mais corria, apenas trocava o giz e a lousa pela pia na qual lavava as roupas, o escovão que lustrava o sempre lustrado chão e a cozinha que nunca cozinhara.

Entre as gostosas correrias, Hercília era acompanhada de um baixo, porém sempre notável, assovio. Nele, a tia – razão do meu afeto – cantarolava canções de igreja. Canções que fizeram parte do trio formado pelos irmãos Ciquinho, Helena e Hercília. E que marcaram as missas da cidade.

Reminiscências

Lá está ela, intacta. As vidas vão acontecendo nas suas intensidades. As crianças já não são mais as crianças. E então, com a força do tempo batendo em suas portas, eis que as lembranças daquele afeto se enfeitam nas memórias. Eles, todos os que tiveram algum tipo de convivência com Hercília, hoje submetem-se à lembranças para bendizer o pesado.

“Nos sonhos mais lindos, sonhei… em que tu eras mil um castelo ergui (…)”. A primeira lembrança do sobrinho Felipe Dipe, dezoito anos de Muzambinho e nove de medicina em terras cariocas, remetem-se à bela voz que ecoava casa adentro enquanto na sala estavam as crianças tentando assistir à televisão. “O porão da sua casa era cheio de relíquias, como fantasias da época em que tia Hercília desfilava pelos carnavais da cidade ou mesmo fazia as fantasias para as sobrinhas se divertirem nos bailes matutinos”, para Felipe, que graças à “infância querida que os anos não trazem mais”, a tia foi grande responsável por lembranças que o fazem hoje impor devidos valores aos devidos acontecimentos. Como, por exemplo, quando ela fazia questão de, mesmo ele estando com uns quilinhos acima do peso, dizer  que “assim é que é bonito! Você está bonito, gente magra não é boa coia!”, “ela dizia isso e eu, com mais alguns primos, dávamos conta de uma panela todinha de brigadeiro feito com o leite condensado que tia Hercília fazia questão de estocar para não fazer falta nas nossas tardes de estudos ou apenas de andanças pela cidade”.

A tia criou estereótipos que acompanham e farão companhia aos sobrinhos até momentos sem calendário.

Para Sofia Dipe, menina sinônimo de pequena fortaleza poética com seus quinze anos de idade, as lembranças da tia ecoam por toda casa e têm início nos cheirosos cafés da tarde servidos à Rua Sete de Setembro. E mais que isso, as lembranças ecoam dentro da pequena grande adolescente que sonha em poder sempre continuar sonhando assim como as personagens das histórias, as vezes trágicas, mas tudo bem, que tia Hercília proferia na tentativa de desviar atenções e ninar as crianças. E ela, que era uma criança até poucos anos, hoje rouba a cena com uma maturidade que chega a assustar os menos providos de crenças superiores a terços bíblicos que cegam alguns olhos. “Tia Hercília sempre esteve presente. Está presente. Ela cuidava de cuidar de mim, conversando como professora e aconselhando como amiga mais velha”. Conselhos estes que vez ou outra passavam despercebidos, mas que em situação ou outra voltam a se encaixar na vida de Sofia.

Enfim e afins

Foi então que a alegria muito grande de se fazer entrevistas e transformá-las em perfil se desfez. Meu sentimento de sobrinha cuidada se confrontou com o papel escolhido de jornalista quando, numa tarde linda de começo de inverno na cidade que tia Hercília tomou como seu mundo, eu perguntei, com o gravador ligado: “Tia, fala pra mim seu nome completo e qual é mesmo a sua idade?”. E aqueles olhinhos hoje pequenos e com cerca de meia dúzia de rugas me olharam sem saber o que dizer. Ela calou-se e eu insisti. Mais algumas perguntas, mais alguns detalhes que ela, só ela poderia me dar para enriquecer o texto que não morrerá, mas nada. Tia Hercília, tão vívida e que me ensinou a viver, não concatena mais as ideias.

Ela vive de um passado que agora tem apenas algumas sílabas que formam palavras curtas. Voz leve, lá no fundo…“Então vamos cantar?”, eu tentava. “Aquela música da Índia a senhora lembra…”. Com os dentes sorrindo, eis que ela começou a cantar e eu, do outro lado da cadeira de rodas na qual hoje ela se assenta, comecei a lembrar. “Índia seu cabelos, Índia seu cabelos nos ombros caídos (…)”. Lembrar de que o que tenho guardado aqui é daquele tempo de lá. Que hoje venho somando livros e juntando palavras para que estas não me faltem um dia. Mais que tolice!

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2 Respostas para “PERFIL: A razão de afetos

  1. Otávio Dipe

    Parabéns, muito bom, tia Hercília sempre foi e sempre será especial em nossas vidas

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