REPORTAGEM: “Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”

18h00. Segunda-feira.

“Formação”, anuncia pontualmente a treinadora Fabiana Belai. Imediatamente, os cerca de 15 alunos se posicionam em duas filas indianas em frente a ela. Todos vestem shorts de cores fortes. Laranja, roxo, rosa, azul turquesa, vermelho. O meu neste dia devia ser um dos mais discretos, preto, mas confeccionado a partir de um tecido meio brilhante e com dizeres vermelhos e amarelos. As bandagens enroladas nas mãos também coloridas ajudam a compor o ambiente, assim como as tatuagens estampadas nos corpos  da maioria dos alunos. Do lado esquerdo, o ringue.

“Oss”, ela diz. E com as duas mãos unidas levadas à altura do queixo, abaixamos um pouco a cabeça simultaneamente e respondemos em coro: “Oss.”

Depois dos cerca de 5 a 10 minutos de alongamento, é a vez do aquecimento. Nos dias de mais preguiça, o momento mais temido do treino. Pelo menos por mim.

“Correndo”, orienta Fabi, como é chamada por todos.

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Os pés pisam o tatame preto. Todos correm em círculo atentos aos próximos comandos. “Lateral”, “jab e direto”, “ joelho no peito”, “agora joelho no peito e jab e direto”,  “inverte a corrida”. “Tiro direto no corredor”. Meu olho sempre procura o relógio localizado na parede. Faço as contas para saber quanto ainda falta para acabar o aquecimento. “Pode caminhar”, a treinadora finalmente anuncia. E quando eu já me dirigia ao bebedor, escuto: “Todos no saco”. Respiro fundo como se assim fosse recuperar as forças e presto atenção às próximas orientações. Escolho o saco de costume e parto para cima.

“Pronto. Podem molhar a boca rapidinho. Depois, luva, caneleira e formem dupla”, explica. Busco minha parceira costumeira com o olhar e pego meus equipamentos.

Agora sim vem a segunda parte do treino. O momento em que são passados os golpes e quando afinamos os movimentos. Dependendo do dia da semana, a segunda meia hora é destinada ao “sparring”, que popularmente podemos entender como “hora da porrada”.

Ouvimos as orientações com atenção. “Pode começar”, avisa Fabi. Hoje é dia de Muay Thai, bebê. “Oss”.

Paixão prescrita pelo médico
Fabiana Belai tem 33 anos e exibe uma longa cabeleira preta e lisa geralmente presa em um rabo de cavalo, além de uma silhueta enxuta (para não dizer enxutíssima). O jeitão marrento disfarça a docilidade presente quando já se mantém um pouco mais de contato com ela. Mas que é justificado por uma vida se não dedicada, mas permeada pelas artes marciais.

“Aos sete anos eu era uma criança muito peralta e minha mãe me levou ao médico para saber se havia algum problema comigo. Ele explicou que eu tinha muita energia e que precisava gastar. E como tinha uma academia de kung fu perto de casa, comecei a fazer.” A transição das aulas paras os ringues demorou um pouco. A primeira competição só aconteceu aos 12 anos, mas já na categoria adulta, uma vez que não era comum na época garotas como ela praticarem a modalidade.

Dois anos mais tarde, Fabi trocou o kunk fu pelo kickboxing, modalidade de luta que a tornou campeã brasileira e pela qual representou o Brasil em um campeonato na Polônia. Só que naturalmente ela foi se aproximando do Muay Thai. E aos 21 anos ela foi consagrada campeã brasileira. “São 5 rounds de 3 minutos. Foi uma luta dura, mas sem dúvida a melhor luta da vida”, revela nostalgicamente.

O Muay Thai é uma arte marcial tailandesa com mais de dois mil anos de existência e inclui golpes combinados de punhos, cotovelos, joelhos canelas e pés. Para dominar os movimentos é preciso muito treino e dedicação. Motivos pelos quais Fabi se viu obrigada a parar de competir.  A carreira em ascendência como lutadora contrastava com a falta de incentivo do setor no País. E a campeã brasileira de kickboxing e Muay Thai precisou deixar os ringues um pouco de lado e se dedicar aos estudos.

Fabiana estudou administração e se formou em RH. “Queria fazer educação física, mas como havia começado a  trabalhar na parte administrativa de um hospital, comecei a fazer administração, mas nunca larguei mão. Parei de vez de lutar, mas comecei a dar aulas em uma academia perto do hospital. E logo que aqui abriu eu vim pra cá. ”

Converso com Fabi entre os treinos das 18h00 e das 19h30. Aos poucos os alunos vão chegando e observam nós duas sentadas no canto do ringue. Falta pouco para a próxima aula. Encerro a entrevista e nos despedimos. Ainda suada, paro para beber água antes de descer as escadas rumo à saída. Admito que até me dá uma vontade de treinar novamente. Mas passa. Afinal, amanhã tem mais.

“Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”
A frase acima foi retirada do livro o “Avesso das coisas” de Carlos Drummond de Andrade e possivelmente minhas companheiras de Muay Thai Flávia Galdino, Isabela Antonialli e Ana Paula Taglioni devem se identificar com ela.

Flávia tem 36 anos, é professora de uma tradicional escola de Campinas e pratica Muay Thai há quatro anos. Deste então, foram 10 quilos perdidos. Loira, olhos claros e vaidosa. Características que fogem do estereótipo de uma pessoa boa de briga. Entretanto, não se pode deixar enganar pelo jeito meigo e rostinho maquiado antes da aula. Aquele cruzado de direita me faz correr longe.

Ela conta que começou a praticar o esporte com o marido Vicente. “A gente procurou uma atividade motivacional e como sempre gostamos de artes marciais começamos a fazer Muay Thai.” Hoje a dupla está na sexta graduação. Só que o “corpitcho” impecável de quem já tem um filho até que crescidinho também é mantido à base de muita musculação e alimentação balanceada. São cinco treinos por semana, além dos quatro de Muay Thai.

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Isabella, ou Isa como é chamada por todos da academia Fighter`s Camp, também escolheu a modalidade de luta com o objetivo de ter uma vida mais saudável. Ela chegou a flertar com o boxe, mas o negócio dela mesmo era dar uns chutes nos outros. E quando digo “outros” me refiro a mim mesmo, já que ela é a minha dupla nos treinos. Mas brincadeiras à parte, Isa já pratica o esporte há dois anos e contabiliza 17 quilos a menos, resultado só alcançado também devido ao acompanhamento de uma nutricionista.

Além dela, o irmão de 7 anos e o pai também frequentam a mesma academia. Às vésperas do vestibular, a estudante conta que o muay thai ajuda a controlar a ansiedade. “Ajuda a desestressar. ‘Tá’  me tranquilizando muito, além do povo ser muito legal.”

Não posso esquecer da campineira mais “arretada” que conheço: Ana Paula Taglioni, de 28 anos. Assim como Isa, ela mora perto da Fighter’s Camp. Bugrina roxa não perde um jogo e nem um treino. Ela começou a fazer Muay Thai na mesma época que eu, há uns 10, 11 meses. Nós graduamos juntas inclusive. Enquanto ainda luto para chegar aos 10 quilos perdidos, ela já comemora os 13, alcançados por meio de muita disciplina e dedicação. “Muda a cabeça, muda o corpo, muda tudo. Sou uma pessoa muita mais tranquila hoje. Até meio boba”, comenta entre risadas.

Ana é mãe de Caio, de 2 anos, e promete que assim que o filho tiver idade suficiente, vai colocá-lo na aula de Muay Thai infantil. Outro objetivo dela é competir. Prometo estar na plateia.

Arte das oito armas
Ainda nas escadas escuto a voz da Fabi. “Vai, vai, vai. Não para. Kaio abaixa o queixo. Fecha a guarda, fecha a guarda.” As orientações são para Kaio Luvizetti, de 23 anos. Ele e Welington Guerra, de 25 anos, estão treinando para participar de uma luta no dia 8 de setembro em Limeira.

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Sabe a expressão “só de olhar cansa?”, pois ela se aplica perfeitamente à ocasião. Os dois estão no ringue transbordando de suor. Luvas, caneleiras, capacete, bocal e colete.

Respiração ofegante. “Joelhada. Joelhada.” Impossível imaginar que a dupla ainda consiga absorver os comandos da treinadora. “Cotovelo, vai, vai, vai.”

E na hora do nosso treino, quando acreditei que os dois iriam descansar, ouço: “Saco!”

Esse será o segundo confronto para Kaio que frequenta a academia de segunda a sábado e alia os treinos de Muay Thai com os exercícios de musculação. Na primeira luta, o juiz deu empate técnico. Kaio lembra da sensação quando estava em cima do ringue: “Foi diferente.  Adrenalina a mil. Primeira vez que senti esse tipo de sensação.” E garante que a experiência apenas o motivou a treinar mais: “Você acha que ‘tá’ bem mais não ‘tá’. Percebe que tem que melhorar. Mesmo assim eu gostei.”

Já Welington, que apesar de ter somente dois anos a mais que Kaio, possui mais experiência que o parceiro de treino. Ele é natural de Vargem Grande do Sul, cidade com menos de 40 mil habitantes e que fica a quase duas horas de Campinas. Ele conheceu o universo das artes marciais com o pai, que era capoeirista. A partir de capoeira Welington conhecei o Jiu Jitsu e depois o Muay Thai.

Hoje o lutador é faixa roxa em Jiu e ponta preta em Thai. Porém o sonho dele é ser um grande campeão de MMA. Ele conta que já tem algumas lutas marcadas na modalidade e que, apesar de todas as dificuldades, está focado no seu objetivo. “Viver de luta não é fácil. É difícil encontrar alguém para investir. Agora ‘tô’ morando na academia e  ‘tô’ dando aula para bancar o treino, alimentação e transporte para os campeonatos.”

Welington comemora quatro vitórias em quatro lutas de MMA. Já no Muay Thai foram 11 lutas e somente uma derrota.  “O treinamento é muito forte. Precisa de gás, explosão, força e técnica. Tem que chegar no seu limite. Que nem, já em dois treinos cheguei a vomitar pra aumentar o ritmo.”

Mas além da força física, ele garante que o melhor não só do Muay Thai, mas como de toda arte marcial são as lições que podem ser aplicadas para situações fora dos tatames. “Essa vontade quando você ‘tá’ no seu treino você fala não dá mais, chega no limite, mas sempre dá mais um pouquinho e na vida é assim. Você pensa que não tem saída, que não dá mais, mas sempre tem um pouquinho, sempre pode continuar. Você cai, levanta a cabeça e continua.”

Depois dessas palavras só me resta concordar e dizer: “Oss.”

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2 Respostas para “REPORTAGEM: “Só é lutador quem sabe lutar consigo mesmo”

  1. ana paula

    Marthinhaaaa.. Minha eterna parceira…
    Otimo.o texto….amei mesmo
    e obrigada pelos sete anos a menos kkkkk

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